O LIVRE-ARBÍTRIO
“De fato, não é porque o homem pode usar a vontade livre para pecar que se deve supor que Deus a concedeu para isso. Há, portanto, uma razão pela qual Deus deu ao homem esta característica, pois sem ela não poderia viver e agir corretamente. Pode-se compreender, então, que ela foi concedida ao homem para esse fim, considerando-se que se um homem a usar para pecar, recairão sobre ele as punições divinas. Ora, isso seria injusto se a vontade livre tivesse sido dada ao homem não apenas para agir corretamente, mas também para pecar. Na verdade, por que deveria ser punido aquele que usasse da sua vontade para o fim para o qual ela lhe foi dada?”
(AGOSTINHO. O livre-arbítrio. In: MARCONDES, D. Textos básicos de ética.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.)
O filósofo defendia que o livre-arbítrio foi dado ao homem, contanto que
utilizasse de acordo com a ética da responsabilidade, ou seja, caso o homem
usasse sua liberdade para pecar, receberia a punição divina e isso comprovaria
sua insuficiência moral.
Há pelo menos três tipos de meios pelos quais Deus pode se revelar: nas
Escrituras (sendo que, antes da formação do cânon bíblico, o povo judeu tinha à
disposição os rolos com a literatura divina, além dos profetas que serviam como
“boca de Deus”), no cosmos e a ontológica.
No primeiro item, é evidente que a tradição oral foi redigida a fim de garantir
a perpetuação, originando a literatura veterotestamentária e, logo,
incorporando-a no Novo Testamento; no segundo item, o teológico bíblico
apóstolo Paulo argumenta: “Pois desde a criação do mundo os atributos
invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos
claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais
homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram
como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis
e os seus corações insensatos se obscureceram” (Rm 1:20-21).
Nesse
sentido, até mesmo aqueles que não tem acesso ao cânon também podem discernir a
existência de Deus através da Sua criação; em relação ao terceiro e último
item, fazemos referência à moral ontológica, segundo a carta paulina: “Vós
mesmos tendes demonstrado que sois uma carta de Cristo, resultante de nosso
ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em
tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos!” (2 Coríntios 3:3). O
homicídio é errado tanto no Brasil quanto na China, mas aqueles que optam por
fazê-lo estão suprimindo essa moral ontológica.
Postas todas essas possibilidades, o livre-arbítrio nos foi dado para agir de
acordo com os preceitos éticos e morais, conforme a própria essência divina.
Todo ato divergente desse aspecto consiste numa escolha consciente e pessoal,
assim como a escolha de Adão e Eva, visto que o pecado é incompatível com o
Deus que é três vezes santo (“kadosh, kadosh, kadosh”), sendo a culpabilidade
atribuída aos anjos e/ou aos homens.
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