ANÁLISE DE “HOMEM-ARANHA 2” (2004)
Indo direto ao ponto: “Homem-Aranha 2” (2004) é um dos melhores filmes de todos os tempos, e transcende o gênero de “super-heróis”.
O longa-metragem arrecadou mais de 788 milhões de dólares em todo o mundo e ganhou o Oscar na categoria “Melhores Efeitos Visuais”. Ele também recebeu cinco prêmios na cerimônia Saturn Awards, incluindo “Melhor Filme” e “Melhor Diretor” para Raimi. Em 2008 foi selecionado pela Empire na lista dos “500 maiores filmes de todos os tempos”.
Os cabelinhos do braço já arrepiam logo nos créditos iniciais quando temos aquela música que provoca uma nostalgia enorme e automaticamente já fazemos a ligação do personagem com Tobey Maguire. Aliada à genialidade musical de Danny Elfman, de quebra ainda temos ilustrações do gênio Alex Ross, que retratam cenas do primeiro filme. Quem não conhece a obra de Ross pode achar que tratam-se de frames que foram digitalmente transformados em desenhos num Photoshop da vida.
Ainda sobre os créditos, não poderia deixar de mencionar o fato de Stan Lee participar como produtor executivo e simplesmente Kevin Feige ser creditado nessa mesma função. Sim, o chefão do Marvel Studios já participa dos filmes dos nossos amados personagens há muito tempo!
Se no “Homem-Aranha” (2002) vemos Peter Parker lidando com problemas na escola, aqui já assistimos o garoto lidando com problemas no trabalho e na vida pessoal. E é claro que Mary Jane Watson (Kirsten Dunst) não sai de sua cabeça - conforme o mote hollywoodiano, foi dito no primeiro filme que o amor (entre Peter e M.J.) era o pano de fundo da história, e nesse segundo filme tal elemento também marca presença.
Vale ressaltar uma característica da Marvel que veríamos por décadas a fio no seu universo compartillhado: o humor. Para conseguir entregar as pizzas a tempo para o cliente, Peter sai de cena com sua bicicleta motorizada e entra o Homem-Aranha. É isso mesmo! Não para derrotar o Duende Verde ou algum outro arqui-inimigo, mas para balançar entre os prédios de Nova York como entregador de pizza! O que um sujeito não faz depois de tomar aquela bronca do chefe, né?
Falando em característica da Marvel, aqui temos outros: os easter eggs e referências. O primeiro é quando Peter, atrasado para a aula, esbarra com um de seus professores, que é ninguém mais ninguém menos do que Curt Connors. Os fãs dos quadrinhos sabem que Connors se transforma no vilão Lagarto após uma experiência científica má sucedida em vista de regenerar seu braço direito utilizando um soro com DNA de répteis. Sabemos que Connors não vive essa história no filme de Sam Raimi, mas valeu demais a referência.
Outro easter egg marcante é a música entoada pela violinista no lado de fora do teatro. Estamos falando da clássica “Spider-Man, Spider-Man, does whatever a spider can”, composta em 1967, para a animação original do herói.
Voltando ao enredo em si, logo ele vai sendo costurado e o filme tomando forma. Peter toma uma bronca de seu chefe sr. Aziz por sempre ter “imprevistos”, e acaba sendo demitido; leva uma bronca do seu professor na universidade por faltar às aulas e não ter entregado o trabalho; não consegue comparecer à peça teatral de M.J.; e, ainda por cima, consegue esquecer seu próprio aniversário.
Peter não é mais um garoto do colegial. Agora, está na universidade e mora sozinho. E não está sendo nada fácil viver fora da casa da tia May... afinal, o sr. Ditkovich (Elya Baskin) não pode ver o rapaz que já trata de cobrar o aluguel, no melhor estilo Seu Barriga. O personagem caiu tanto nas graças do público que, além de retornar para o terceiro filme, ainda é meme nos dias de hoje.
