POLÍTICA “AD AETERNUM” (parte II)

Mediante uma mera observação cosmológica, logo chega-se à conclusão da imperfeitabilidade do universo.

Podemos concordar com o filósofo grego Platão (428 a.C.-347 a.C.), que no seu Mito da Caverna – originalmente concebido em sua obra clássica “A República” -, acerca de que tudo o que vemos não passa de sombras do que é real; antes, essas sombras são projeções (provocadas por uma fogueira que as projeta na parede da caverna, segundo o mito) dos elementos reais que constam fora da caverna (estando implícito aquilo que José Saramago diria séculos mais tarde: “É preciso sair da ilha para ver a ilha”).

Também podemos fazer consonância à concepção teológica de João Calvino (1509-1564). No Livro I das Institutas, Calvino descreve a atividade de Deus em relação ao mundo na criação e na providência. O mundo criado é o “deslumbrante teatro” da glória de Deus. Depois que as pessoas são iluminadas pelo Espírito Santo e têm o auxílio dos “óculos” das Escrituras, a criação pode fornecer um conhecimento de Deus mais lúcido e edificante (teologia da natureza), fortalecendo a fé dos crentes.

Deus criou o mundo a partir do nada (ex nihilo). O mundo foi criado para a glória de Deus, mas também para o benefício da humanidade. Os crentes devem contemplar a bondade de Deus em sua criação de tal modo que seus próprios corações sejam despertados para o louvor (Jonathan Edwards).

Esse theatrum mundi contém sua dose de dramaticidade, certamente. Toda providência deve ser interpretada à luz do drama, à luz do theatrum mundi.

Da mesma forma, podemos seguir o que os cientistas dissertam sobre a finitude do cosmos. Sabemos que o universo está em expansão, mas temos muitas dúvidas sobre como e por que exatamente isso acontece. Uma das teorias é a existência de uma energia escura, que ao contrário da gravidade, empurra as coisas para longe uma das outras. Para os cientistas, mais ou menos três quartos de tudo o que tem no universo é constituído de energia escura. A teoria do Big Rip prevê que a taxa de expansão do universo aumente com o tempo. Eventualmente, as galáxias vão se separar, os planetas vão ficar cada vez mais longe até que os átomos também se distanciem uns dos outros. Ou seja, no final, seremos rasgados em pedaços.

Se o universo começou com o Big Bang, ou seja, uma grande explosão que iniciou sua expansão, há uma teoria que acredita que ele irá terminar da mesma maneira. Só que tudo ao contrário. O nome dessa teoria é Grande Colapso, ou Big Crunch. Em resumo, a atração gravitacional causaria uma contração do universo, até o seu eventual colapso. Para isso ocorrer, a energia do universo – e suas 10 trilhões de estrelas – se concentraria num único ponto minúsculo, denso e quente, como nos primórdios. Começaria, então, um novo ciclo de expansão e contração. Segundo essa teoria, a energia escura teria o papel de espalhar energia e matéria produzidas no Big Bang, preparando o universo para começar tudo de novo. Essa teoria de um universo cíclico também pode ser chamada de Big Bounce.

Buracos negros são regiões no espaço com massa muito densa, o que faz com que nada escape do seu campo gravitacional, nem mesmo a luz. Eles são formados com a energia da explosão de estrelas e podem ser pequenos (cerca de 100 massas solares) ou gigantescos (com dezenas de bilhões massas solares). O fato de existirem buracos negros imensos ainda intriga os cientistas. Em meio a isso tudo, há uma teoria que acredita que vamos terminar com o universo completamente engolido por buracos negros. Partindo do pressuposto de que existem galáxias inteiras com buracos negros massivos em seus centros, alguns pesquisadores creem que a maior parte da matéria no universo orbita os buracos. De acordo com a teoria, vai chegar um ponto em que eles devorarão toda essa matéria e, em seguida, engolirão uns aos outros, gerando um universo completamente escuro. No estágio final, o último massivo buraco negro perderia sua massa e evaporaria no nada.

Enfim, tanto na filosofia e teologia quanto na ciência empírica há teses que abordam a imperfeitabilidade do cosmos. E, seguindo a linha das Escrituras cristãs, veremos que o texto nos informa que vivemos num contexto pós-Queda (nome dado ao episódio que representa a decadência da moralidade humana e da sua comunhão com Deus, nas figuras de Adão e Eva e o fruto proibido), deformada (no sentido de não ser a concepção divina original para o cosmos) e que possui um fim anunciado e datado, embora não saibamos ao certo cronologicamente (elementos esses retratados na literatura escatológica na própria Bíblia).

