COMO A MARVEL MUDOU O CINEMA
“Cidadão Kane” (1941) quebrou várias barreiras no cinema,
como o jogo de câmeras que pegava os personagens de cima pra baixo, passando a
impressão de grandiosidade e superioridade (algo que Zack Snyder faz bastante
nos seus filmes da DC, com os heróis quase sempre no alto, transmitindo aquele
aspecto majestático que Alex Ross consegue imprimir em suas obras), até os
diálogos densos (que fazem lembrar os diálogos dos filmes do Tarantino).
“Star Wars”, nos anos 80, também mudou o rumo de Hollywood.
Bem antes das telas verdes de chroma-key, George Lucas fazia mágica com
maquetes e manuseio das câmeras. Tudo era orgânico, até mesmo o letreiro do
começo dos filmes (“Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito
distante...”).
A trilogia do Batman de Christopher Nolan, no começo dos anos 2000, também fez a indústria enxergar os encapuzados e encapados de uma outra forma. Devido aos filmes cartunescos dos anos 90, principalmente os do próprio Homem-Morcego, “super-heróis” tornaram-se sinônimo de “coisa de criança”. Todavia, Nolan rompeu com esse paradigma, e trouxe uma Gotham City suja, com vilões palpáveis, um Batmóvel utilitário e um protagonista sem “batmamilos”, como vimos no longa interpretado por George Clooney.
Agora, a Marvel também entra no hall dos momentos marcantes da sétima arte. Após a DC estabelecer o “sombrio e realista” como fórmula de sucesso para seus heróis - algo que, de certa forma, trouxe respeitabilidade para o gênero -, a Casa das Ideias foi para um caminho diferente. Apesar de seguir essa receita em “Homem de Ferro” (2008), logo depois percebemos que o estúdio trilhou seu próprio caminho. E com sucesso. Fizeram críveis uma árvore falante, um guaxinim falante, um titã destruidor de mundos, um sujeito que de dia é rei e de noite é pantera, e um menino magrelo que pode virar um supersoldado da Segunda Guerra Mundial.
Na primeira década do novo milênio, tudo isso era impensável. Ameaças grandiloquentes seriam alvo de piadas, pensavam os estúdios. Tanto é que a Fox transformou Galactus, o devorador de mundos, em uma grande nuvem, no segundo filme do Quarteto Fantástico, lançado em 2007. Sem contar a boca costurada do Deadpool em “X-Men Origins: Wolverine” (2009). Mas, pudera, um personagem que jantava planetas como Galactus e um anti-herói falante e piadista como Wade Wilson não seriam bem recebidos por um público que ainda estava digerindo o gênero em ascensão. E é aí que entra o mérito da Marvel: Thanos foi aparecendo aos poucos, sendo a primeira vez em “Os Vingadores” (2012), na cena pós-créditos. Conforme o universo alienígena da Marvel avançava, o público compreendia quem era o Titã Louco. Ou seja, não foi um elemento que simplesmente apareceu do nada com um discurso vazio e cansativo de “quero destruir o mundo”.
Pegando um pouco da fórmula Disney, a Marvel conseguiu fazer filmes com teor fantástico, veia cômica no ponto certo e uma boa história pra contar. Uma vez que o público já estava imerso naquele universo oriundo dos quadrinhos, a Casa das Ideias cada vez mais adquiria liberdade criativa. Tanto é que vimos os dois primeiros episódios de “Wandavision” em formato de sitcom e em preto e branco, ainda por cima. Daqui a pouco, veremos multiverso, sem contar a viagem no tempo que já assistimos em “Vingadores: Ultimato” (2019).
Muitos pontos e um lugar na história do cinema para a Marvel, tanto por ter transformado os super-heróis em um gênero cinematográfico, quanto por possibilitar que as páginas das HQ’s pudessem se tornar realidade, sem que o público não acreditasse nas histórias a serem contadas.
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