FÉ E RAZÃO

Nós somos seres dicotômicos, isto é, tendemos aos extremos.

Tal realidade é uma evidência da nossa natureza adâmica.

Tendemos a achar que devemos escolher A em detrimento de B, e não prezar pela conciliação.

Agora, falando especificamente do âmbito religioso, não poucos aventam o pensamento de que “ou eu sou da teologia ou eu sou do fogo” - como se um e outro fossem divergentes entre si.

Ora, em qual momento a Palavra (que deve ser nosso guia) nos orienta a escolher entre fé ou razão?

Em que parte das Escrituras há a afirmativa de que um não pode conviver com o outro?

Pelo contrário, o próprio Jesus afirmou:


“Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus.”

(Mateus 22:29)


Essa fala de Cristo foi direcionada aos religiosos. Ele não disse que o erro estava no fato de conhecerem um em detrimento do outro, mas não conhecerem a ambos.

Paulo era um homem letrado, que conhecia os filósofos gregos e o arcabouço teológico do judaísmo. Contudo, ele também vivenciou o sobrenatural de Deus.

Acerca dessa questão do apóstolo conhecer os filósofos gregos, vejamos o contexto:


“Deus assim procedeu para que a humanidade o buscasse e provavelmente, como que tateando, o pudesse encontrar, ainda que, de fato, não esteja distante de cada um de nós:

‘Pois nele vivemos, nos movimentamos e existimos’, como declararam alguns de vossos poetas: ‘Porquanto dele também somos descendentes’.

Portanto, considerando que somos geração de Deus, não devemos acreditar que a Divindade possa ser semelhante a uma imagem de ouro, prata ou pedra, esculpida pela arte e idealização humana.”


(Atos 17:27-29)


Sobre essa passagem acima, a Bíblia King James explica:


“O Espírito Santo usa a erudição de Paulo que passa a citar alguns grandes intelectuais (poetas) gregos. Epimênides, que viveu por volta do ano 600 a.C. falou sobre o poder de Deus em sua obra ‘Cretica’: ‘nele vivemos, nos movemos e existimos’. O poeta Arato (315 - 240 a.C.), que afirmou em ‘Fenômenos’: ‘somos descendentes de Deus’. E, no hino de Cleanto (331 - 233 a.C.) em homenagem a Zeus (‘Deus’, em grego): ‘somos todos da sua descendência’.

Paulo, em outras oportunidades, voltaria a mencionar pensadores gregos (1Co 15.33; Tt 1.12).”


O próprio comitê da BKJ fez questão de destacar: o Espírito Santo usou a erudição de Paulo.

Em 1760, em uma carta ao seu discípulo John Trembath, o avivalista inglês John Wesley escreveu:


“O que tem lhe prejudicado excessivamente nos últimos tempos e, temo que seja o mesmo atualmente, é a carência de leitura. Eu raramente conheci um pregador que lesse tão pouco. E talvez por negligenciar a leitura, você tenha perdido o gosto por ela. Por esta razão, o seu talento na pregação não se desenvolve. Você é apenas o mesmo de há sete anos. É vigoroso, mas não é profundo; há pouca variedade; não há sequência de argumentos. Só a leitura pode suprir esta deficiência, juntamente com a meditação e a oração diária. Você engana a si mesmo, omitindo isso. Você nunca poderá ser um pregador fecundo nem mente um crente completo. Vamos, comece!

Estabeleça um horário para exercícios pessoais. Poderá adquirir um gosto que não tem; o que no início é tedioso, será agradável, posteriormente. Quer goste ou não, leia e ore diariamente. É para sua vida; não há outro caminho; caso contrário, você será, sempre, um frívolo, medíocre e superficial pregador.

Faça justiça à sua própria alma; dê-lhe tempo e meios para crescer. Não passe mais fome. Carregue a sua cruz e seja um cristão no verdadeiro sentido da palavra. E então, todos os filhos de Deus se regozijarão (e não se afligirão) consigo; e particularmente.”


Amém?!

Sabe de quem partiu essa exortação pela vida de intelectualidade? O mesmo homem que falou assim: “Eu me coloco em chamas e o povo vem para me ver queimar”.

Sabe de mais um que sabia aliar perfeitamente a fé e a razão? Simplesmente um herói da fé chamado Charles Haddon Spurgeon.