O apóstolo Paulo parece concordar com a descrição da imperfeitabilidade e finitude cosmológica: “O que agora vemos é como uma imagem imperfeita num espelho embaçado, mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é imperfeito, mas depois conhecerei perfeitamente, assim como sou conhecido por Deus” (1 Coríntios 13:12). Isto é, o que contemplamos sempre é mediado por esse olhar imperfeito e limitado.

O teólogo alemão Karl Rahner (1904-1984) elaborou um conceito acerca da Trindade, sendo a Trindade Imanente e a Trindade Econômica. Quando ele fala de Trindade Imanente, quer referir-se a vida interna de Deus: o Pai que se relaciona com o Filho e com o Espírito Santo. É entre as três divinas pessoas. Elas são eternas: desde toda eternidade o Pai é Pai, desde sempre o Filho é Filho e o mesmo acontece ao Espírito Santo.

Deus Pai não se tornou assim em um determinado momento, como acontece com os homens, que não foram pais desde sempre, mas se tornaram assim ao longo da vida. Os pais humanos ficaram assim no tempo, mas Deus não. Ele é Pai desde a eternidade. Então o Filho, também tem quer ser Filho desde sempre. Daí que a relação entre os dois tem que ser desde sempre também e essa realidade recebe o nome de Espírito, que é o amor e comunhão entre o Pai e Filho. Essa é a Trindade Imanente.

Mas não teríamos nenhum acesso a ela se não se revelasse a nós. Mas ela se revelou. E o Pai começou a falar e nós não sabíamos que era o Pai. Falou através de Abraão, de Moisés (cf. Ex 3:1-12), de Davi, de Salomão, dos Profetas, dos Sábios e da História do Povo de Israel e, hoje, poderíamos dizer que, também através de todas as religiões. Mas Israel não sabia que era Pai, por isso o chamou de Elohim, Javé, Adonai e Senhor dos Exércitos.

Sabe-se, através da Paleontologia, que a história humana data de aproximadamente 3 milhões de anos e, assim sendo, em todo esse período a humanidade ficou procurando descobrir quem era Deus. Ou seja, segundo essa concepção teológica, a despeito das tentativas de todos os povos de conhecerem a Deus (sejam os gregos, os romanos, os assírios, os caldeus, os babilônios, etc), houve silêncio no Céu, porque Deus só poderia ser conhecido a partir de uma iniciativa dEle mesmo.

Porém, chegou um dia, no tempo, e, foi com uma jovem de aproximadamente 16 anos, numa vila insignificante da Palestina, chamada Nazaré, onde Deus começa aquela história já bem conhecida, quando aquela moça ousou aceitar o convite de Deus, através de Anjo para ser a mãe de Jesus, o Filho (cf. Lc 1:26-38).

Nesse ponto a Trindade começa a revelar-se. São dois. Ele é o Filho. Se é o Filho, há o Pai; se há o Pai, existe também o Filho (cf. Jo 17:1-26). Jesus, ao longo de sua vida pública, disse aos seus que, após sua partida, viria o Espírito Santo para ensinar toda a verdade, e os apóstolos puderam constatar a realização dessa promessa no dia de Pentecostes (cf. At 2:1-13). Assim sendo, a Trindade é a comunhão das três pessoas divinas.

Em suma, a Trindade Imanente é como ela é desde a eternidade. A Trindade Econômica é como ela se manifestou na história. Mas há de se ressaltar os dizeres de Rahner: “A Trindade Imanente é a Trindade Econômica e a Trindade Econômica é a Trindade Imanente”.

Afirma-se que só com a revelação acontecida em Cristo é que temos acesso à vida íntima do Deus uno e trino. O ponto de partida para Deus, portanto, não pode ser outro senão a economia trinitária salvífica.

Ao formular o axioma, Karl Rahner trouxe para a discussão teológica da atualidade uma das questões centrais do cristianismo: a relação da história com Deus e de Deus com a história.