O primeiro encontro entre Peter Parker e Dr. Otto Octavius (Alfred Molina) ocorre devido a um trabalho que o primeiro está fazendo para a faculdade sobre o tema fusão. Harry Osborn (James Franco), que chefia a seção de Projetos Especiais da empresa de seu falecido pai, está financiando o mais novo trabalho de Octavius, através da Oscorp. Então, ele faz as honras de apresentar Parker e o cientista - vale lembrar que a relação de amizade de Peter com Harry é mostrada no primeiro filme, sendo que os colegas de colégio chegam a morar juntos durante um tempo.
O diálogo entre ambos mostra novamente que Peter Parker é retratado como o nerd com inteligência acima da média, que consegue conversar de igual pra igual com um gênio da ciência - no caso, Octavius. Essa característica teria continuidade nos demais filmes do Cabeça de Teia.
Outro aspecto bem Marvel presente no filme é a proximidade do herói com a realidade. Simplesmente vemos o garoto lavar seu uniforme de Homem-Aranha em uma lavanderia, como qualquer cidadão comum - e, ainda por cima, manchar as roupas brancas por causa da coloração de seu uniforme. Mais Marvel que isso, impossível!
Depois de vermos que, misteriosamente, o Teioso perde seus poderes - o que ocasiona numa ótima cena “humor Marvel” do herói pegando um elevador e travando um diálogo embaraçoso com outro cara -, chega o momento da experiência de Octavius. Ele quer criar uma fonte de “energia segura, renovável e barata para todos”, conforme suas próprias palavras. Tal fonte de energia por fusão teria o poder de um Sol, devido à sua produção de energia. Quando ouve isso, no primeiro diálogo com o cientista, Parker teme pela cidade inteira ser explodida, como se estivesse prevendo o que aconteceria.
Somos apresentados aos famosos braços metálicos inteligentes de Octopus - que ainda era apenas o Dr. Otto Octavius - quando o cientista mostra os quatro ativadores programados para criar uma fusão bem sucedida no experimento, pois eles isolavam o calor e o magnetismo. Tais ativadores seriam mentalmente controlados por Otto através de um chip conectado à sua medula espinhal, isto é, através de ligação neural por nanofios ligados diretamente ao seu cerebelo, que lhe permitiam usar os braços para controlar a fusão num ambiente proibitivo para a mão humana (traduzindo: se alguém colocasse o braço naquela quentura, ele iria derreter. Então, os braços inteligentes foram feitos justamente pra ter como manusear o experimento científico).
A questão é que a experiência com trício (um tipo raro de metal) não sai conforme o esperado. O pequeno “Sol” de Otto começa a atrair os metais, como um ímã, o que acaba destruindo o local do evento. Como Peter estava lá e viu o perigo todo, logo o Aranha entra em ação e já toma o primeiro golpe de Doc Ock quando tenta puxar as tomadas e desligar tudo. Um raio do “Sol” acerta o chip inibidor na espinha metálica dos braços - esse chip concedia ao cientista o controle sobre a inteligência dos braços, e não o contrário. Portanto, sem o chip, acaba que os braços ganham “vida própria”. Além de vermos o vilão usar aqueles óculos escuros do visual clássico para se proteger do calor da fusão, o resultado dessa catástrofe é a morte de sua esposa Rosalie (Donna Murphy) e o corte do financiamento da Oscorp para o trabalho científico.
Descobrimos que o metal penetrou na coluna de Octavius, fusionando vértebras, incluindo a lâmina e o topo da medula. Em outras palavras, os braços tornaram-se parte o corpo do cientista.
