ANÁLISE DE “HOMEM-ARANHA 3” (2007)
Antes de iniciar esta análise, já quero deixar claro: “Homem-Aranha 3” (2007) tem um valor sentimental enorme pra mim. Primeiro porque eu peguei todo o hype desse filme na época do lançamento - coisa que eu não tive oportunidade nos dois primeiros, por ser muito pequeno. Mas em 2007 eu já era uma criança de 10 anos, então consegui aproveitar bem a atmosfera em torno do fechamento da trilogia de Sam Raimi.
Lembro-me que o biscoito Cheetos fez eduções especiais com o tema do filme, e os brindes eram chaveiros (eu tenho um de metal com o rosto do Homem-Aranha de uniforme preto até hoje) e bolinhas pula-pula, feitas de silicone com a imagem do herói por dentro.
Me recordo também de gibis especiais que eles fizeram sobre as histórias do filme. Eram os mesmos atores, só que desenhados. Dava pra achar em qualquer banca.
Não dá pra esquecer quando vi o trailer do longa, na pequena televisão preta de antena que tinha no quarto dos meus mais. “4 de maio nos cinemas”, dizia a locução.
Meus pais me deram esse presente inesquecível de me levar ao cinema pra ver meu herói favorito em ação. Eu ainda queria levar um boneco de plástico do Teioso - que, aliás, eu tenho guardado até hoje -, mas ouvi deles que eu já era bem grandinho pra isso. E era verdade! Levei apenas minha empolgação mesmo.
É fresca na minha memória o momento em que os créditos iniciais passaram na telona. Cenas dos dois primeiros filmes do Aranha, e aquilo pra mim era como se eu estivesse revivendo todos os momentos em que eu assisti esses filmes na televisão ou em DVD.
De primeira, vemos um Peter Parker (Tobey Maguire) de bem com a vida. O Homem-Aranha é um sucesso em Nova York. A cidade está mais segura e ama o vigilante. Da mesma forma, Parker também está a mil por hora na sua vida pessoal, sendo um aluno aplicado na faculdade e conseguindo comparecer à peça de Mary Jane Watson (Kirsten Dunst), algo que era um desafio anteriormente. Como o próprio garoto diz, tio Ben (Cliff Robertson) ficaria orgulhoso dele.
O Peter nerd também entra em ação. Aqui ele ouve da boca da própria M.J.: “Você é tão nerd!”, no momento em que ele explica porque os aplausos após a apresentação de sua amada pareciam ter sido poucos, mas assim o era por causa da difusão que evita que as ondas sonoras se concentrem e tal. Peter recebe a frase como um elogio, sorrindo, assim como eu receberia também. Ser nerd é um orgulho!
Como nos dois primeiros filmes, as soluções aqui são rápidas: o simbionte vem de um meteorito que caiu na Terra, e segue Peter porque “coincidiu” de ele estar no local da queda junto com Mary Jane, olhando as estrelas; Harry Osborn (James Franco) descobriu o QG do Duende Verde no segundo filme, e agora ele está obstinado a dar continuidade ao legado vilanesco de Norman Osborn (Willem Dafoe) e matar Peter para vingar a morte de seu pai; Flint Marko (Thomas Haden Church) é um criminoso que está envolvido na morte de tio Ben, e ele consegue fugir da prisão - motivado a conseguir dinheiro para restituir a saúde de sua filha Penny (Perla Haney-Jardine) -, mas acaba sendo perseguido pelos policiais em um pântano e acaba entrando numa zona de testes científicos. Lá, ele cai numa espécie de poço no qual estavam sendo realizados testes com partículas. Seu corpo se desintegra em inúmeras dessas partículas (devido à chamada desmolecularização) e tcharam! Eis a origem do Homem-Areia.
A paz de Peter é bruscamente interrompida com o ataque do Duende Verde Jr., quando ele está tranquilo em sua moto, sorrindo após ter recebido de sua tia May (Rosemary Harris) o anel que Ben a deu de noivado, para então presentear sua amada Mary Jane. Soco pra lá, soco pra cá, o anel quase vai embora, até que, num beco, Peter usa sua teia para derrubar Harry do planador. A queda provoca uma lesão na sua cabeça, que ocasiona perda de memória recente. Ou seja, Harry não lembra da relação entre Peter Parker e Homem-Aranha.
