AMOR PELA BÍBLIA

Martinho Lutero (1483-1546) é o nome mais conhecido da Reforma Protestante. Apesar do movimento não ter se iniciado tampouco se finalizado com o ex-monge agostiniano, o ponto alto da Reforma foi justamente protagonizado por ele, no dia 31 de outubro de 1571, ao afixar na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg suas 95 teses com questões teológicas acerca do cristianismo vigente.

Lutero possui belíssimas frases sobre a Bíblia Sagrada, provenientes de seu profundo amor e devoção pela Palavra.

Ele dizia:


“Fiz uma aliança com Deus... Que Ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instruções abundantes. É tudo o que preciso conhecer, tanto para esta vida quanto para o que há de vir.”


Para explicar seus questionamentos teológicos ao cenário religioso, Lutero foi convocado para a Dieta de Worms, uma assembleia oficial do Sacro Império Romano Germânico, com funções de órgão deliberativo, que se reuniu entre 28 de janeiro a 26 de maio de 1521, presidida pelo imperador Carlos 5° (1500-1558).

Uma de suas frases, que entrou para a história, ao responder se renunciaria às heresias, foi a seguinte:


“A não ser que eu esteja convencido pelo testemunho das Escrituras ou pela razão clara, sou limitado pelas Escrituras que citei e minha consciência é cativa à palavra de Deus. Não posso e não irei me retratar de nada, uma vez que não é nem seguro nem correto agir contra a consciência. Esta é minha posição.”


Quanto amor pelas Escrituras! Porém, como isso começou? O germânico sempre teve esse apreço pelo texto sagrado?

A resposta é que essa paixão foi descoberta pelo próprio Lutero.


“Desejando ardentemente compreender as palavras de Paulo, comecei o estudo da Epístola aos Romanos. Porém, logo no primeiro capítulo, consta que a justiça de Deus se revela no Evangelho (vv. 16, 17). Eu detestava as palavras ‘a justiça de Deus’ porque, conforme fui ensinado, eu a considerava como um atributo do Deus santo que o leva a castigar os pecadores. Apesar de viver irrepreensivelmente, como monge, a consciência perturbada me mostrava que era pecador perante Deus. Assim, odiava a um Deus justo, que castiga os pecadores... Senti-me ferido de consciência, revoltado intimamente, contudo voltava sempre para o mesmo versículo, porque queria saber o que Paulo ensinava. Depois de meditar sobre esse ponto durante muitos dias e noites, Deus, na sua graça, me mostrou a palavra: ‘O justo viverá da fé’. Vi então que a justiça de Deus, nesta passagem, é a justiça que o homem piedoso recebe de Deus, pela fé, como dádiva.”

(BOYER, Orlando. Heróis da Fé. Pág. 21)


O amor de Martinho Lutero pela Bíblia é oriundo de um coração em chamas consequente da meditação diligente na Palavra do Senhor.

Tal apreço pela Palavra fez-se evidente inclusive no momento de “dar os créditos” pela Reforma. Quando indagado sobre o segredo do sucesso do movimento religioso, Lutero foi assertivo: ele dizia que, “enquanto eu dormia ou bebia a cerveja de Wittenberg com meus amigos Phillip e Amsdorf”, a Palavra de Deus fazia o trabalho dela. “Eu não fiz nada; a Palavra fez tudo!”, em suma.

O ex-monge descobriu que “a palavra de Deus é viva e eficaz” (Hebreus 4:12), tanto é que ele declarou: “A Bíblia é viva, ela fala comigo: têm pés, corre atrás de mim; têm mãos, ela me sustenta”.

Ademais, ele também reconhecia o sobrenatural quando se tratava da preservação das Escrituras ao longo dos séculos, mesmo em meio a diversos eventos históricos:

“É um milagre a maneira pela qual Deus tem preservado seu livro durante tanto tempo! Como é bom e glorioso ter a Palavra de Deus.”

