A PARÁBOLA DE PETER PARKER

Desde bem cedo eu aprendi que Deus não se limita aos limites do pensamento humano. Deus não vive aprisionado por nossos conceitos. Pelo contrário, Ele é. E nós somos convidados a conhecê-lo cada vez mais, e como João e Maria seguiram as migalhas de pão (os da fábula, não os personagens bíblicos), nós também devemos seguir a trilha da Palavra para nos encontrarmos com Ele.

Deus não se limita a um templo: “o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens” (Atos 7:48).

Deus não fala apenas através da Palavra – a doutrina Sola Scriptura afirma que a Bíblia é a única revelação divina salvífica, e não que Deus limitou sua ação ao livro: “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (Salmos 19:1).

Deus fala onde lhe aprouver. Prova disso é que Ele mandou o profeta Jeremias à casa do oleiro pois lá seria o local onde ele ouviria Sua voz (a casa do oleiro era um lugar comum, como um mercado ou padaria dos dias de hoje): “Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras” (Jeremias 18:2).

Ponderadas essas questões, sigamos adiante. Na expectativa para o fechamento da trilogia do Homem-Aranha no Universo Cinematográfico da Marvel, decidi revisitar o primeiro filme do Cabeça de Teia no Marvel Studios. “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” (2017) mostra um ainda inexperiente Peter Parker bancando um protótipo de Vingador após sua participação na Guerra Civil (mostrada nas telonas em 2016).

No longa, Parker é um típico adolescente que vai à escola, gosta de Star Wars e tem seus amigos e paqueras – na verdade, “o amigo” Ned e “a paquera” Liz. Deslumbrado após conhecer os Vingadores e inclusive confrontar alguns deles na Guerra Civil, vemos o garoto gravando vlogs de sua experiência como herói, tanto que ele é conhecido como “o Aranha do YouTube”. Em dado momento, ele tenta usar o fato de ser o Homem-Aranha para impressionar uma garota (sem que ela soubesse sua identidade secreta), além de tomar grandes decisões por conta própria – como liberar todo o potencial do traje tecnológico dado de presente por Tony Stark (o Homem de Ferro) e decidir encarar uma missão por conta própria.

Contudo, ao longo do filme vemos um certo processo de amadurecimento de Peter Parker enquanto o Homem-Aranha. Ele se vê forçado a abrir mão de objetivos pessoais devido à sua responsabilidade como herói, como sair de uma festa logo após ter chegado, não participar do torneio estudantil, recusar um convite para curtir a piscina com amigos e largar em pleno baile a garota de quem gostava – isso tudo sem poder contar o real motivo por trás dessas decisões. Não obstante, ele quase afunda uma barca (literalmente) por ter decidido fazer tudo por conta própria, o que resulta numa bronca de Stark e a perda do traje tecnológico.

Vamos direito ao ponto: Deus falou muito comigo através desse filme. Primeiro: quando conhecemos Jesus e as escamas caem de nossos olhos, ficamos maravilhados com a verdadeira vida pulsando dentro de nós. Parece que queremos sair por aí contando pra todo mundo quem é Jesus e o que Ele fez por nós e em nós. Ou seja, da mesma forma que Peter estava deslumbrado e se gabando por ser um Vingador. Talvez já até pensamos em usar nosso conhecimento bíblico e “oração bonita/forte” para impressionar, não é mesmo? Da mesma forma que Parker queria usar o fato de ser o Aranha para impressionar uma garota. Porém, chega um momento que devemos crescer. O apóstolo Paulo escreve: “O que vos dei para beber foi leite e não alimento sólido, pois não podíeis recebê-lo, nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais” (1 Coríntios 3:2-3). O jovem era tão imaturo que Stark foi obrigado a pegar o uniforme de volta. Será que ainda estamos na fase do “leite” espiritual, isto é, da imaturidade?

Segundo ponto: teremos que tomar decisões difíceis, abrir mão de muita coisa. Jesus deixou isso claro: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará. Porque, que aproveita ao homem granjear o mundo todo, perdendo-se ou prejudicando-se a si mesmo?” (Lucas 9:23-25). Assim como Peter teve que abrir mão de questões pessoais em prol do manto que vestia, também teremos que abrir mão de muitos objetivos pessoais por causa justamente do manto que está sobre nós – lembra do manto de Elias, que foi passado para Eliseu?

Por último, destaco que aquele adolescente do Queens que estava maravilhado e se achando o tal por ser um Vingador descobriu o peso da responsabilidade a ponto de nem querer ser um integrante da superequipe ao final do filme. Ele viu que seus poderes aracnídeos iriam lhe trazer grandes responsabilidades (alô, tio Ben!), e o que lhe aguardava não eram garotas impressionadas com sua performance (como ele intentava), mas vilões querendo sua cabeça numa bandeja. Lembro-me de heróis bíblicos como Elias, João Batista e Paulo e heróis da fé como George Whitefield, John Knox e John Wesley. Todos eram homens que queimavam de amor por Jesus, se moviam no sobrenatural, arrebatavam milhões de almas para o Reino e operavam inúmeros milagres. O que isso lhes rendeu? Sem dúvida, eles estão na galeria dos heróis da fé, mas foram perseguidos por toda a vida. Em suma, os dons que Deus nos dá não são para exibicionismo, mas para confirmação de Sua Palavra por meio de sinais, servir ao próximo (como o Amigão da Vizinhança servia as pessoas) e edificar a Igreja, e isso pode não trazer um tapete vermelho diante de nós, mas sim pedradas.

A vida cristã é uma caminhada, que envolve um longo processo. Que possamos nos colocar à disposição do Senhor para que Ele nos ensine e nos molde através desse processo, assim como Peter aprendeu no processo e tornou-se um grande herói.


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