SIGMUND FREUD: ID, EGO E SUPEREGO

Na Antiguidade, os homens considerados cultos eram aqueles que conheciam os mitos. Sim, aquelas histórias dos doze trabalhos de Hércules, por exemplo, ou “Odisséia”, de Homero. A tragédia grega surgiu em uma sociedade intrinsicamente guerreira, justamente para mitificar o herói trágico, que rompia o senso comum (ou o “nihilo” do cosmos, como veio a refletir o filósofo alemão Friedrich Nietzsche no século XIX) em prol de algo maior - pelo menos em relação a sua vida.

Nesse sentido, podemos inferir que os mitos (ou o arcabouço religioso sistemático e doutrinário) nos comunicam uma sabedoria milenar adquirida perante a observação de mundo, em uma época não-tecnicista no sentido empírico “de laboratório”, mas ratificada pelo tempo e causalidade.

Logo, pensemos na figura do anjinho e do diabinho cochichando, um de cada lado, nos nossos ouvidos. Ilustração típica de desenho animado. O diabinho incita uma ação relacionada ao prazer e ímpeto instintivo, enquanto o anjinho realiza ponderações e aponta eventuais consequências.

Em sua obra “Além do Princípio do Prazer” (1920), o psicanalista austríaco Sigmund Freud dissertou sobre o id, superego e ego - algo que ganhou mais corpo num ensaio lançado três anos depois, “O Ego e o Id”. Freud afirma que temos uma instância psíquica que só quer saber de ir atrás de prazer, como se não houvesse amanhã. É o que ele chamou de id, uma espécie de subpersonalidade tarada, agressiva, egoísta e mimada, que vive brigando com duas outras instâncias: o superego e o ego. A primeira é repressora, um avesso do id, enquanto a segunda é conciliadora, tenta encaixar as doideiras do id nas exigências do mundo real.

Em 1954, pesquisadores da Universidade McGill, no Canadá, descobriram que ratinhos podiam se matar de tanto perseguir sensações de prazer. Os cientistas introduziram eletrodos em algumas partes do cérebro dos animais e, quando um rato batia a pata numa alavanca, ele recebia um estímulo elétrico nessas regiões. O estímulo tanto podia ser prazeroso como repulsivo, ou não provocar reação nenhuma no bichinho. A surpresa veio quando a escolhida foi a área septal do sistema límbico – uma parte responsável pelas nossas emoções. Os ratos gostaram tanto dos choquinhos nessa área do cérebro que não pararam mais de bater na alavanca, sem dar bola para mais nada. Mais nada mesmo: esqueceram-se de comer e beber, e morreram de cansaço.

Essa área, sabe-se hoje, está relacionada às nossas sensações de prazer, principalmente prazer sexual – é onde fica nosso centro de orgasmo. E o estudo canadense revelava ali, mais de 60 anos atrás, a evidência de que temos um centro de recompensa no cérebro e que ele incita comportamentos inconsequentes de autoestimulação – que podem ser muito destrutivos, levando à morte até. Funcionou assim para o tesão dos ratinhos, funciona assim para os mais variados vícios dos seres humanos. Ou seja, o experimento ratificou o que Freud descobrira décadas antes.

Curiosamente, a neurociência também descobriu mecanismos cerebrais que freiam nosso impulso de só agir por prazer. Em 2012, a Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, comprovou por ressonância magnética que temos uma área no cérebro, o córtex pré-frontal dorsolateral, que entra em ação sempre que precisamos de autocontrole – diante da quarta fatia de pizza, por exemplo.

O paralelo existe, mas os anjinhos e diabinhos da mente humana são muito diferentes dependendo de o ponto de vista ser freudiano ou da neurociência. O sistema límbico tem suas autorregulações, está longe de ser algo como o id caótico de Freud, incitador de barbaridades e comportamentos imprevisíveis. Mas o denominador comum é um fato que tanto a ciência moderna quanto a psicanálise identificaram: nossa mente é um território em eterno conflito, onde se digladiam a busca do prazer e mecanismos inibitórios


(Referências bibliográficas: “O que são Id, Ego e Superego?”. Site Superinteressante. 13/01/21)


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