SALTO DA FÉ

Para o filósofo e teólogo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), salto da fé é uma expressão utilizada para explicar a ruptura do estádio ético para o estádio religioso da existência. O homem que se encontra no estádio ético em determinado momento se depara com o arrependimento e com a consciência da sua finitude, da certeza da morte.

Não é sem motivo que a expressão salto é utilizada. Afinal, romper com a mera satisfação proveniente de uma autojustificação adquirida mediante práticas virtuosas e cumprimento de preceitos éticos para adquirir um estado de introspecção pneumatológica, de fato requer uma atitude existencialmente abrupta.

O teólogo alemão Karl Barth (1886-1968) dialoga com a teologia kierkegaardiana. A própria natureza da revelação, segundo Barth, é um paradoxo: Deus é o oculto que se revela; conhecemos a Deus e conhecemos o pecado; todo homem é escolhido e também reprovado em Cristo; o homem é justificado por Cristo, mas ainda é pecador. Certo comentarista observou que, segundo a teologia dialética de Barth, a revelação que vem de cima para o homem, ao encontrar a contradição do pecado e finitude humana, só pode ser assimilada pela mente humana como sendo um paradoxo.

Nesse sentido, a relação entre Deus e o homem não consiste em uma intersecção de duas subjetividades, mas sim como uma inefável força que arrasa o local o qual fora direcionada. Agostinho de Hipona compreendeu esse conceito ao escrever: “Minha alma é morada muito estreita para te receber: será alargada por ti, Senhor”.

Essa incompatibilidade ontológica parecer ser devidamente solucionada, segundo a teologia cristã, mediante uma apreensão da vicariedade que envolveu a encarnação do Verbo. E esta apreensão precede o salto da fé, pois a garantia da correta assimilação desse contexto envolve uma ação do próprio Deus em nossas esferas vitais.

É por tal motivo que, em sua Teologia da Palavra de Deus, Barth insistiu na distinção entre a Bíblia e a Palavra de Deus. Este era seu legado kantiano.

Segundo o teólogo alemão, pode-se ler a Bíblia sem ouvir a Palavra de Deus. A Bíblia é simplesmente um livro, mas, pelo menos, um livro através do qual nos pode chegar a Palavra de Deus. A relação entre Deus e a Bíblia é real, porém indireta. A Bíblia, diz Barth, “é a Palavra de Deus enquanto Deus fala por meio dela […] a Bíblia se transforma em palavra de Deus nesse momento”.  Para ele, até que a Bíblia se torne real para nós, até que ela nos fale da nossa situação existencial, ela não é Palavra de Deus. Isto é, a devida percepção da Bíblia enquanto Palavra de Deus é consequência de uma ação permissiva do próprio Deus em nossas esferas vitais. Esse é o conceito barthiano de revelação.

Da mesma forma, o salto da fé e a aceitação dos paradoxos enquanto mysterium fidei e a possível diluição da não-compreensão destes mediante o contato com as Escrituras (a ponto de ser tornarem Palavra de Deus, seguindo a linha de pensamento de Barth) são precedidas pela apreensão da vicariedade cristológica que, por sua vez, desemboca numa ação trinitária no âmago do indivíduo, capacitando-o portanto para vivenciar estes dois fatores mencionados inicialmente.

O patriarca Abraão é um sólido exemplo de alguém que deu esse salto da fé, ao tornar secundários os paradoxos que envolviam uma constante interação com o ser Totalmente Outro. Não contentando-se com preceitos estritamente éticos e propondo-se no descobrimento da transcendência, naturalmente a dialética que envolve essa confiabilidade veio à luz. Entretanto, a mesma confiabilidade desembocou na capacidade de efetuar o “salto da fé” a ponto de suas atitudes serem convergentes com aquilo que era professado.

 

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