ANÁLISE DE “HOMEM-ARANHA” (2002)

Inspirado pelo Thiago Romariz, decidi rever (pela enésima vez) todos os filmes do Homem-Aranha, que não são poucos... contando a trilogia de Sam Raimi, os dois protagonizados por Andrew Garfield mais os dois com Tom Holland no papel principal resultam em sete longas, ao todo.

Mas, comecemos pelo começo, com “Homem-Aranha”, de 2002. Logo nos créditos iniciais já dá pra arrepiar, por dois motivos: a trilha sonora impecável de Danny Elfman (o mesmo responsável pela trilha de “Batman”, de 1989, dirigido por Tim Burton, entre outros filmaços como “Planeta dos Macacos” e “M.I.B.”) e Stan Lee creditado como produtor executivo. Quando ouço a musiquinha, volto à infância. Sobre Stan Lee ser creditado, lembro da fala de um amigo que também é marvete: “Gosto da Marvel porque nos filmes eles se preocupam em ser fiéis às HQ’s... sempre consultam: ‘Como aconteceu nos quadrinhos?’, para se inspirarem”. E nada melhor pra isso do que ter o mestre dos quadrinhos no set de filmagens.

Quando o filme foi lançado, eu era apenas uma criança de 5 anos. Portanto, não me lembro de nada da época. Só fui assistir ao filme algum tempo depois, talvez numa “Sessão da Tarde” da vida.

Mas, chega de papo e vamos aos fatos. Primeiro quero falar de Peter Parker, interpretado por Tobey Maguire. Aqui vemos um Peter que é um nerd que mistura suas “qualidades nerds” entre introspecção e inteligência. Sim, sabemos que há várias definições para o termo nerd, termo esse que era pejorativo até os anos 90 e ganhou um charme com séries como “The Big Bang Theory” e a consolidação da cultura pop. Mas o estereótipo do garoto de óculos, com inteligência acima da média e sem sucesso com as garotas se faz presente aqui - e ele ainda tem um pôster do físico Albert Einstein em seu quarto. Ah, e aqui abro parênteses: eu mesmo não me importo de ser chamado de nerd, pois muitos que são ligados em cultura pop também recebem esse nome - sem contar o fato de que eu sempre usei óculos. Pra mim, é um elogio.

Sigamos em frente. Logo no primeiro diálogo entre Peter e Norman Osborn (Willem Dafoe), vemos que o primeiro não é apenas um nerd “bobo”, que é impopular no colégio e tal. Ele é um “gênio da ciência”, conforme disse Osborn, e inclusive fez um trabalho sobre nanotecnologia - e que fica impressionado com “o maior microscópio de elétrons da Costa Oeste”. Nesse sentido, temos aqui uma mistura do Clark Kent pueril de Christopher Reeve com um Tony Stark da vida.

Assim como nas HQ’s, somos contextualizados que Peter Parker está no colégio (em seu último ano), mora com seja tios e tem algumas dificuldades financeiras. Seu ciclo é bem definido no longa: começa como um garoto rebelde que responde o tio e termina como um homem ciente de suas responsabilidades, e sendo obrigado a fazer escolhas maduras - e compreendendo que “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”.

A origem dos poderes de Parker é de uma aranha geneticamente modificada que reúne o poder de outras três: capacidade de caça predatória, teias resistentes como arames de alta tensão e reflexos com velocidade de transmissão nervosa que beira a precognição (traduzindo: o “sentido aranha”). Logo, os poderes aracnídeos de Parker são provenientes de uma alteração em seu próprio DNA, provocados pela mordida de uma aranha geneticamente modificada, enquanto tirava fotos de Mary Jane (Kirsten Dunst) para o jornal da escola durante uma excursão em uma departamento científico. Após essa mordida, a câmera focaliza em uma tela do local que cita todos os “poderes” da aranha em questão: além dos já mencionados, temos ainda força, capacidade de pulo e velocidade acima da média.

