CONHECER A DEUS

É possível viver de maneira religiosa durante toda a vida e, ainda assim, não conhecer a Deus?

A Teologia, a Filosofia e a História nos demonstram que sim.

Jó recebeu diversos adjetivos positivos da parte de Deus. Observe:


“E disse o Senhor a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal.”

(Jó 1:8)


Ainda assim, depois de passar por diversas provações e experiências com o Senhor, Jó admitiu:


“Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu te vejo com os meus próprios olhos.”

(Jó 42:5)


A melhor pergunta que podemos fazer é: o que significa “conhecer” a Deus?

Talvez perdemos de vista o real sentido dessa palavra. Talvez temos um amigo na internet que mora do outro lado do mundo e falamos com ele uma vez ao ano, mas dizemos que o “conhecemos”, e achamos que o mesmo se aplica a Deus - no caso do amigo, podemos até conhecê-lo no sentido de saber de quem se trata, mas o genuíno significado de “conhecer” na Bíblia vai muito além de ter uma informação a respeito de alguém ou de saber o nome da pessoa.


“A primeira vez que ‘conhecer’ aparece nas Escrituras também é em Gênesis, no relato do início de tudo.

‘Coabitou o homem com Eva, sua mulher.’

(Gênesis 4:1)

A palavra traduzida como ‘coabitar’, no original hebraico, é ‘yada’. Segundo o Léxico de Strong, significa ‘conhecer, aprender a conhecer, perceber, ver, descobrir, discernir, saber pela experiência, reconhecer, estar familiarizado com’. Ela é utilizada pela primeira vez na Bíblia para retratar o contato íntimo de Adão e Eva.

É extremamente interessante pensar que essa foi a primeira menção de conhecer. Não é apenas saber, é realmente ter contato. E não se trata de conhecimento superficial, mas íntimo, desnudado, sem maquiagem.

(...)

Tendo em mente a primeira menção, além dos demais cenários nos quais a palavra ‘conhecer’ é aplicada biblicamente, precisamos reconhecer que ‘conhecer a verdade’ é mais que entender intelectualmente. Trata-se de experimentar. Não apenas conhecimento, mas conhecimento pleno. Provar completamente.

A palavra ‘conhecimento’, em grego, é ‘gnosis’. Já o termo ‘conhecereis’, que aparece em João 8.32, vem de outra palavra grega: ‘epignosis’, cuja tradução é ‘pleno conhecimento’ e significa um conhecimento progressivo. A medida que experimentamos, mais e mais, crescemos. Ou seja, é conhecer por experimentar. Que incrível!

A igreja primitiva viu Jesus em carne, por isso alcançou os níveis que alcançou. Hoje, se você falar em ver Jesus ‘em carne’, você será quase motivo de escândalo. Porém é dessa proximidade que trata o primeiro registro do termo ‘conhecer’. É realmente conhecer em carne. Presenciar. Viver. Sentir na pele, como quando se nega comida com o propósito de jejuar. Como quando se gasta tempo de joelhos em oração até as pernas formigarem. Assim como quando se perde a voz em clamor e secam-se as lágrimas em quebrantamento. Quando os ouvidos realmente ouvem a voz do Deus invisível, mas real. Como quando borbulha o coração a ponto de sentir queimar e apertar o peito. Quando nossa carne toca a dEle e é, de alguma forma, transformada.”

(VILAS BOAS, Alessandro. Quem é Jesus. Págs. 57 e 59)


A igreja primitiva só alcançou os níveis que alcançou porque ela viu Jesus. Paulo só teve a coragem de prosseguir porque o próprio Jesus aparecia pra ele e dizia: “Tende coragem!”. Nós só vamos ter uma fé vívida e real quando conhecermos a Jesus.

Muitos se acostumaram tanto com o raso (as águas batendo nos tornozelos, conforme a visão do profeta Ezequiel), que realmente se escandalizam quando se fala em “ver Jesus”.

Ou então, tratam o “ver Jesus” como algo meramente metafórico: “Ah, eu vejo Jesus através do canto de um pássaro, no pôr-do-sol, no sorriso de uma criança”. Ok! Concordo que a criação manifesta a glória de Deus, conforme escreveu Paulo na carta aos Romanos. Mas quando eu digo “ver Jesus” é VER JESUS mesmo, sem metáforas!

A Bíblia diz que Moisés viu a sarça ardente; que Isaías viu o Senhor no ano da morte do rei Uzias; que Pedro, Tiago e João presenciaram o episódio do Monte da Transfiguração; que o apóstolo Paulo foi ao terceiro Céu, numa experiência tão real que ele não sabia discernir se havia sido em carne ou em espírito.

Ou seja, meu irmão e minha irmã: a Palavra de Deus atesta que nós podemos sim viver essas experiências! Nós podemos sim ver Deus!

“Ah, mas Moisés, Isaías, Pedro e Paulo eram diferentes né... eles eram os caras”. Sim, admiro muito a estatura espiritual desses heróis da fé, mas a própria Bíblia nos diz:


“Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós e, orando, pediu que não chovesse, e, por três anos e seis meses, não choveu sobre a terra. E orou outra vez, e o céu deu chuva, e a terra produziu o seu fruto.”

(Tiago 5:17-18)


As Escrituras já são suficientes para convencer. Mas vamos citar um dado histórico também. Dê uma olhada na descrição que Jonathan Edwards, pastor calvinista da Igreja Presbiteriana de 1700, deu acerca do avivamento que ocorrera na Inglaterra naquela época:


“Era algo muito comum ver o santuário cheio de pessoas chorando alto, desmaiando, tendo convulsões e fenômenos semelhantes, expressando desespero como admiração e alegria.

