SER PROFÉTICO (parte 2)
A Reforma Protestante no continente europeu ganhou amplitude durante o século XVI quando Martinho Lutero e João Calvino conseguiram milhões de adeptos, colocando em xeque o poder da Igreja de Roma e insuflando uma série de revoltas populares. Entretanto, antes dos dois famosos reformadores religiosos, houve outros que os precederam. Dentre eles, estava Jan Huss.
Jan Huss antecipou
várias críticas às doutrinas e à prática da Igreja que ficariam célebres com
Lutero e Calvino. Dentre elas, é interessante destacar sua oposição à venda de
indulgências e à riqueza da Igreja, bem como à comunhão ser restrita ao corpo
eclesiástico, não sendo oferecida aos demais crentes, principalmente os de
origem popular.
Em 1390, Huss,
cujos primeiros anos permanecem desconhecidos, matriculou-se na Universidade de
Praga com a intenção de treinar para o sacerdócio. Posteriormente, ele
confessou que o ministério ordenado o atraiu por sua promessa de proporcionar
uma vida confortável e estima mundana. Apesar de dedicar, por sua própria
confissão, muito tempo para jogar xadrez, Huss se destacou em seus estudos e
após receber o seu mestrado em 1396, vinculou-se à faculdade de Filosofia da
universidade.
Pouco depois de
começar a ensinar, Huss experimentou, nas palavras de um biógrafo, uma “mudança
radical e fundamental”, resultando em um compromisso mais profundo com Cristo.
Essa “mudança” pode ter se originado da exposição ao pensamento de John
Wycliffe, cujas ideias estavam começando a criar uma comoção em Praga. O
programa de reforma de Wycliffe — que incluía críticas estridentes à
imoralidade clerical, rejeição da doutrina medieval da transubstanciação e
insistência sobre o acesso leigo à Escritura na língua vernácula — chegou à
Boêmia graças, em grande parte, aos estudantes tchecos que estudaram na própria
Universidade de Oxford de Wycliffe e voltaram para casa com as mentes repletas
das ideias de Wycliffe e as mochilas cheias de livros de Wycliffe.
Em 1403, o conflito
sobre as ideias de Wycliffe chegou ao ponto alto na Universidade de Praga.
Embora Huss se opusesse à rejeição da transubstanciação de Wycliffe, concordou
com muito do que o reformador inglês havia dito, e passou a defender o partido
reformista pró-Wycliffe. Apenas um ano antes, Huss fora nomeado pregador da
Capela de Belém, no centro de Praga. Seus sermões no púlpito de Belém refletiam
cada vez mais a preocupação de Wycliffe com a corrupção no interior da igreja.
A pregação do
“pequeno ganso de Deus”, como Huss veio a ser chamado, era imensamente popular,
atraindo multidões de vários milhares. Huss estava desejoso de tornar as
Escrituras e sua mensagem reformadora acessíveis ao povo. Ele não só pregou em
tcheco, mas traduziu partes da liturgia, assim como vários hinos latinos para a
língua vernácula. Ele mesmo aproveitou o espaço vazio na capela para promover a
sua mensagem, colocando murais que contrastavam a humildade e simplicidade de
Cristo com a vaidade e a ganância dos sacerdotes contemporâneos.
Huss passou a pregar em seus sermões que a Bíblia era a grande autoridade dentro do cristianismo e o grande paradigma para a vida do cristão, contrapondo-se à autoridade da hierarquia eclesiástica. Defendia que a comunhão do pão e do vinho deveria ser oferecida a todos os fiéis. Além disso, Jan Huss pregava a ideia de uma Igreja pobre contra a opulência que apresentava a Igreja da época. Para eles, os esforços realizados pelo homem na Terra deveriam aproximá-lo do mundo perfeito de Deus.
Tal postura de Huss
causou uma forte oposição da Igreja, como era de se esperar. Entretanto, as
condições sociais a que estava submetida grande parte da população da região
contribuíram para que a situação se tornasse ainda mais conflituosa. A pregação
de Jan Huss sobre a criação de um mundo de justiça social entrava também em
conflito com a situação de exploração e miséria a que estavam submetidos os
camponeses da Boêmia. Para Huss, a desintegração do mundo contemporâneo a ele
era o indício do aparecimento do anticristo.