Os easter eggs no melhor estilo Marvel também estão presentes: quando Peter está olhando para um letreiro que diz que o Homem-Aranha vai receber a chave da cidade, Stan Lee aparece ao lado do rapaz e diz: “Eu acho que uma pessoa pode fazer a diferença”; dessa vez, o Amigão da Vizinhança consegue salvar Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard) de uma queda mortal, o que não ocorre nos quadrinhos quando o Duende Verde joga a moça do alto de uma ponte, e o herói não consegue salvá-la; na festividade para o Aranha, há um balão no formato do rosto do herói, só que a máscara é a do visual clássico dos quadrinhos.
É claro que o humor típico da Casa das Ideias também pode ser apreciado aqui, com destaque para a cena de J.J. Jameson e sua secretária controlando sua pressão; e Peter no telefone comendo cookies com biscoitos feitos com carinho por Ursula (Mageina Tovah).
Peter e M.J. não estão se dando bem, e tudo piora quando o Aranha beija Gwen Stacy na festividade de entrega da chave da cidade para o herói. De quebra, no jantar em que ele ia pedir sua namorada em casamento, Gwen aparece. Além de elogiar Peter, ela ainda pede fotos do beijo - claro que ela não sabia que os dois eram a mesma pessoa, mas sim que o rapaz era o fotógrafo do herói. Acaba que M.J. vai embora e nada de noivado.
Tudo piora quando o Capitão Stacy (James Cromwell) chama tia May e Peter na delegacia pra dizer que a polícia se enganou quanto ao culpado pela morte de tio Ben. O verdadeiro responsável, na verdade, é Flint Marko, a quem o Teioso já tinha encarado como o Homem-Areia, quando este tentava roubar dinheiro para o tratamento de sua filha. Aliás, Marko só seguiu em frente após o ocorrido no campo de testes por causa da garota.
Peter, cheio de ressentimentos e pensando apenas em si mesmo (sempre que Mary Jane vai falar de algo pessoal, ele fala de sua experiência como Homem-Aranha), se torna o hospedeiro perfeito para o simbionte que já estava na sua casa desde a noite da queda do meteorito. Então, temos o surgimento do Homem-Aranha de uniforme preto, mais poderoso e egocêntrico do que nunca.
O começo da rivalidade entre Peter Parker e Eddie Brock (Topher Grace) começa quando o segundo quer um emprego no Daily Bugle e, pra isso, começa a tirar fotos do Homem-Aranha. Então a disputa em prol da única vaga no periódico começa.
O negócio fica mais acirrado quando o Homem-Aranha simbionte destrói a câmera de Brock - que, por sua vez, estava pentelhando o herói.
O simbionte toma conta da personalidade de Peter - que já estava afetada devido a todos os problemas, inclusive Mary Jane terminando o namoro como parte de um plano maléfico de Harry, que recuperou a memória -, e ele vira outra pessoa. Apesar de tia May ter alertado que ele não devia viver com a vingança no coração, pois ela é como um veneno, ocorre justamente o contrário, e se o rapaz já estava com o ego meio fora do lugar devido à moral que o Homem-Aranha estava tendo na cidade, o uniforme preto apenas amplificou tudo isso.
Não poderia deixar de mencionar a famosa cena do “Peter Parker emo” e sua dancinha no meio da rua. O meme ficou tão forte que foi até parodiado na animação “Homem-Aranha no Aranhaverso” (2018).
Depois dessa persona protagonizar um momento infame no bar onde Mary Jane trabalhava, provocando sua então ex-namorada com Gwen Stacy, Parker cai em si a percebe a besteira que estava fazendo.