Na cena em que os médicos tentam cortar os braços metálicos, no hospital, vemos novamente a impressão digital de Sam Raimi na direção do filme. Com gritos histéricos por toda parte; uma enfermeira sendo arrastada no chão, a ponto de arranhá-lo, clamando “socorro”, até ser levada para a escuridão; uma outra enfermeira estirada já sem vida no chão, com olhos e bocas abertos, numa expressão de pavor; sombras e tentáculos com vida própria, e por um momento parece que estamos vendo um filme de terror (gênero que é carro-chefe de Raimi). Não é à toa que a fotografia da cena é escura, um tom preto e branco. Mais de uma serra elétrica existe no local, e nossa percepção varia como se estivéssemos assistindo de Alfred Hitchcock a “O Massacre da Serra Elétrica”. O mais interessante é que não há nenhuma trilha sonora nessa cena, deixando a atmosfera ainda mais dramática e sufocante.
Assim como no primeiro filme do Amigão da Vizinhança, a Marvel já demonstrava aqui determinadas características que iriam se tornar ingredientes fundamentais no universo compartillhado que, anos depois de “Homem-Aranha 2”, se tornaria um fenômeno da cultura pop. Quando J.J. Jameson (J.K. Simmons) pergunta para seu assistente Hoffman (Ted Raimi) qual seria o nome ideal para o cientista o qual oito braços mecânicos haviam sido soldados ao seu próprio corpo, ele responde: “Dr. Octopus”. Mas ouve como resposta de seu chefe: “Que lixo”. Porém, uma das próximas ideias é um easter egg genial: “Dr. Estranho”. Jameson replica: “Ótimo... mas já existe”. Ou seja, acabamos de (re) descobrir que o Mago Supremo existia no universo do Homem-Aranha de Tobey Maguire! E, assim como Jameson foi o responsável por dar o nome de Duende Verde para o vilão do primeiro filme, nesse segundo ele rouba a ideia do nome “Dr. Octopus” de Hoffman e batiza o novo vilão, dando-lhe ainda um apelido: “Doc Ock”. O enredo trata de deixar claro que essa “mente brilhante” do chefe do Daily Bugle para batizar mal-feitores é devido à sua sede de sensacionalismo, isto é, quanto mais “problemas” nas ruas, mais jornais seriam vendidos com suas manchetes bombásticas.
Percebemos que os braços metálicos tem vida própria. Octavius diz que há uma voz falando em sua cabeça, e então percebe que o chip inibidor está quebrado. E essa “voz” o leva ao ímpeto de reconstruir o projeto da fusão, corrigindo os erros do experimento que deu errado. Aquele homem não tinha mais nada a perder, visto que sua amada Rosie e seu sonhos morreram há pouco. Juntando esse fator pessoal com os braços metálicos servindo como aquele “diabinho” de desenho animado que sopra pensamentos errados no ouvido do sujeito, ele decide reconstruir o projeto. Mas, pra isso, precisa de dinheiro. E como conseguir esse dinheiro? Roubando um banco, é claro - na cabeça do vilão. Aí começa a jornada maléfica de Doc Ock.
Pausa para a Marvel mostrando que é Marvel novamente: na cena do banco, na qual tia May chuta o bancário embaixo da mesa (que depois acaba saindo mancando) ao invés de Peter, que a questiona sobre as “aulas de piano”; e Stan Lee fazendo seu “cameo”, dessa vez salvando uma mulher dos destroços de um prédio onde Octopus e Homem-Aranha estão lutando.
A rivalidade entre Doc Ock e o Teioso começa porque o herói está se “metendo” nos negócios do vilão - na primeira vez, Peter estava presente quando o experimento da fusão deu errado; na segunda, ele e tia May estavam no banco tentando pegar um empréstimo quando Ock tentou roubar o cofre.
Depois de tomar um sermão de Mary Jane e ver que sua amada aceitou se casar com outro, tomar dois tapas na cara de seu amigo, perceber que seus poderes estão “falhando” e, mais uma vez, ver o jornal o tratando como um fora da lei, Peter decide “pendurar as chuteiras”. Em referência direta à história “Spider-Man No More” (The Amazing Spider-Man #50, de 1963), ele joga seu uniforme no lixo, e decide viver uma vida normal. Claro que a consulta médica na qual o doutor disse “vai ver não é para você ser o Homem-Aranha e escalar paredes. Por isso, vive caindo. Sempre temos escolha, Peter” fez o rapaz acreditar que, de fato, ele tinha a escolha de abandonar o manto do herói.