Isso nos ensina a enxergar além da capa de couro, além de um texto antigo (porém, “mais atual do que o jornal que irá circular amanhã”, conforme os dizeres de Billy Graham) que disserta sobre tempos antigos (e futuros), de uma outra civilização (mas que, ao mesmo tempo, diz respeito a todos os povos).

As crianças de “As Crônicas de Nárnia contemplaram um mundo fantástico atrás de um velho guarda-roupa.

Devemos aprender a contemplar o verdadeiro mundo atrás da capa de couro.

Finalizo com esse belíssimo texto do pastor John Piper:


“Deus escreveu um livro. Essa realidade me deixa de queixo caído sempre que eu paro para pensar. Páginas e mais páginas de Deus – seus pensamentos, suas palavras, seu coração – a somente alguns centímetros de distância. Eu posso levar comigo para onde eu for e ler quando eu quiser.

Quando abrimos a Bíblia, o que nós vemos? Nós vemos o próprio Deus no livro. Se não o encontrarmos aqui, não o encontraremos de outra maneira – não com alguma esperança de amizade.

Ler a Bíblia é uma das coisas mais importantes que podemos fazer. É mais valioso do que qualquer outra coisa que nós temos e mais doce do que qualquer outra coisa que já comemos. É literalmente mais importante do que respirar.

Mas não é isso que sempre vemos e sentimos quando abrimos a Bíblia. Nossos olhos fracos, cansados e distraídos só conseguem enxergar um retrato maçante e sem vida na parede. Mas não é um retrato. É uma janela. Não é algo sem vida que fica pendurado em uma moldura velha na parede. É algo que atravessa a parede e dá acesso a outro mundo – o mundo real, o mundo duradouro, o mundo melhor. A divina luz brilha nessa janela e transforma tudo ao nosso redor.

Todos sabemos que o caminho para o conhecimento de Deus não é fácil. Disciplina e determinação são importantes, mas só podem levá-lo até certo ponto – alguns dias, uma semana, talvez um mês. A longo prazo, precisamos de algo mais forte, mais persuasivo do que a disciplina e a determinação. Há muitas armadilhas e obstáculos no caminho.

No fundo, a razão pela qual nós não lemos a Bíblia é que não queremos ler a Bíblia. Nós não enxergamos alegria, paz e vida quando vemos aquela capa de couro em nossa prateleira. Nós vemos uma parede, não uma janela – o retrato maçante, não a eterna beleza de outro mundo. Então, nós postergamos a leitura, deixamos a Bíblia fechada e seguimos em frente. Nós ficamos na cama e deixamos de contemplar o milagre. O Deus que disse, ‘Das trevas resplandecerá a luz’, ama iluminar as mentes e os corações com sua Palavra.

Deus escreveu um livro. Através de seu livro – estas palavras diante de nós – ele desperta as nossas almas mortas e entediadas, liberta-nos da escravidão do pecado – desejos que roubam as nossas vidas -, consola os deprimidos, inspira os desanimados e direciona os que estão confusos. Ele nos capacita a fazer a diferença por sua causa no mundo. Para sempre, ele nos satisfaz completamente através de palavras – as palavras dele.

Se eu vou ler a minha Bíblia amanhã? Para onde mais eu iria? De que outra maneira eu poderia conhecê-lo? De que outra maneira eu poderia me preparar para se alegrar nele para sempre? Sim, eu vou passar o resto da minha vida olhando por essa janela, na expectativa de vê-lo mais uma vez – mais um milagre, mais um vislumbre do meu Deus.”



(Referências bibliográficas: https://tiagolinno.wordpress.com/2017/10/28/500-anos-da-reforma-a-palavra-fez-tudo/; https://www.google.com.br/amp/s/www.bbc.com/portuguese/internacional-56809062.amp; https://voltemosaoevangelho.com/blog/2018/08/deus-escreveu-um-livro/)



— Se você gosta desse trabalho, CONTRIBUA através do PIX: supercrenteofc@gmail.com





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TIRADENTES E O ARQUÉTIPO DE JESUS CRISTO

“O AUTO DA COMPADECIDA” (2000): ANÁLISE TEOLÓGICA

A CRIAÇÃO NOS AGUARDA