A origem do Venom aqui é dada em uma solução rápida também: Peter vai em direção ao sino de uma igreja para se livrar do parasita. “Coincidentemente”, Eddie Brock está lá, remoendo seus problemas - além de Peter ter pegado sua vaga no Daily Bugle, ele também saiu com sua amada Gwen, que havia terminado com ele depois da farsa da foto fake que ele supostamente tirou do Aranha roubando um banco foi revelada. Com o badalar do sino, o simbionte cai do corpo de Peter e cai diretamente em outro hospedeiro: Eddie. Apesar de não ser explicado que o simbionte é sensível ao som, os fãs de quadrinhos pegaram a referência.
A rivalidade entre Venom e Homem-Aranha começa simplesmente porque, na cena em que Peter está no sino para se livrar do simbionte, Brock consegue ver o herói sem máscara, e então descobre que se trata do seu desafeto.
Logo, convenientemente, Areia e Venom se juntam para matar o Aranha - sendo que o primeiro possui como única motivação Penny, sua filha, e o ódio contra o Teioso se dá por ele sempre interromper suas tentativas de roubar bancos e carros-forte para conseguir a verba do tratamento de sua filha, além do momento que em o próprio Aranha (com o uniforme preto) vai atrás de Flint para vingar a morte de seu tio Ben.
Há uma grande batalha em um prédio em construção, entre Homem-Aranha, Homem-Areia, Venom e Duende Verde Jr. (creditado como “New Goblin” - Novo Duende Verde), que perdoou Peter após seu mordomo Bernard (John Paxton) relatar que, na noite em que Norman morreu, ele viu que a ferida era do próprio planador do vilão. Harry morre nas mãos de Venom para salvar a vida de Peter. Este, por sua vez, compreende que o simbionte é sensível ao som quando vê que a queda de hastes metálicas causou incômodo no ser, e ligou o fato com as baladas do sino na igreja. Com isso, ele arma uma “gaiola” para Venom, consegue separar Eddie do simbionte, lança uma bomba explosiva do planador de Harry, mas Eddie se atira no simbionte e acaba morrendo junto com “Venom” na explosão.
Descobrimos também que Flint Marko cometeu um “equívoco” na noite da morte de tio Ben, e Peter o perdoa - graças à mentoria de tia May.
No fim, Peter e M.J. ficam juntos novamente, e há um gancho enorme para uma continuação.
Hoje sabemos que “Homem-Aranha 4” estava nos planos do estúdio, mas nunca viu a luz do dia. Uma curiosidade é que Bruce Campbell (que no primeiro filme apareceu como o narrador da luta livre, no segundo como o recepcionista do cinema e, nesse último, como o maître do restaurante onde Parker iria pedir Mary Jane em casamento) estava cotado para ser o vilão Mysterio. Ademais, Carnificina também era preterido para antagonizar com o Cabeça de Teia nessa eventual sequência.
Outra curiosidade é que alguns atores da trilogia aracnídea de Sam Raimi acabaram fazendo filmes da concorrente DC: Willem Dafoe interpretou Vulko (o conselheiro chefe de Atlântida) em “Aquaman” (2018) e “Liga da Justiça: Snyder Cut” (2021); J.K. Simmons deu vida ao Comissário Gordon em “Liga da Justiça” (2017) e “Liga da Justiça: Snyder Cut”; Joe Manganiello, que fez o personagem Flash em “Homem-Aranha” (2002) e apareceu brevemente no enterro de Harry Osborn no último filme da trilogia, vestiu o manto de Slade Wilson, o Deathstroke, na cena pós-créditos de “Liga da Justiça” e com mais tempo de tela em “Liga da Justiça: Snyder Cut”.
O foco de “Homem-Aranha 3” é Peter Parker lidando com o próprio legado do herói. Se no segundo filme a dúvida era abraçar o não a “dádiva e maldição” do manto, no terceiro ele abraça demasiadamente, a ponto de subir à cabeça. Como lidar com o poder, com os holofotes, com os aplausos acima das vaias?
Finalmente, encerra-se um ciclo em relação ao luto por tio
Ben, à briga entre Harry e Peter, e o amadurecimento do rapaz e Mary Jane como
casal.
Sam Raimi encerra sua trilogia de maneira digna. O “gostinho
de quero mais” ficou justamente por causa da qualidade dos filmes, e não por
eventuais lacunas.
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