PROFUNDIDADE INTELECTUAL

O buraco do coelho em “Alice no País das Maravilhas”, do escritor britânico Lewis Carroll (1832-1898). A oração como chave da alma na experiência mística da freira carmelita Teresa d’Ávila (1515-1582). O guarda-roupa que leva para outro mundo nas crônicas de C.S. Lewis (1898-1963). Os segredos mágicos a serem descobertos pelo personagem Doutor Estranho, da Marvel Comics. A pílula vermelha no filme “Matrix” (1999).

O que todos esses itens possuem em comum?

O mártir São Justino (100-165) foi um filósofo leigo a quem o Papa Emérito Bento XVI definiu como “o mais importante dos Padres Apologistas do segundo século”. Uma das ideias mais inspiradas da obra de São Justino, e muito elogiada pelo Papa Bento XVI, é a das “sementes do Verbo”: Justino afirmou todo homem participa do Logos, ou seja, do Verbo Eterno de Deus, e, portanto, traz em si uma “semente do Verbo”, que pode germinar e chegar à plenitude. Isto quer dizer que em cada cultura humana existem sementes da Verdade que podem frutificar, à medida que os mitos vão cedendo espaço ao reconhecimento da Verdade plena, revelada por Deus ao longo da história e culminada em Cristo, que é a própria Verdade, Caminho e Vida.

Em suma, trata-se de um conceito iluminador sobre como Deus vai preparando todo ser humano para conhecer e aderir à Verdade plena.

Ou seja, se levarmos em consideração essa tese teológica, discerniremos que a Verdade também está presente de maneira disseminada, a tal ponto de capilaridade que pode ser percebida em diferentes manifestações.

Os itens citados tem em comum o conceito de uma intencionalidade que precede uma profundidade a fim de se alcançar o máximo da plenitude do conhecimento. Isto é, a Verdade não será alcançada de maneira superficial, mas profunda; não de forma acidental, mas intencional; com dedicação, e não negligência.

Vale a citação de dois exemplos bíblicos para ratificar esse conceito, sendo uma do Antigo Testamento e a outra do Novo, a fim de realizarmos uma teologia sistemática.
“A glória de Deus é ocultar certas coisas; tentar descobri-las é a glória dos reis” (Provérbios 25:2);
“Jesus proclamou: ‘Graças te dou, ó Pai, Senhor dos céus e da terra, pois escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos pequeninos’” (Mateus 11:25).

Faz-se necessário, portanto, um esforço diligente para se obter o conhecimento, um escape do lugar-comum, uma intenção de não se contentar com o aparente e superficial.

Diversas religiões, inclusive o cristianismo, trabalham com a questão do mistério enquanto conhecimento secreto/oculto que há de se desvelar mediante um esforço intelectual e disposição espiritual do indivíduo. As falas de Jesus são significativas: Porque a vós outros foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles isso não lhes foi concedido (Mt 13:11) e Abrirei em parábolas a minha boca; proclamarei coisas ocultas desde a fundação do mundo (Mt 13:35). Ou seja, o próprio Cristo afirmou que os fiéis discípulos teriam contato com aspectos mais profundos do Reino de Deus a partir de uma revelação do próprio Deus. Ademais, dizer que há conhecimento ocultos é bíblico, conforme pode ser visto no segundo versículo destacado. Porém, tais conhecimento podem ser desvelados justamente através de uma ação primária de Deus com um esforço intelectual e disposição espiritual do indivíduo.

Devemos nos lembrar que o Senhor se agrada do nosso querer progredir e aprofundar no conhecimento. Portanto, tais mistérios são colocados para que o discípulo escrutine onde está o seu coração. Pois onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração (Mt 6:21). E a própria Bíblia compara os conhecimentos ocultos/misteriosos do Reino com um tesouro escondido, mais uma vez evidenciando que é necessário um aprofundamento. Jesus ensinou: O Reino dos céus assemelha-se a um tesouro escondido no campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o novamente. Então, transbordando de alegria, vai, vende tudo o que tem, e compra aquele terreno (Mt 13:44). Nos tempos antigos, o povo costumava esconder coisas de valor no campo (para evitar um saque quando um exército se aproximava). 

A glória de Deus é ocultar certos conhecimentos; tentar desvendá-los é a glória dos reis.
(Provérbios 25:2)


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