TIRADENTES E O ARQUÉTIPO DE JESUS CRISTO
Ao longo da vida, Joaquim José da Silva Xavier exerceu diversas profissões: a de dentista (“tira-dentes”), minerador, comerciante e, claro, alferes.
No começo, Tiradentes se envolveu no movimento da Inconfidência Mineira pelo mesmo motivo da maioria de seus companheiros: insatisfação pessoal com a Coroa. Com o passar do tempo, já dentro do movimento, Joaquim adquiriu consciência política e compreendeu que a luta em que estava envolvia causas nobres, como a instalação da República e o fim da cruel dominação portuguesa.
Após ficar três anos preso no Rio de Janeiro, Tiradentes foi enforcado em 1792. Esquartejado, ele teve as partes do corpo expostas em diferentes locais públicos de Vila Rica, atual Ouro Preto, para “servir de exemplo”.
Tiradentes morreu como traidor do Brasil, mas anos depois foi considerado herói. O dia da morte, 21 de abril, é feriado em todo o país. Ele foi declarado patrono cívico da nação brasileira no dia 9 de dezembro de 1965, com a publicação da Lei de nº 4.897, no governo de Castello Branco.
O texto diz que a homenagem a ele pretende destacar que a condenação de Joaquim José da Silva Xavier não deve manchar a memória dele, que é “reconhecida e proclamada oficialmente pelos seus concidadãos, como o mais alto título de glorificação do nosso maior compatriota de todos os tempos”.
De uma maneira geral, a imagem de Tiradentes relaciona-se à do herói nacional, aquele que deu a vida pela pátria e pela independência do Brasil.
O fato de não existir nenhum retrato de Tiradentes facilitou a apropriação de sua imagem por diversos grupos sociais e a associação de seu martírio ao de Jesus Cristo. Nesse sentido, aplicou-se a Tiradentes o que eu chamo de “arquétipo de Cristo”.
O psiquiatra suíço Carl Jung – criador da psicologia analítica - ajudou a popularizar esse termo. “Arquétipo” é um conceito que representa o primeiro modelo de algo. O termo teve origem na Grécia antiga e nasce da junção das palavras: “archein” que significa “original ou antigo” e “typos” que significa “padrão, modelo”.
Foi importante também, para essa aplicação do arquétipo, o fato de o “herói da Inconfidência” ter sido, muito provavelmente, o único conjurado pobre e que, em princípio, teria mais contato com as camadas populares, apesar do caráter elitista do movimento.
A simbologia cristã apareceu em várias obras de arte. No quadro “Martírio de Tiradentes”, de Aurélio de Figueiredo (1854-1916), o mártir é visto de baixo para cima (o que transmite grandeza), como um crucificado, tendo aos pés um frade (primeiro elemento explicitamente religioso), que lhe apresenta o crucifixo (segundo elemento explicitamente religioso), e o carrasco da Capitania, de joelho dobrado, cobrindo o rosto com a mão (numa referência ao soldado romano que reconheceu a divindade de Cristo na cruz). É uma cena de pé da cruz, em alusão ao episódio bíblico.
Mesmo na representação chocante de Pedro Américo (1843-1905), a referência a Cristo é inescapável. Seu “Tiradentes Esquartejado”, de 1893, mostra os pedaços do corpo sobre o cadafalso, como sobre um altar. A cabeça, com longas barbas e cabelos ruivos (primeira referência a Jesus Cristo), está colocada em posição alta (segunda referência a Jesus Cristo), sobre um pano branco que serve como uma espécie de imitação de auréola (terceira referência a Jesus Cristo), tendo ao lado o crucifixo (quarta referência a Jesus Cristo), numa clara sugestão da semelhança entre os dois dramas. Além disso, a trave da forca faz referência à trave da cruz do Messias. Um dos braços pende para fora do cadafalso, citação explícita da “Pietá” de Michelangelo (1475-1564). Ainda destaca-se uma curiosidade: o tronco com a perna de Tiradentes formam a imagem do mapa do Brasil, demonstrando o intuito de alcance nacional da Conjuração Mineira (de início, o movimento não teve o alcance nacional que bem mais tarde lhe foi conferido. Foram necessários exatamente 100 anos, isto é, em 1889, no contexto da Proclamação da República, para que houvesse a preocupação em resgatar a figura de Tiradentes. Afinal, ele esteve envolvido em um movimento no qual os ideais republicanos estiveram presentes).
Claramente, a figura do mártir Tiradentes obteve essa aplicação do arquétipo do mártir Jesus Cristo com objetivo de transmitir através da imagem o feito heroico daquele homem. Não significa, portanto, que Tiradentes é um mito. Pelo contrário, o que fez junto à Inconfidência foi de importância singular para a História nacional. Antes, quer dizer que a imagem foi moldada com sentido estético e artístico com fins de informação e impacto.
Logo, vale esclarecer que, diferente do que mostram as imagens dos livros didáticos, Tiradentes nunca usou barba e cabelos longos. Por ser militar, o máximo que poderia usar era um discreto bigode. Na hora do enforcamento, ele estava de cabelo raspado e barba feita. Porém, assim como outros elementos das retratações, foram colocados justamente para assemelhar a figura do mineiro com a do nazareno.
(Referências bibliográficas: https://g1.globo.com/google/amp/mg/minas-gerais/noticia/2022/04/21/quem-foi-tiradentes-e-por-que-21-de-abril-e-feriado-no-brasil-inteiro.ghtml; https://educacao.uol.com.br/noticias/2022/04/21/15-curiosidades-sobre-tiradentes-que-voce-nao-aprendeu-na-escola.amp.htm; http://www.tancredoprofessor.com.br/conteudo/93/tiradentes:-um-heroi-para-a-republica; https://www.douglasmaluf.com.br/os-12-arquetipos-de-jung-qual-e-o-seu/)
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