“O AUTO DA COMPADECIDA” (2000): ANÁLISE TEOLÓGICA

Já assisti e reassisti “O Auto da Compadecida” (2000) incontáveis vezes. Pelo que lembro, todas pela televisão, mais especificamente na tela da Globo.

Alguns anos atrás, por volta de 2016, redigi um pequeno artigo em meu Facebook analisando o filme sob um aspecto mais teológico – motivado pelo fato de que, na época, eu estava cursando a faculdade de Teologia.

Porém, não utilizo mais essa rede, e acabou que o texto se perdeu.

Entretanto, em meio ao fulgor do anúncio da segunda parte do “Auto”, 25 anos depois do original, me vi na obrigação não apenas de assistir novamente uma das maiores obras do cinema brasileiro – baseada na peça teatral homônima –, mas também a escrever um novo artigo. Dessa vez, assisti não ao filme, mas aos episódios da minissérie exibidos em 1999 (contudo, na versão remasterizada que a Globo expôs na programação em 2020).

Uma semelhança é que a imagem que ilustra ambos os textos é a mesma: uma charge publicada no jornal Correio Popular em ocasião da morte do autor Ariano Suassuna, em 2014.

Falando nele, o universo de Suassuna é encantador. A sensação que tenho ao contemplar a obra é de fazer uma viagem ao Brasil profundo, mais especificamente ao sertão nordestino. O cangaço e uma realidade social sofrida estão presentes na trama. E, claro, também a religião.

Na verdade, é como se a religião em si fosse um personagem do enredo. Percebe-se que esse elemento era caro a Ariano Suassuna.

Em uma entrevista marcante ao Canal Brasil, o escritor afirmou que acreditava em Deus, e discorreu: “Eu não conseguiria conviver com essa visão amarga, dura, atormentada e sangrenta do mundo. Então, ou existe Deus, ou então a vida não tem sentido nenhum. Bastaria a morte pra tirar qualquer sentido da existência”.

Disse que a religião é quase um personagem, mas, de fato, ela é personificada em dois personagens centrais. A consagrada atriz Fernanda Montenegro (à época, acabando de sair de uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz pela atuação no filme “Central do Brasil”, de 1998) está no papel de Maria, creditadas como “A Compadecida”. Ademais, Jesus Cristo é interpretado por Maurício Gonçalves (filho do saudoso Milton Gonçalves, estrelou novelas como Sinhá Moça, Começar de Novo e Estrela-Guia, além de filmes como Se Eu Fosse Você, de 200; e Cidade dos Homens, de 2007).

O livro “A Cabana”, de William P. Young, gerou um intenso debate por representar o Deus Pai como uma mulher negra. Há dois quesitos aqui: a questão da referida primeira pessoa da Trindade ser denominada “Pai” está mais ligada a um arquétipo jungiano do que a um elemento de sexo em si, pois o único o qual sabe-se a esse respeito é Jesus, que era um homem judeu. Tanto é que, para representar o Pai no teto da Capela Sistina na famosa obra renascentista “A Criação de Adão”, Michelangelo baseou-se em Zeus, deus-mor da mitologia grega. Portanto, o Pai ser representado como uma mulher não constitui-se em heresia. Agora, em relação à questão racial, as dúvidas estão relacionadas tanto a um elemento cultural quanto, infelizmente, a preconceito. Explico: muitos ficaram impactados com o fato do Pai de “A Cabana” ser uma mulher negra, pois estão acostumados com o Jesus/Deus europeu extensivamente representado nas obras de arte, cinematográficas, etc. Todavia, sendo um judeu do Oriente Médio, a fisionomia de Jesus estaria longínqua dessas representações. Logo, o costume cultural poderia trazer esse impacto estético. Todavia, é inegável que para tantos outros trata-se de preconceito mesmo, por não conceberem um Deus negro.

O mesmo ocorre em “O Auto da Compadecida”. Jesus é representado como um homem negro. E Ele diz para João Grilo: “Você também é cheio de preconceitos de raça. Eu vim hoje assim de propósito porque eu sabia que isso ia despertar comentários”.

