CONVICÇÃO DA FÉ

Quando entendemos a condição do nosso coração, compreendemos o quão paciente o Senhor é.

Para Jesus, é bem mais “simples” controlar as forças da natureza e ordenar submissas as forças diabólicas do que fazer o coração humano ser menos perverso, até mesmo porque Ele optou pelo processo no que tange o encontro do nosso ser com o dEle.

É só a gente parar pra pensar em Pedro. O apóstolo caminhou, dormiu e comeu com Jesus durante três anos - afinal, os discípulos tinham uma rotina diária com o Mestre. Pedro ouviu os sermões de perto, presenciou os inúmeros milagres (transformação da água em vinho, multiplicação dos pães, ressuscitação de Lázaro, cego voltando a ver e surdo voltando a ouvir, etc), esteve presente no episódio do monte da transfiguração (!!!) e, mesmo assim, negou Jesus na hora H. O apóstolo fez um cálculo que lhe pareceu mais conveniente naquele momento: “Entre salvar meu pescoço e ir com Cristo até o fim, prefiro salvar meu pescoço”, parafraseando-o.

Com isso, vejo que é possível vivermos diversas experiências com o Senhor, conhecermos a Bíblia, termos uma vida de oração e, ainda assim, faltar-nos convicção de fé. Pedro já tinha demonstrado isso quando começou a andar sobre as águas e afundou porque olhou para o mar revolto ao invés de olhar pra Jesus (Mt 14:22-36).

Parece que a gente está pegando no pé de Pedro, não é? Afinal, só estamos expondo aqui suas falhas! Mas não se trata disso... é que Pedro era aquele soldado da linha de frente da batalha, e todo soldado que está na linha de frente corre o risco de ser mais ferido, assim como também pode ser mais glorificado. E a Bíblia é assim: ao contar a história dos heróis da fé, ela faz questão de ressaltar os pontos negativos além dos positivos, para demonstrar quão grande é a graça de Deus em nossa vida.

Porém, vamos fazer justiça a Pedro. Algum tempo depois da negação, ele já era outro homem. No ano de 64 d.C., o imperador Nero começou um perseguição contra os cristãos. Temendo que Pedro caísse nas garras do imperador, os primeiros cristãos o aconselhavam a sair de Roma para se proteger. Pedro ficou indeciso: ficar e correr o risco de desaparecer junto com a Igreja nascente ou fugir para a Galileia ou Tiberíades e proclamar, bem longe de Roma, as verdades de Cristo?

Pedro quis abandonar Roma. Porém o Senhor interviu, saiu ao seu encontro.

Pela manhã, ao cruzar a Porta Latina da cidade, Pedro enxergou uma luz muito forte vindo em sua direção. Quando a luz se aproximou, ele reconheceu Jesus Cristo, carregando uma cruz. Diante de Cristo, Pedro deixa cair o bastão, se ajoelha, levanta os braços e diz: “Quo vadis, Domini?” (Aonde vais, Senhor?). E Cristo lhe responde: ”Romam vado iterum crucifigi” (Vou a Roma para ser crucificado novamente).

Pedro compreendeu, então, que seu lugar era em Roma, entre seus cristãos perseguidos, a exemplo de Cristo, o Bom Pastor, que dera a vida pelas ovelhas de seu rebanho. Envergonhado de sua atitude, Pedro voltou para Roma, para continuar o seu ministério, e acabou sendo preso e crucificado pelo imperador Nero, porém, de cabeça para baixo, em sinal de humildade.

Ou seja, não temos que usar as falhas de Pedro - ou de qualquer outro - para justificar as nossas (algo do tipo: “Se até Pedro duvidou, eu também tenho esse direito”). Pelo contrário, devemos olhar para o que Pedro se tornou e querermos ser iguais a ele. Devemos orar ao Senhor: “Me faça como o ‘segundo’ Pedro!” Esse “segundo” Pedro tornou-se semelhança de Cristo: como o Cordeiro se entregou para ser imolado, o apóstolo se entregou para ser crucificado.

E qual é o segredo para irmos de um estágio de fé para outro? Tenho certeza de que você já ouviu esse ditado: “De boa intenção, o inferno está cheio”. Portanto, boa intenção não basta. Boa intenção serve apenas para dar aquele gás no início, mas não é o bastante para aguentar uma tempestade. Lembremos que Pedro tinha um excelente intenção, pois quando Jesus disse que todo mundo o deixaria na mão, o apóstolo respondeu que iria com Ele até o fim. Mas Jesus já sabia que Pedro o negaria, assim como praticamente todos os outros, pois revelou que, antes do galo cantar duas vezes, Pedro o negaria três vezes (Mc 14:27-31). Jesus sabe que, por mais que tenhamos uma boa intenção, é necessário algo além para dar-nos convicção de fé, aquela mesma convicção presente na vida dos mártires que se entregavam para os carrascos com paz de espírito.

E o que é esse “algo além”? Simples: precisamos de uma intervenção divina. Precisamos desesperadamente da graça de Deus para chegarmos ao estágio da convicção. Foi o que Agostinho de Hipona orou: “Estreita é a mansão de minha alma; peço que Tu a aumentes para poderes entrar nela. Ela está em ruinas; peço que Tu a reformes. Eu sei e confesso que ela contém coisas que ofendem Teus olhos. Mas quem irá purifica-la? Ou a quem devo recorrer, senão a Ti?” Atenção nessa última frase: “A quem devo recorrer, senão a Ti?” Para onde iremos nós, se somente o Senhor tem as palavras de vida eterna? Ainda cito os dizeres do reformador Martinho Lutero, que vão nesse mesmo sentido: “Muitas vezes fui levado à oração pela irresistível convicção de que este era o único lugar para onde podia ir”. De que modo chegaremos em níveis espirituais mais elevados senão mediante o socorro dos Céus?

Ore, peça ao Senhor, perscrute seu coração, e seja sincero com Ele, pois somente Ele pode operar tão magnífica obra em sua vida!


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