DE ONDE VIERAM OS QUATRO SÍMBOLOS DOS EVANGELHOS?
Como foram atribuídos os símbolos dos quatro Evangelhos? A
arte cristã sempre representou cada evangelista por um ser vivente: Mateus é
simbolizado por um homem; Marcos, por um leão; Lucas, por um touro; e João, por
uma águia.
O fundamento desses ícones é bíblico e devidamente
reconhecido pelos Pais da Igreja. O livro do Apocalipse de João, por exemplo,
traz a visão de quatro seres viventes que rendiam glória a Deus:
“O primeiro animal vivo assemelhava-se a um leão; o segundo,
a um touro; o terceiro tinha um rosto como o de um homem; e o quarto era
semelhante a uma águia em pleno voo. (...) Não cessavam de clamar dia e noite:
Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, o que é, o que era e o que
deve voltar.”
Os mesmos quatro animais estão em outra visão do profeta
Ezequiel:
“Distinguia-se no centro a imagem de quatro seres que
aparentavam possuir forma humana. (...) Quanto ao aspecto de seus rostos tinham
todos eles figura humana, todos os quatro uma face de leão pela direita, todos
os quatro uma face de touro pela esquerda, e todos os quatro uma face de águia.”
Mas, afinal, por que esses quatro animais foram
identificados com os evangelistas? O primeiro autor cristão a utilizar essa
analogia foi Irineu de Lyon, seguido por Agostinho de Hipona. Os dois, no
entanto, associaram os animais aos evangelistas de forma diferente da que se
usa hoje, posto que a ordem dos Evangelhos, no começo da Igreja, ainda não
estava bem definida.
Foi Jerônimo de Estridão quem começou a tratar os
evangelistas da forma como são tratados hoje. Gregório Magno explica com
clareza por que referenda a sua atribuição:
“Que na verdade estes quatro animais alados simbolizam os
quatro santos evangelistas, é o que demonstra o próprio início de cada um
destes livros dos evangelhos. Mateus é corretamente simbolizado pelo homem
porque ele inicia com a geração humana; Marcos é corretamente simbolizado pelo
leão, porque inicia com o clamor no deserto; Lucas é bem simbolizado pelo
bezerro, porque começa com o sacrifício; João é simbolizado adequadamente pela
águia, porque começa com a divindade do Verbo, dizendo: ‘No princípio era o
Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus’ (Jo 1, 1), e assim
tem em vista a substância divina, fixando o olhar no sol à maneira de uma
águia.”
Na mesma homilia, o Papa e doutor da Igreja vai ainda mais
fundo na meditação da profecia de Ezequiel:
“Mas, já que todos os eleitos são membros do nosso Redentor
e o próprio nosso Redentor é a cabeça de todos os eleitos, através daquilo que
simboliza os seus membros nada impede que neles todos ele também seja simbolizado.
Assim, o próprio Filho Unigênito de Deus se fez verdadeiramente homem; ele se
dignou morrer como bezerro como sacrifício de nossa redenção; ele, pelo poder
de sua força, ressuscitou como leão.”
“Conta-se que o leão dorme até mesmo de olhos abertos,
assim, o nosso Redentor pela sua humanidade pôde dormir na própria morte, e
pela sua divindade ficou acordado permanecendo imortal. Ele também depois de
sua ressurreição subindo aos céus, foi elevado às alturas como uma águia.”
“Portanto, ele é inteiramente para nós, seja nascendo como
homem, seja morrendo como bezerro, seja ressuscitando como leão, seja subindo
aos céus como águia.”
“Mas, (...), estes animais simbolizam os quatro evangelistas
e ao mesmo tempo, através deles, todos as pessoas perfeitas. Falta-nos então
demonstrar como cada um dos eleitos se encontram nesta visão dos animais.”
“De fato, cada pessoa eleita e perfeita no caminho de Deus é
seja homem, seja bezerro, seja leão, seja águia. De fato o homem é um animal
racional. O bezerro é o que se costuma oferecer em sacrifício. O leão é a mais
forte das feras, como está escrito: ‘O leão, o mais bravo dos animais, que não
recua diante de nada’ (Pr 30, 30). A águia voa para as alturas, e sem piscar
dirige seus olhos aos raios do sol. Assim, todo o que é perfeito na
inteligência é homem. E quando mortifica a si mesmo e a concupiscência deste
mundo é bezerro. É leão porque, por sua própria e espontânea mortificação, tem
a fortaleza da segurança contra todas adversidades, como está escrito: ‘O justo
sente-se seguro e sem medo como um leão’ (Pr 28, 1). É águia porque contempla
de forma sublime as coisas celestes e eternas. Sendo assim, qualquer justo é
verdadeiramente constituído homem pela razão, bezerro pelo sacrifício de sua
mortificação, leão pela segurança da fortaleza, águia pela contemplação. Assim,
através destes santos animais, se pode simbolizar cada um dos perfeitos.”
Agradeçamos a Deus pelo envio de Seu Verbo, manifestado a
nós pelo dom de um “Evangelho quadriforme”, como diz Irineu de Lyon, lembrando
sempre que nenhum livro é capaz de conter Jesus Cristo.
(Referências bibliográficas:
https://padrepauloricardo.org/episodios/de-onde-vieram-os-quatro-simbolos-dos-evangelhos;
Ap 4, 7-8; Ez 1, 5.10. Trata-se de uma visão provavelmente influenciada pela
cultura assíria – lembrar que, nessa época, o povo de Deus estava exilado na
Síria –, que tinha o Lamassu, um touro com cabeça de homem, patas de leão e
asas de águia, como divindade protetora; Contra as Heresias, 3.11.8; O Consenso
dos Evangelistas, 1.6.9; Gregório Magno, Homilia sobre Ezequiel, 4.1-2; Cf. Jo
20, 30-31)
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