Também no começo da película já temos ideia do que será o Duende Verde. A Oscorp, empresa de Norman Osborn, está realizando um experimento científico (que se trata de um exoesqueleto) em vista de vendê-los para o governo (chefiados pelo general Scolum, trata-se das Forças Armadas dos EUA, e possivelmente o intuito é ter um armamento de guerra, a exemplo do soro do supersoldado do Capitão América). Vemos um sujeito com um traje esverdeado em cima de um planador, e o cientista afirma que o voo planado e a gravidade foram devidamente solucionados. Além disso, há um soro que aumentou a força física de um rato em 800%. Mas, contudo, entretanto, todavia... esse mesmo cientista afirma que ocorreram efeitos colaterais: violência, agressão e insanidade.

Em vista de não perder o contrato do exoesqueleto para outra empresa, Norman Osborn decide testar o soro em si mesmo - apesar dos efeitos colaterais que já tinham lhe alertado. A despeito de seu condicionamento físico ter melhorado, a experiência sai fora do controle, e ali vemos o início do Duende Verde.

Da mesma forma que a solução para a origem do vilão é rápida, o mesmo se aplica à origem do Homem-Aranha. Parker se inscreve num torneio de luta-livre com o objetivo de ganhar o prêmio e comprar um carro para impressionar sua amada Mary Jane Watson. Como é típico do wrestling (a exemplo do WWE), o lutador tem que ir fantasiado. Então, o garoto bola uma fantasia caseira de aranha e “voilá”!

Seus poderes são usados para combater o crime pela primeira vez quando um sujeito mata o tio Ben (Cliff Robertson) para roubar o carro e fugir com o dinheiro que ele acabou de roubar no torneio de luta livre - e que Peter deixou escapar pois o cara que foi roubado havia lhe pagado menos que o prometido no anúncio do jornal.

Sam Raimi, diretor desse filme e dos outros dois da primeira franquia da Sony com o Teioso, é considerado um dos gênios do terror. O filme “Uma Noite Alucinante” (1981) teve baixo orçamento, mas foi tão intenso que se tornou um dos filmes B mais famosos e eternizou o protagonista Ash com a sua mão de serra elétrica. Ele também dirigiu “Arraste-me Para o Inferno” (2009), além de ter sido produtor de outros longas como “O Grito” (2020). O mais interessante é que o diretor conseguiu deixar sua impressão digital na trilogia estrelada por Tobey Maguire. Podemos elencar diversas cenas as quais sabemos que Rami está sentado na cadeira de diretor: no momento do experimento em Osborn, em que ele se contorce e seus olhos chegam a ficar brancos; quando Peter chega em casa após ser picado pela aranha, caveiras aparecem na tela como alucinações na mente do garoto; o Aranha se camuflando nas sombras da estação de metrô em busca do cara que matou seu tio Ben; quando o Duende Verde joga uma de suas bombas nos diretores da Oscorp e todos viram esqueletos; o Duende colocando seu braço para fora dos escombros após ser esmagado por uma parede, em alusão àquela cena clássica do terror do braço de um zumbi rompendo o túmulo.

Temos que reservar um parágrafo só pra falar de um personagem em específico: J.J. Jameson, brilhantemente interpretado por J.K. Simmons. O chefe do jornal Clarim Diário parece ter sido extraído diretamente das páginas dos quadrinhos e transposto para o filme. É simplesmente sensacional! Desde a aparência até os trejeitos, tudo ali é Marvel Comics pura.

