O DEUS TOTALMENTE OUTRO

Para o teólogo alemão Adolf von Harnack (1851-1930), Jesus não era o filho de Deus único e sobrenatural, mas a encarnação do amor e dos ideais humanistas. Já na visão do também teólogo alemão Wilhelm Herrmann (1846-1922), a Bíblia não era a Palavra infalível de Deus, e sim um livro extraordinário, ainda que ordinário, cheio de erros e que exigia uma crítica radical para encontrar a verdade. A medida de toda a verdade era a experiência, o sentimento.

Ambos era patrícios e mentores do teológo Karl Barth (1886-1968). Porém, em certo momento houve uma ruptura intelectual nessa tríade.

O que podemos chamar de liberalismo clássico foi repudiado por Barth, em certo momento. O liberalismo havia exaltado o uso aculturado da religião; Barth condenou a religião como o pecado máximo. O liberalismo edificou a teologia sobre a base da ética, Barth quis edificar a ética sobre a base da teologia.

Além de argumentar que a Bíblia salta (para utilizar o termo kierkegaardiano) de um mero livro para a revelação divina e salvífica quando o próprio Deus fala por meio dela – e aqui eu faço uma ligação com o calvinismo no sentido de ser crucial uma ação primeira de Deus, através de sua Graça Irresistível, para que as esferas vitais humanas outrora maculadas pelo pecado deem lugar a uma possibilidade de apreensão da revelação -, o comentário de Barth também introduziu um novo método para explicar a teologia, a dialética. Esse termo ficou rapidamente associado à obra de Barth, ainda que o método tenha sido tomado por empréstimo do teólogo existencialista Soren Kierkgaard. Kierkgaard havia dito que toda afirmação teológica era paradoxal, não podendo ser sintetizada. O homem devia somente conservar ambos os elementos do paradoxo. É esse ato de sustentação do paradoxo que Kierkgaard chama de salto de fé.

Tal conceito influenciou muito a teologia barthiana, de maneira que quando preparava o comentário aos Romanos, Barth afirmava que “enquanto estamos na terra, não podemos fazer outra coisa em teologia a não ser utilizar o método de afirmação e contra-afirmação. Não nos atrevemos a pronunciar em forma absoluta a palavra definitiva […] O paradoxo não é acidental na teologia cristã. Ele pertence, em certo sentido, ao coração do pensamento doutrinário”. A própria natureza da revelação, segundo Barth, é um paradoxo: Deus é o oculto que se revela; conhecemos a Deus e conhecemos o pecado; todo homem é escolhido e também reprovado em Cristo; o homem é justificado por Cristo, mas ainda é pecador. Certo comentarista observou que, segundo a teologia dialética de Barth, a revelação que vem de cima para o homem, ao encontrar a contradição do pecado e finitude humana, só pode ser assimilada pela mente humana como sendo um paradoxo.

Num outro aspecto, o comentário de Barth veio reafirmar a transcendência absoluta de Deus. Afinal, um dos pressupostos do teólogo, que também é um legado kantiano, é que Deus é sempre sujeito, nunca objeto. Deus não é simplesmente uma unidade no mundo dos fenômenos; ele é infinito e soberano, Totalmente Outro, e só pode ser conhecido quando nos fala. “Ele não pode ser explicado como qualquer outro objeto pode ser, apenas podemos nos dirigir a Ele […] Por esta razão, não cabe à teologia medí-lo em uma forma de pensamento direto ou unilinear”. Não podemos falar a respeito de Deus. Apenas falamos a Deus. Segundo Barth, a própria natureza de Deus exige que as afirmações que lhe dirigimos sejam revestidas de contradição: “Não podemos considerá-lo perto, a não ser que o consideremos longe”.

Sem dúvida o grande tema de Barth, em oposição declarada ao liberalismo, foi a “infinita diferença qualitativa” entre eternidade e tempo, céu e terra, Deus e o homem. Não se pode identificar Deus com nada no mundo, nem sequer com as palavras da Escritura. Deus chega ao homem como a tangente que toca o círculo, mas na realidade não o toca. Deus fala ao homem como a bomba explode na terra. Depois da explosão, tudo o que resta é uma cratera abrasada no terreno, e essa cratera é a igreja.

Ademais, o comentário de Barth também demarcou a fronteira entre a história e a teologia.

A teologia do século dezenove se dedicou a procurar o Jesus histórico por detrás do Cristo sobrenatural da Bíblia. Os liberais clássicos como o professor de Barth, Harnack, se dedicaram a buscar nos evangelhos – os quais eles condenavam como não-confiáveis – os fatos históricos sobre Jesus. Barth asseverou que essa busca é um a busca sem importância, pois, segundo ele, a revelação não entra na história, apenas a toca como uma tangente toca um círculo. Segundo Barth, não há nada na história sobre o que possamos basear a fé. A fé é um vazio preenchido não pela história, mas pela revelação.

Profundamente influenciado pelos conceitos de história de Kierkgaard e de Franz Overbeck, Barth dividiu a história em dois níveis: Historie e Geschichte. Ainda que ambos os termos possam ser traduzidos por história, no alemão, a conotação que essas duas palavras têm é bem diferente. Historie é a totalidade dos fatos históricos do passado, podendo ser comprovada objetivamente. Geschichte se ocupa daquilo que une essencialmente, que exige algo de mim e requer meu compromisso. Segundo Barth, a ressurreição de Jesus pertence ao âmbito de Geschichte, não de Historie. Para ele, o âmbito da Historie de nada vale para o crente. Jesus deve ser confrontado no âmbito de Geschichte.

Mais uma vez a influência do pensamento de Immanuel Kant sobre a teologia de Karl Barth, principalmente no que concerne ao mundo dos fenômenos e dos números é muito grande, podendo-se até dizer que a teologia contemporânea tem sua raiz em Konigsberg, na Prússia.

Em outro momento, Barth afirma que, a partir de Deus, e precisamente de sua revelação em Cristo, o ser humano pode aceitar a si mesmo e viver a vida como uma dádiva.

Pelo fato de Deus ser humano, afirma Barth, nós também podemos tentar sê-lo. Deus é tão outro, tão diferente de nós, que pode ele ser, em Cristo, humano. Os homens e mulheres, religiosos e laicos, cristãos ou não, não sabem o que significa humanidade: só Deus, em Jesus, pode lhes dar a resposta.

Em suma, o que o alemão quis estabelecer como ponto reflexivo é que Deus não pode ser esgotado mediante o intelecto humano. Aliás, a definição do latim mysterium fidei consiste justamente naquilo que pode ser abordado, mas jamais esgotado – e não “mistério” no sentido de ser proibido.

Tal raciocínio se faz presente quando Barth menciona o balbuciar humano diante da magnitude divina, não podendo encerrá-la com afirmações; na necessidade de uma ação precedente da Trindade para que a Bíblia torne-se a Palavra de Deus diante dos nossos olhos; a soberania de Deus e a diferença qualitativa em Sua Pessoa e em tudo o que é anterior ao conceito de tempo-espaço tal qual o conhecemos; a História que não pode por si mesmo conter Deus; o Totalmente Outro que se encarna e impacta a humanidade através da plena e genuína vivência do que é ser humano.

 

(Imagem: TIME Maganize Cover - April 20, 1962 | Vol. LXXIX No. 16)

 

(Referências bibliográficas: https://teologiacontemporanea.wordpress.com/2009/10/07/a-teologia-dialetica-de-karl-barth-e-a-revolta-contra-o-liberalismo-teologico/; http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/585274-barth-e-o-totalmente-outro)

 

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