O LIVRO DE ELI | RESENHA

[Este artigo contém spoilers do filme “O Livro de Eli”]


Já perdi a conta de quantas vezes assisti ao filme “O Livro de Eli” (2010). Trata-se de uma das mais belas pérolas da última década, com todo potencial para se tornar cult. Afinal, a trama não segue a linha do blockbuster no sentido de querer explicar tudo, amarrar cada ponta solta, jogar na tela todas as informações para o público. Nesse aspecto, é similar a um estilo europeu no sentido de deixar cada um refletir e completar as lacunas propositalmente deixadas pela história contada.

Sabemos que o protagonista (cujo nome viríamos a descobrir apenas no final, sendo que até na metade da trama ele dizia ser “ninguém”, quando indagado) vivido por Denzel Washington é um andarilho num mundo pós-apocalíptico. O Sol emite radiações prejudiciais à visão, e por isso todos usam óculos escuros. Há extrema escassez de água e comida, tanto é que alguns se alimentam de carne humana - e são mal vistos por isso, e identificados pelas mãos trêmulas.

Carnegie, brilhantemente interpretado por Gary Oldman, é o líder de uma espécie de vilarejo. Ele é um dos únicos que lê, e logo na primeira cena em que aparece, está com a biografia de Mussolini em mãos - o que nos indica o tipo de governa totalitário adotado por ele no local. Inclusive, esse aspecto de ele dominar o conhecimento é elencado como uma das características de sua “mão de ferro”, isto é, aquele que conhece domina sobre os que não obtêm conhecimento.

Carnegie está loucamente atrás de um livro em específico: a Bíblia. Segundo ele, há poder nas palavras do livro sagrado em questão, e evocando-as ele teria certo controle sobre a população, pois o livro teria as palavras certas para oferecer propósito, motivação e, sendo palavras da Bíblia, todos estariam dispostos a obedecer, diferente se fossem palavras apenas dele.

Pode-se inferir que uma Guerra Santa ocorreu, pois em determinado momento Eli afirma que a Bíblia começou o conflito, e trataram de queimar todos os exemplares, restando apenas um - no caso, o que estava sob posse do protagonista.

 

Na trama, o sistema monetário é bem diferente do costumeiro. As cédulas dão lugar a objetos, transmitindo a ideia de uma retorno a práticas remotas, no caso, o sistema de trocas. Roupas, cobertores e óleos são itens que servem para dar em troca de um cantil cheio de água, por exemplo.

Falando num aspecto mais técnico, percebemos logo no começo que a música é um fator que conecta Eli com o mundo antigo e sua própria humanidade, a exemplo do que James Gunn faz em seu “Guardiões da Galáxia” para conectar o protagonista - que vive no espaço - com a Terra.

Em certos momentos, as câmeras filmam o personagem de baixo pra cima, com o claro intuito de destacar a superioridade deste. Nessa mesma linha, logo depois do título é dado um close no céu, justamente para denotar o aspecto da transcendência que permeia a obra - sendo que, em momento algum, é mencionado que a voz ouvida pelo herói é a voz de Deus, apesar de muitos elementos apontarem pra isso; conforme mencionado, o longa não dá todas as respostas, mas deixa para o espectador completar as perguntas.

O aspecto monocromático - com cores escuras - domina a fotografia da película, reforçando a atmosfera de um mundo que nunca mais foi o mesmo após o evento cataclísmico.

 

Vemos que Eli é de certa forma protegido, e até o segundo ato da produção muitos podem pensar que ele é um ser sobre-humano. Tal possibilidade cai por terra quando um tiro de Carnegie deixa-o gravemente ferido. Isso dialoga com a teologia, pois na Bíblia (elemento central no enredo) os heróis da fé não eram semideuses, visto que o próprio livro deixa claro as fraquezas de cada um. Porém, nem por isso deixaram de ser abençoados por Deus e cumpriram firmemente o propósito a cada um designado, a exemplo de Davi, Pedro e Paulo - e Eli, no filme.

No fim, após sacrificar tudo para obter o almejado livro, Carnegie se vê frustrado (e derrotado) diante de uma cópia da Bíblia em braille. Sim, Eli é cego! O filme dá uma pista disso quando ele diz: “Sou guiado pela fé, e não pela visão”. Literalmente! Um livro que, apesar de estar diante dos seus olhos, parece estar a quilômetros de distância, conforme dito por Claudia, sua companheira. De fato, aqueles que não desejam ler a Palavra com os olhos iluminados pela pureza do Espírito, de fato não extrairão em nada o que o texto sagrado quer nos comunicar.

Enfim, o herói chega até Alcatraz (que se tornou um centro cultural) e dita a Bíblia página por página para que ela seja plenamente difundida na imprensa do local. Esse elemento um tanto fantasioso - um homem gravar de cabeça as Escrituras de Gênesis a Apocalipse - destaca a preocupação da obra em, acima de tudo, conta uma boa história, e não esmiuçar detalhes.

“O Livro de Eli” é um filme que merece ser assistido inúmeras vezes, e em cada experiência, um novo detalhe poderá ser observado.


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