Soma-se a isso o fato de grande parte da nobreza proprietária das terras ser de origem alemã. As ideias de Jan Huss conseguiram sensibilizar os nobres de origem tcheca, que viam em suas pregações uma forma de enfrentar os germânicos. Com isso, Huss garantiu sua eleição para o cargo de reitor na Universidade de Praga, em 1409, sob as ordens do rei da Boêmia, Wenceslau IV. A indicação de Huss era uma forma de contrapor a influência germânica dentro da Universidade.
Nesse ano de 1409, o papado, perturbado pela crescente fama de Huss, ordenou ao arcebispo de Praga que proibisse qualquer outra pregação na Capela de Belém. Huss se recusou a abandonar seu púlpito. No ano seguinte, o arcebispo excomungou Huss com base em heresia e logo depois fugiu da cidade por medo de represálias populares. Huss continuou pregando. Em 1411, o papado, que tinha então emitido uma segunda excomunhão de Huss (sem efeito), colocou toda a cidade de Praga sob interdito, proibindo, assim, o clero de Praga de oferecer sermões, casamentos, a eucaristia, ou outros serviços religiosos ao povo.
Inicialmente, o interdito
do papa teve pouca força graças ao rei da Boêmia. Wenceslau (cujo nome desde o
século décimo se tornaria depois o tema de um hino de Natal) apoiou Huss e
ordenou ao clero de Praga que ignorasse o interdito. Em 1412, no entanto, as
circunstâncias colocaram Huss e Wenceslau um contra o outro. O papado começou a
vender indulgências na Boêmia para arrecadar dinheiro para uma campanha
militar. Wenceslau não fez nenhuma objeção a isso, em grande medida porque
recebeu uma parte dos ganhos. Mas Huss, que via a venda das indulgências como
sinal da corrupção da igreja, protestou tanto do púlpito quanto da tribuna. O
rei, ansioso para manter a sua renda recém-descoberta, proibiu a crítica das
indulgências. Ele reforçou essa proibição ao decapitar vários homens que
falaram contra as indulgências. A fim de enfraquecer ainda mais Huss, o rei
agora mandou ao clero de Praga que cumprissem o interdito do papa.
Huss, relutante em
ver as pessoas privadas da Palavra e do sacramento, saiu de Praga em 1412.
Passou os dois anos seguintes em exílio auto-imposto no sul da Boêmia,
escrevendo obras que aprofundaram seus ideais reformadores.
À época havia na
Europa católica três papas, no fenômeno conhecido como Cisma do Ocidente. Para
tentar sanar a situação, foi convocado o Concílio de Constança, em 1414, que,
dentre outras coisas, julgaria alguns casos de heresia. Lhe foi prometido um
retorno seguro do concílio pelo imperador Sigismundo, irmão do rei Wenceslaus.
Huss concordou em participar do concílio, consciente de que ele não retornaria,
mas esperançoso de que poderia ter oportunidade de promover sua visão para a
reforma da Igreja. Ao chegar em Constança, em novembro de 1414, ele foi
aprisionado e permaneceu preso até o seu julgamento e execução no verão
seguinte.
A teologia de Huss
Huss não era mero
imitador de Wycliffe, como alguns estudiosos têm sugerido. Nem, como outros têm
indicado, ele antecipou o protestantismo em todos os aspectos. Contra ambos,
Wycliffe e os reformadores, ele defendeu a doutrina da transubstanciação,
embora negasse que os sacerdotes por si mesmos têm o poder de realizar a
transformação do pão no corpo de Cristo. Contra a doutrina protestante de Sola Fide, ele cria que a caridade desempenha um papel instrumental na justificação
dos pecadores.
Contudo, Huss
antecipou uma série de convicções-chave do protestantismo. Criticou a
veneração que ele considerava exacerbada dos seus contemporâneos de Maria e dos santos. Ele também
criticou a prática medieval de reter o cálice do povo comum (por temor,
ostensivamente, para que não lidassem de modo indevido com o sangue de Cristo)
e oferecer-lhes apenas o pão na eucaristia. A insistência de Huss de que os
leigos recebessem pão e vinho veio a marcar os seus seguidores de modo que,
quando forçados a se defenderem militarmente após a morte de Huss, incorporaram
um cálice no brasão.