Ao som de “Raindrops Keep Fallin’ On My Head”, de BJ Thomas, Peter Parker sente o gostinho de voltar a viver uma vida “normal”. Volta a usar óculos, caminha tranquilo pelas ruas de Nova York, volta a ser um aluno exemplar na faculdade, conta a verdade para sua tia sobre a morte do tio Ben, consegue assistir à peça de Mary Jane, enfim... o dia a dia de um legítimo cidadão comum. Porém, aquele “Sentido Aranha” continua em Peter. Quando vê um rapaz sendo espancado e roubado, a manchete no jornal que indica que a criminalidade teve um aumento de 75%, as crianças perguntando onde está o Homem-Aranha... Eis que surge um conflito existencial em Peter, que começa a se indagar: “Será que não posso ter o que eu quero? O que eu preciso?”.
Tia May faz um discurso memorável para seu sobrinho: “Acredito que há um herói dentro de todos nós, que nos mantém íntegros, nos dá força, nos enobrece e, por fim, nos deixar morrer com dignidade. Mesmo que, às vezes, seja preciso ser firme e desistir daquilo que mais queremos. Até dos nossos sonhos”. Nesse momento, Peter começa a entender aquilo que ele mesmo afirmou quando adquiriu seus poderes: ser o Homem-Aranha é uma dádiva e uma maldição, ao mesmo tempo.
Parker já estava motivado com o que sua tia lhe havia dito. Agora, com Dr. Octopus raptando Mary Jane - como uma forma de chegar ao Teioso -, a chama reacende de vez e, finalmente, temos o herói de volta.
Na verdade, o enredo faz questão de demonstrar que o heroísmo não está apenas ligado aos superpoderes, como na cena em que Peter resgata uma criança de um prédio em chamas e quando os passageiros do trem enfrentam Octopus para proteger o Aranha. Peter já era um herói, e o uniforme só realçava isso - sendo que ele não nasceu herói, mas tornou-se um na caminhada, apreendendo com a vida.
Peter estava prestes a desistir de Mary Jane mais uma vez em prol da “maldição” de ser o Homem-Aranha. Ademais, ele manteve sua promessa feita a Norman Osborn (Willem Dafoe) e não contou a Harry a verdade sobre o Duende Verde. Aos poucos, vemos a jornada do herói de Campbell se desvelar cada vez mais.
O embate final entre o Cabeça de Teia e Doc Ock é marcado por algumas questões: o vilão parece retornar à consciência, obtendo controle sobre os braços metálicos; Octopus descobre que o Homem-Aranha e Peter Parker são a mesma pessoa; M.J. também descobre a identidade secreta do herói; Octopus parece se redimir, afundando no rio junto com seu experimento para impedir que metade da cidade fosse “engolida” pela fusão.
No ato final, ainda vemos que Harry descobre que seu pai era o Duende Verde, assim como o “quartel-general” dele. Não podemos nos esquecer que, agora, o melhor amigo de Peter também sabe que ele é o vigilante, e culpa-o pela morte do pai.
Por fim, Mary Jane larga o noivo no altar para ficar com seu verdadeiro amor: Peter Parker. Ela toma essa decisão mesmo sabendo dos riscos que a vida do Aranha possui. Aliás, ela decide compartilhar desses riscos em nome do amor.
“Homem-Aranha 2” fala muito sobre propósito, responsabilidade, heroísmo, entrega. É um filme de super-herói que ensina uma lição de vida. “Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades” se tornou a frase mais conhecida da trilogia não é à toa. Afinal, permeia toda a obra e, por fim, nos transformarmos junto com Peter Parker nessa jornada de descobrimento.
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