Muitos, em seus sentimentos religiosos, foram elevados a um nível muito superior a qualquer experiência anterior: houve alguns casos que pessoas caíam numa espécie de transe, permanecendo por talvez vinte e quatro horas imóveis, com seus sentidos inertes; entretanto, neste mesmo período, tiveram fortes sensações de serem levadas ao céu, onde viram coisas gloriosas e maravilhosas.”

(EDWARDS, Jonathan. The Words of Edwards. A Narrative of Surprising Conversersions and the Great Awakening)


É possível! É real! Afinal de contas, Jesus não é uma “energia”. Ele é uma pessoa! Um homem!

Certa vez ouvi o relato de uma menina que me disse ter tido um sonho com Deus. “Eu já tive um sonho com Deus”, disse. Pedi pra ela contar. Ela falou que, no sonho, Jesus pediu pra ela abrir os olhos, e ela abriu, e viu uma grande luz branca, e dela saía uma voz (como a minha, mas um pouco mais forte, segundo ela) elogiando-a por ser obediente. Na cama, ela viu um menino, que não sabia quem era. E completou: “Eu durmo com a luminária acesa, mas parece que nesse dia Deus apagou a luminária só pra eu ver Ele melhor”. Ela disse isso por causa do brilho que havia no quarto.

Deus falou muito comigo através da experiência dessa menina de apenas 12 anos. Era como se o Espírito Santo estivesse me testificando que era possível sim ver Jesus.

Outra coisa: você sabia que Jesus não conhece a todos?

Sim, Ele criou toda a humanidade, sabe da existência de todos, mas Ele não “conhece” (no sentido bíblico e real do termo) todo mundo.

Isso não sou eu que estou dizendo, mas a própria Bíblia Sagrada:


“Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas?

E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.”

(Mateus 7:22-23)


O mais interessante de tudo é que, pelo que diz o texto, parece que esses a quem Jesus afirmou não conhecer eram religiosos. Sim, pessoas que professavam a fé nEle! Afinal, eles relatam que fizeram várias obras no nome de Cristo.

Isso me levar a refletir novamente naquela pergunta que fiz no início do texto: é possível passar uma vida inteira sendo religioso, achando que conhece a Cristo, ser assíduo nos cultos e nas atividades da igreja e, ainda assim, não conhecer Jesus?

A Bíblia responde: sim, é possível.

Talvez seja por isso que o avivalista inglês John Wesley (1703-1791) afirmou:


“Uma pessoa pode ir à igreja duas vezes por dia, participar da ceia do Senhor, orar em particular o máximo que puder, asssitir a todos os cultos e ouvir muitos sermões, ler todos os livros que existem sobre Cristo. Mas ainda assim tem que nascer de novo.”


O filósofo britânico David Hume (1711-1776) atesta que o pleno conhecimento é proveniente da experiência, conforme denota o significado do termo “yada”.

Ele escreve:


“Adão, ainda que supuséssemos que suas faculdades racionais fossem inteiramente perfeitas desde o início, não poderia ter inferido da fluidez e transparência da água que ela o sufocaria, nem da luminosidade e calor do fogo que este poderia consumi-lo. Nenhum objeto jamais revela, pelas qualidades que aparecem aos sentidos, nem as causas que o produziram, nem os efeitos que dele provirão; e tampouco nossa razão é capaz de extrair, sem auxílio da experiência, qualquer conclusão referente à existência efetiva de coisas ou questões de fato.”

(HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Unesp, 2003.)


Um claro exemplo disso é que, por mais que a Bíblia afirme que “Deus é amor” (1 João 4:8), você nunca vai compreender essa afirmativa até vivenciá-la. Por mais que as Escrituras dissertem acerca da graça de Deus, você nunca se sentirá grato até experimentar essa maravilhosa graça.

O londrino John Newton (1725-1807), depois de um curto tempo na Marinha Real, iniciou sua carreira como traficante de escravos. Certo dia, o navio de Newton foi fortemente afetado por uma tempestade. Ele orou a Deus pela primeira vez depois de anos. Ele temia estar à beira da morte e, se a fé cristã fosse verdadeira, estava certo de que não seria perdoado. John refletiu em tudo o que fizera naqueles últimos anos. Newton escapou com vida e isso o marcou bastante.

Newton atribuiu a Deus aquele livramento que tiveram. Tornou-se pregador. Compôs a famosa canção “Amazing Grace”.

Isto é, aquele homem conheceu a graça de Deus a partir de uma experiência, que inclusive resultou numa das músicas mais belas de todos os tempos.

Se você leu até aqui e chegou à conclusão de que só conhece a Jesus de ouvir falar, e não verdadeiramente, quero te dizer que ainda há tempo.


Algumas dicas:

1 – Entre no seu quarto e ore. Abra seu coração para Deus. Diga que deseja conhecê-lo verdadeiramente.

2 – A Bíblia nos chama de herdeiros, mas nem todos têm consciência do acesso a essa herança. E como ter acesso à herança que já é nossa? Através das disciplinas espirituais (meditação bíblica, oração, jejum).

3 – “Não coloque a leitura bíblica de lado até encontrar seu coração aquecido... deixe que ela não apenas o informe, mas o inflame.” (Thomas Watson. 1629-1686)


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