O pastor batista lia quase um livro por dia, em média. Ele frequentemente confessava estar ciente de oito grupos (séries) de pensamentos identificáveis em sua mente ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo, era um homem que fluía no poder do Espírito Santo.

Um dia, para testar a acústica de um salão onde iria falar, Spurgeon falou em alta voz: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Um trabalhador nas vigas ouviu e foi convertido.

Repito: não precisamos escolher entre a intelectualidade e o fogo de Deus.

Por esse motivo, o teólogo norte-americano A.W. Tozer disse:


“Eu me recordo de um homem de Deus a quem foi perguntado: ‘O que é mais importante: ler a Palavra de Deus ou orar?’. Ele respondeu: ‘O que é mais importante para um pássaro, a asa da direita ou a da esquerda?’.”


Isto é, assim como ambas as asas são necessárias para um pássaro voar, tanto a fé quanto a razão são necessárias para um cristão caminhar.

Nesse mesmo sentido da alegoria das asas, o Papa João Paulo II dissertou na carta encíclica “Fides et Ratio” (1998):


“A fé e a razão (‘fides et ratio’) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio (cf. Ex 33, 18; Sal 2726, 8-9; 6362, 2-3; Jo 14, 8; 1 Jo 3, 2).”


Voltando um pouco na carta de John Wesley ao seu discípulo, perceba que, ainda que Wesley era um homem em chamas (seu apelido era “Tição Tirado do Fogo”), que simplesmente promoveu na Inglaterra um dos maiores avivamentos de todos os tempos, ele jamais “jogou nas costas” do Espírito Santo a responsabilidade de preparar um sermão rico - como se o Espírito Santo fosse possuí-lo e, mecanicamente (ou num passe de mágica), fazer o homem escrever um belo sermão.

O mais incrível ainda é que o mesmo Wesley reiterou: “Ponha fogo no seu sermão ou ponha seu sermão no fogo”.

Ou seja, para o metodista inglês, não havia disparidade entre a profundidade intelectual e o poder do Espírito.

Acerca dessa emblemática frase, o reverendo Hernandes Dias Lopes disserta:


“O sermão precisa ter luz e fogo. Precisa ser estribado na luz da verdade e ser aquecido pelo fogo do Espírito. Não basta pregar a verdade; é preciso pregar a verdade no poder do Espírito. Não basta proferir a palavra de Deus; é preciso ser boca de Deus.”


Em suma, é nosso dever suar a camisa a fim de preparar um sermão profundo teologicamente, rico em conhecimento; todavia, o fogo do Espírito é o que vai refinar e conduzir as palavras ao coração dos ouvintes.

O pastor e teólogo John Stott (que foi um dos mais influentes nomes na teologia e da fé evangélica do século XX, sendo que em 2005 foi indicado pela revista Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo), resume bem essa questão:


“A fé e o pensamento caminham juntos; e é impossível crer sem pensar.”


Deus nunca nos pediu para termos uma fé cega. O próprio Verbo que se fez carne tinha plena consciência do contexto político, social e econômico de sua época. Tanto é que as parábolas são justamente situações do cotidiano de Jesus e seus ouvintes, além do fato de que Ele jamais fugiu de nenhuma pergunta, seja qual fosse a temática: quando perguntado sobre impostos, Ele respondeu; quando indagaram acerca do domínio de Roma, Ele emitiu sua opinião; acerca de questões voltadas à Lei e à Torá, respondia também magistralmente.

Que possamos buscar o conhecimento, sempre. Afinal, meios não nos faltam. Há livros a preços acessíveis e um universo de bom conteúdo disponível gratuitamente na internet. Ademais, a maior parte das igrejas também oferecem escolas bíblicas e, ainda que não ofereçam, há outros momentos oportunos para aprender mais.

Que possamos buscar a face de Deus, a todo tempo. Dessa forma, nossa intelectualidade sempre será submetida aos Seus pés, e refinada pelo fogo do Espírito.

Lembre-se dessa frase:


LUZ NA MENTE, FOGO NO CORAÇÃO.



(Referências bibliográficas: https://m.facebook.com/hernandesdiaslopes/posts/632676003440128/?locale=pt_BR; http://www.monergismo.com/textos/chspurgeon/24_fatos_spurgeon.htm; https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_14091998_fides-et-ratio.html; https://www.ultimato.com.br/conteudo/john-stott-1921-2021-100-anos-vida-e-obra-de-um-discipulo-radical)


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