HERÓIS PECADORES

Apóstolo Pedro e Martinho Lutero. Duas figuras centrais na história da Igreja. Sem eles, não estaríamos constituídos sob os pilares os quais conhecemos, e não me refiro apenas ao âmbito eclesiástico, mas sim à civilização ocidental como um todo.

Porém, o mesmo homem que andou sobre águas como um X-Men é o mesmo homem que negou seu Mestre três vezes.

O mesmo homem que foi elogiado por Cristo (“Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas” - Mt 16:17) é o mesmo homem que cometeu um erro teológico ao considerar os gentios inferiores por não serem circuncidados, e por isso foi duramente repreendido por Paulo (Gl 2:11-21).

O reformador Martinho Lutero foi o responsável por eclodir a Reforma Protestante, em 1517. Mas, assim como a maior parte da Europa medieval de sua época, ele era antissemita (o que fica explícito em “Sobre os judeus e suas mentiras”, tratado escrito pelo teólogo em janeiro de 1543).

Em 1524, os camponeses alemães se revoltaram contra os senhores feudais, para os quais eram obrigados a trabalhar. A crise do sistema feudal havia modificado a situação da população rural. Liderada por Thomas Müntzer, um pastor da Saxônia, a revolta camponesa alastrou-se pelos campos e cidades da Alemanha.

Os revoltosos baseavam-se na Bíblia para afirmar que os camponeses nasceram livres e reivindicavam a livre escolha dos líderes espirituais, a abolição da servidão, a diminuição dos impostos sobre a terra e a liberdade para caçar nas florestas pertencentes à nobreza. Lutero condenou o movimento dos camponeses, apoiando os príncipes e nobres.

Lutero também era conhecido como boca suja. Seu contemporâneo Erasmo de Rotterdam era o maior filósofo até então, mas ambos tinham divergências de posicionamentos em relação à Reforma. Em 1525, é publicado o “De servo arbitrio”, do próprio alemão, que acusa Erasmo de ser hipócrita e sofista.

Por que estamos falando dos defeitos de Pedro? Porque o próprio apóstolo fez questão de ressaltá-los, e a Bíblia não os esconde pois não os enxerga como demérito, mas sim exaltação da graça de Deus.

Por que mencionar os erros de Lutero? Para invalidar a figura do ex-monge agostiniano? Pelo contrário, pois ele mesmo sabia que Deus fez a Reforma não por causa de Lutero, mas apesar de Lutero. Afinal, ele mesmo compreendeu, lendo as Escrituras em seu quarto, que “o justo viverá pela fé” (Rm 1:17).

Falando na Ordem Agostiniana, o autor do clássico cristão “Confissões” fez questão de expor seus “podres” para o mundo, justamente para que a graça divina fosse melhor compreendida: “E roubámos uma grande quantidade de pêrasnão para o nosso banquete, ainda que tenhamos comido algumas, mas para as lançarmos aos porcos, sendo nosso deleite fazer aquilo que nos agradava pelo facto de que isso nos era ilícito” (Confissões: II, 4).

A Palavra é clara ao afirmar que é Deus que vem ao nosso encontro, pois uma vez que as nossas naturezas vitais estão maculadas pelo pecado, nós tendemos para o caminho do mal - isto é, oposto ao Ser que é três vezes santo. Agostinho de Hipona ratifica os dizeres bíblicos: “Na procura de Deus é Ele quem se adianta e vem ao nosso encontro”. Observa-se tal questão na trinca de parábolas de Jesus: o pastor buscou a ovelha perdida (Lc 15:4), a mulher encontrou a moeda perdida (Lc 15:9) e o pai correu em direção ao filho perdido e o trouxe para casa (Lc 15:20).

É por isso que mais uma vez ressalta-se: falar das fraquezas não é vergonha ou demérito, mas compreender que a única coisa boa em nós se chama Jesus Cristo. Além disso, expor as fraquezas é mostrar ao mundo que você não é “bonzão” ou “boazona”, e quando você errar ninguém vai ser surpreender como talvez se surpreenderiam se você tivesse uma imagem de “semideus da fé”. Diz o apóstolo Paulo: “Pois, quando sou fraco, é que sou forte” (2 Coríntios 12:10).

É interessante observar que a Marvel Comics conquistou uma legião de fãs justamente por ter super-heróis “pé no chão”. Tony Stark, apesar de ser “gênio, bilionário, playboy e filantropo” (como ele mesmo se define) e voar numa armadura de ferro por aí, também tem problemas com bebida alcoólica, como pode ser visto em “O Demônio na Garrafa” (arco de histórias publicado em nove edições - “Iron Man” #120 a #128 - de março a novembro de 1979) e no filme “Homem de Ferro 2” (2010). Peter Parker é o Homem-Aranha e salva Nova York todos os dias, mas também tem que lidar com perdas (Tio Ben, a mais famosa), aluguel atrasado, não ser tão popular na escola e ter problemas de prioridades (relacionamento com a MJ ou vestir o uniforme pra ir derrotar o Duende Verde?).

Pedro, Lutero e tantos outros são grandes heróis da fé. E o são não por serem perfeitos, mas justamente por deixarem que a suficiência de Cristo supere a natureza caída.

 

(Referências bibliográficas: https://www.google.com.br/amp/s/aventurasnahistoria.uol.com.br/amp/noticias/reportagem/o-antissemitismo-de-martinho-lutero-e-a-perseguicao-contra-judeus.phtml; https://www.google.com.br/amp/s/amp.dw.com/pt-br/1525-fim-da-guerra-dos-camponeses/a-542971; http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/570344-lutero-e-erasmo-a-genese-de-um-dialogo-fracassado)


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