Ele também
antecipou os reformadores — e revelou a extensão de sua dívida com Wycliffe —
em sua doutrina da igreja. Huss identificou a verdadeira igreja com aquele
corpo invisível de crentes no passado, presente e futuro que foram eternamente
eleitos por Deus para a salvação e incorporados em Cristo como a sua cabeça.
Nem todos os membros da Igreja visível, argumentou ele, pertencem à Igreja
invisível, e quando o clero em particular prova ser reprovado por suas ações,
sua autoridade é suspeita. Essa doutrina baseou as severas críticas de Huss a
sacerdotes e papas como “anticristo” e sua disposição em desconsiderar as bulas
papais quando claramente contradiziam as Escrituras.
Intimamente
relacionada com sua doutrina da igreja, estava a doutrina de Huss sobre as
Escrituras. Huss rejeitou qualquer alegação de que a igreja visível, que em
qualquer momento poderia ser mais povoada pelos réprobos do que pelos eleitos,
exercia a infalibilidade em suas decisões ou interpretações da Escritura. Ele
mantinha as vozes tradicionais na Igreja, especialmente os pais da Igreja, em
alta consideração; na verdade, ele privilegiava a interpretação das Escrituras
por parte dos pais da igreja sobre a interpretação de qualquer indivíduo,
incluindo a sua própria. Mas Huss admitiu que até os pais poderiam errar.
Assim, ele reconheceu a Sagrada Escritura como a única regra infalível da fé e
prática cristã, uma visão que os reformadores expressariam com o slogan Sola
Scriptura.
A morte de Huss
Huss teve
oportunidade limitada de defender sua doutrina no Concílio de Constança, e ele
acabou sendo condenado por uma mistura de afirmações legítimas e espúrias sobre
suas crenças. Ele foi chamado a negar os ensinamentos falsamente atribuídos a ele.
Huss recusou-se a fazê-lo, embora selasse seu destino, porque não queria
perjurar-se admitindo crenças que não possuía.
Em 6 de julho de
1415, Huss foi despojado das suas vestes clericais, enfeitado com um chapéu de
burro com desenhos de demônios, amarrado a uma estaca, e queimado até a morte.
De acordo com um relato de testemunhas oculares, ele confiou a sua alma a Deus e
cantou um hino a Cristo enquanto as chamas o envolviam. Uma vez morto, as
autoridades trituraram seus restos mortais e os jogaram no rio Reno para
impedir que fossem venerados por seus seguidores.
A profecia
O reformador boêmio
Jan Huss, condenado por heresia em 1415 pelo Concílio de Constança — de acordo
com uma história que se originou alguns anos após o fato —, voltou-se para seus
executores pouco antes da sua sentença ser realizada e afirmou: “Hoje vocês
queimam um ganso, mas daqui a cem anos um cisne surgirá que vocês serão
incapazes de cozer ou assar”.
Por que Huss se
identificou como “um ganso”? E por que os comentaristas posteriores — nada
menos que o próprio Lutero — acreditavam que a lendária profecia de Huss se
referia ao monge alemão cujo protesto contra as indulgências iniciou a Reforma
um século depois?
Huss, nascido por
volta de 1372, era proveniente da cidade do sul da Boêmia, Husinec
(literalmente, “Goosetown” [Cidade do ganso]), onde agora é a República Tcheca.
Seu sobrenome, derivado do seu lugar de nascimento, significa “ganso” em
tcheco. Compreender por que Lutero e os Protestantes mais tarde criam que Huss
tinha antecipado, se não previsto, a Reforma é mais difícil e requer alguma
consideração sobre a vida, doutrina e morte de Huss, como fora dissertado nesse
artigo.
Acredita-se que o
“cisne” seria Lutero pelo êxito que o ex-monge agostiniano teve na eclosão da
Reformada, consolidando um caminho pavimentado por nomes como Huss e Wycliffe,
e posteriormente fortalecido por Calvino, Zwinglio, entre outros.
(Referências bibliográficas:
https://mundoeducacao.uol.com.br/historiageral/jan-huss-os-primordios-reforma.htm;
https://ministeriofiel.com.br/artigos/uma-biografia-de-john-huss/)
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