Segundo uma matéria da BBC News Brasil, a historiadora neozelandesa Joan E. Taylor, autora do livro “What Did Jesus Look Like?” (Qual era a aparência de Jesus, em tradução livre) e professora do Departamento de Teologia e Estudos Religiosos do King’s College de Londres, relata que “os judeus da época eram biologicamente semelhantes aos judeus iraquianos de hoje em dia. Assim, acredito que ele tinha cabelos de castanho-escuros a pretos, olhos castanhos, pele morena. Um homem típico do Oriente Médio”.

A figura de Maria também é muito importante na obra. E, aqui, abro parênteses: sou cristão-evangélico, e isto não me impede de reconhecer a importância de Maria enquanto símbolo nacional. No livro “Aparecida”, o jornalista Rodrigo Alvarez escreve na Introdução que “O Brasil começava construir sua identidade e precisava de tudo, inclusive de uma santa”. E prossegue: “O Brasil ainda estava se acostumando a viver numa República, sem os nobres herdados de Portugal, mas passava a ter, tardiamente, uma rainha. Era um passo decisivo para a consolidação de uma imagem nacional que se completaria algumas décadas depois com sua proclamação como padroeira do Brasil” (pág. 182). Nesse sentido, vai para além do âmbito confessional/religioso por si só, mas diz respeito a um elemento sócio-cultural presente na história do nosso país.

João Grilo (Matheus Nachtergaele) e Chicó (Selton Mello) embarcam numa aventura envolvente pelo sertão nordestino. Talvez, só de falar o nome desses dois sua memória já remeteu à trilha sonora marcante e ao bordão “Não sei, só sei que foi assim”.

Nos momentos iniciais do longa já temos o anúncio dos dois amigos acerca da exibição de “A Paixão de Cristo”, que, nas palavras de Chicó: “Um filme de aventura que mostra um cabra sozinho, desarmado, enfrentando o Império Romano todinho!” E João Grilo complementa: “Não percam! A história de um vivente que é Deus e homem ao mesmo tempo!”

A paróquia, assim como o Padre João (Rogério Cardoso) e o Bispo (Lima Duarte), possuem centralidade na trama. E é interessante observar como a Igreja possuía não só um peso/autoridade religioso, mas também social/secular. Não que hoje não tenha, mas refiro-me ao fato por exemplo da excomunhão ser sinônimo de exclusão social, e daí justifica-se o medo do padeiro Eurico (Diogo Vilela).

O nome de Padre Cícero também é mencionado diversas vezes no enredo (em uma das ocasiões, Capitão Severino aceita ser morto para ir encontrar com o “Padim”). A história conta que no dia 1º de março de 1889, durante uma missa, ao colocar a hóstia na boca de uma religiosa, a hóstia teria se convertido em sangue. Devotos afirmaram se tratava de um milagre – a hóstia havia se convertido no sangue de Cristo. Todavia, a Igreja discordou e ele foi suspenso de suas ordens sacerdotais em Juazeiro. Contudo, isso ao impediu a devoção dos fiéis e, inclusive, Padre Cícero tornou-se o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, em 1911, mediante a independência do município do Crato, ao qual era subordinada.

A Teologia sempre terá sua vez e voz, e obras como “O Auto da Compadecida” ratificam isso.




(Referências bibliográficas: https://m.youtube.com/watch?v=Beq961fusnk; https://www.terra.com.br/diversao/entre-telas/filmes/como-estao-os-atores-de-o-auto-da-compadecida-25-anos-depois,2a76f967a7ab33a4104192bfa46c6537dm9klgw7.html; https://www.bbc.com/portuguese/articles/cv2jxgkyykro; https://g1.globo.com/ce/ceara/cariri/noticia/2023/07/23/entenda-por-que-nao-ha-imagens-de-padre-cicero-nas-igrejas-de-juazeiro-de-norte-onde-ele-e-considerado-santo-por-romeiros.ghtml)



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