O escritor britânico Clives Staples Lewis formula acerca do propósito por trás da insatisfação: se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo. Se nenhum dos meus prazeres terrenos é capaz de satisfazê-lo, isso não prova que o universo é uma fraude. Provavelmente os prazeres terrenos não têm o propósito de satisfazê-lo, mas somente de despertá-lo, de sugerir a coisa real. Se for assim, tenho de tomar cuidado para, por um lado, jamais desprezar ou ser ingrato em relação a essas bênçãos terrenas, e, por outro, jamais confundi-lo com outra coisa, da qual elas não passam de um tipo de cópia, ou eco, ou miragem.

Sobre essa cuidado para não atingir os extremos, o teólogo inglês G.K. Chesterton (1874-1936) ratifica: “O homem não é um balão subindo aos céus, nem uma toupeira escavando a terra; mas, ao contrário, algo como uma árvore, cuja as raízes são alimentadas pela terra, enquanto seus mais altos ramos parecem quase atingir as estrelas”.

Nesse sentido, há a concepção de que os elementos dessa realidade apontam para algo maior, assim como uma sombra aponta para o elemento que lhe dá origem e a projeta. Portanto, uma temática como a política trata-se de um assunto concernente não apenas a essa realidade cosmológica, mas que será plenamente aproveitável na realidade vindoura – ainda que no presente seja uma sobra (ou manifestação em potencial) do que vislumbraremos no Reino.

O Rev. Augustus Nicodemus disserta: “Nós não podemos jamais esquecer que somente o Reino do nosso Senhor Jesus Cristo será um Reino de justiça, paz e igualdade aqui nesse mundo, e que todos os sistemas políticos, todos os políticos e todas as suas promessas são vãs. Por melhor que um sistema político seja ou que um governante seja, o que ele fará no máximo é uma pálida imitação do Reino do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Então, precisamos ter cuidado para não perdermos a perspectiva escatológica como Igreja”.

A política dessa realidade é fruto da imagem imperfeita proveniente do espelho embaçado, conforme as palavras paulinas. Todavia, não deixa de ser um elemento que sabemos que terá continuidade no Reino.

Segundo a Bíblia, quando Cristo retornar à terra, Ele Se estabelecerá como Rei de Jerusalém, sentado no trono de Davi (Lucas 1:32-33). Os pactos incondicionais exigem uma volta literal e física de Cristo para estabelecer o reino. O pacto de Abraão prometia a Israel uma terra, uma posteridade, um governante e uma bênção espiritual (Gênesis 12:1-3). O pacto da Palestina prometia a Israel a restauração e ocupação da terra (Deuteronômio 30:1-10). O pacto de Davi prometia a Israel perdão: meio pelo qual a nação poderia ser abençoada (Jeremias 31:31-34).

Na segunda vinda, estes pactos serão cumpridos quando Israel for “ajuntada” das nações (Mateus 24:31), se converter (Zacarias 12:10-14) e for restaurada à terra sob a liderança do Messias, Jesus Cristo. A Bíblia fala das condições durante o Milênio como um ambiente perfeito, fisicamente e espiritualmente. Será um tempo de paz (Miquéias 4:2-4; Isaías 32:17-18); gozo (Isaías 61:7,10); conforto (Isaías 40:1-2); sem qualquer pobreza (Amós 9:13-15) ou enfermidade (Joel 2:28-29). A Bíblia também nos diz que somente os crentes terão acesso ao Reino Milenar. Por isso, será um tempo de completa justiça (Mateus 25:37; Salmos 24:3-4); obediência (Jeremias 31:33); santidade (Isaías 35:8); verdade (Isaías 65:16) e plenitude do Espírito Santo (Joel 2:28-29). Cristo governará como rei (Isaías 9:3-7; 11:1-10), com Davi como regente (Jeremias 33:15,17,21; Amós 9:11). Os nobres e príncipes também reinarão (Isaías 32:1; Mateus 19:28). Jerusalém será o centro “político” do mundo (Zacarias 8:3).

O que temos da política proveniente da imagem embaçada do espelho verá sua plenitude no Reino de Cristo.


(Referências bibliográficas: https://cpaj.mackenzie.br/historia-da-igreja/movimento-reformado-calvinismo/joao-calvino/a-teologia-de-joao-calvino/; https://super.abril.com.br/blog/superlistas/5-teorias-sobre-o-fim-do-universo/; https://www.gotquestions.org/Portugues/reino-milenar.html; https://www.atribunamt.com.br/2015/05/30/deus-se-revelou-como-pai-filho-e-espirito-santo-cf-mt-2819/; https://prezi.com/p/u7e7xgsuhgjo/aula-02-trindade-economica-e-trindade-imanente)


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