O Duende Verde consegue realizar diálogos interessantes com o Homem-Aranha, como sobre o fato de que ele sempre será odiado por parte da população, mesmo buscando fazer o bem; e o peso de vestir o manto do herói, sendo obrigado a encarar dilemas e fazer escolhas. Creio que esse aspecto filosófico será abordado em “Homem-Aranha: Sem Volta Pra Casa”, pois o ator Jamie Foxx revelou uma certa abordagem “shakesperiana” no personagem vivido por Willem Dafoe na nova película. No Homem-Aranha em si, não há nenhum dilema que envolve o embate entre herói e vilão. Simplesmente Norman quis vingança contra os diretores da Oscorp que lhe deram um pé na bunda, só que Peter Parker estava exatamente no local - uma festa na Times Square - e vê que Mary Jane está em apuros, pois uma das bombas atiradas pelo Duende faz com que ela fique pendurada em determinada altura de um prédio. Logo, Peter veste o uniforme do Teioso para salvar a sua amada e impedir que o Duende faça mais estragos - visto que esse sentido heroico já estava presente nele, pois os jornais já noticiavam a presença de um cara fantasiado fazendo o bem por aí. Logo, a rivalidade entre Homem-Aranha e Duende Verde nasce desse acaso, com o vilão indignado por ter alguém que lhe impediu de provocar o caos desejado.

Além de lidar com seu arqui-inimigo, o herói se autodenomina “Amigão da Vizinhança”, conforme alcunha das HQ’s, justamente por solucionar problemas do bairro, e não apenas ameaças grandiloquentes.

Harry Osborn (James Franco) e tia May (Rosemary Harris) fazem parte do círculo familiar de Peter, e são importantes como desenvolvimento da história contada - sendo que vemos nesse primeiro filme o início do ódio de Harry pelo Homem-Aranha, a quem ele acha que matou seu pai, sendo que esse ódio desembocaria na transformação do rapaz no Duende Verde Jr. no “Homem-Aranha 3” de 2007.

Por fim, destaco uma característica interessante desse filme que teríamos ao longo de todo o Marvel Studios: as referências (ou easter eggs). Claro que, aqui, eles estão presentes de maneira mais sutil, mas não deixam de estar presentes. O primeiro que salta aos olhos é a referência ao personagem Shazam, da DC, quando Peter tenta lançar sua teia no alto de um prédio e solta o grito típico do herói que antes se chamava Capitão Marvel. E essa não é a única referência à concorrente da Casa das Ideias. Quando tia May está hospitalizada após o ataque do Duende Verde, ela pede para seu sobrinho ir pra casa pois ele não era o Superman. Temos mais alguns exemplos: quando Jameson fala de um fotógrafo do Clarim Diário chamado Eddie (os fãs sabem que se trata de Eddie Brock, o Venom, que inclusive esteve presente no terceiro filme); Mary Jane chama o Aranha de “incrível” mais de uma vez, em alusão ao título das HQ’s do herói (“The Amazing Spider-Man”); o famoso “cameo” de Stan Lee, quando o Duende ataca na Times Square e o velhinho salva uma criança; e é impossível não lembrar da M.J. da Zendaya nos filmes de Tom Holland toda vez que alguém chama a Mary Jane de Kisten Dunst de “M.J.”, sendo que a primeira se chama Michelle, na verdade.

Algo que não é um easter egg, mas sim uma homenagem e, ao mesmo tempo, captura da essência do filme, é quando Peter Parker abre sua blusa com as duas mãos e deixa aparecer o símbolo da aranha no uniforme, antes do herói entrar em ação. Impossível não lembrar de Christopher Reeve fazendo o mesmo movimento em seu “Superman” (1978).

Ao rever esse filme, não sinto apenas nostalgia, mas ainda consigo apreciá-lo como obra. Não é aquela peça totalmente localizada no seu tempo, enfadonha de se assistir décadas depois. Dá pra se divertir, refletir e se encantar com o mundo dos super-heróis.


— Se você gosta desse trabalho, CONTRIBUA através do PIX: supercrenteofc@gmail.com





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIRADENTES E O ARQUÉTIPO DE JESUS CRISTO

“O AUTO DA COMPADECIDA” (2000): ANÁLISE TEOLÓGICA

A CRIAÇÃO NOS AGUARDA