JESUS ERA POLÍTICO

Apesar de inúmeras (e contínuas) tentativas ao longo da História de efetuar uma equivalência do cristianismo com determinado espectro ideológico, não há uma congruência integral do arcabouço teológico-doutrinário cristão com um ponto de vista político em específico.

Em entrevista ao Hub Podcast, o mestre e ensaísta Davi Lago afirmou:


“Há valores cristãos e anticristãos em todo espectro ideológico. Esse é um erro básico: achar que só um espectro ideológico tem todos os erros.

(...) Então, é uma armadilha você abraçar exageradamente um lado. É uma questão de tentar sustentar a verdade de Deus onde quer que ela estiver. Você tem cristãos verdadeiros na origem de cada uma dessas linhas.”


Pode-se haver certa aproximação do conteúdo das Escrituras com determinada manifestação político-ideológica, tanto de maneira originária (na fundação de um partido ou concepção de uma ideologia, por exemplo) quanto de maneira esporádica (um partido que não se declara abertamente convergente aos valores cristãos pode manifestar uma linha de pensamento de acordo com o cristianismo em determinada temática).

Ao longo de oito volumes, o filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) dissertou acerca da política. Além de sua famosa afirmação de que “o homem é um animal político”, percebemos semanticamente que a palavra “política” é de origem grega: “ta politika”, proveniente de “polis”. “Polis” é a cidade entendida como a comunidade organizada, formada pelos cidadãos (“politikos”), isto é, pelos homens nascidos no solo da cidade, livres e iguais, portadores de dois direitos inquestionáveis: a isonomia, isto é, a igualdade perante a lei, e a isegoria, isto é, o direito de expor e discutir (numa relação de igualdade) opiniões sobre ações que a cidade deve ou não realizar.

Ou seja, “politiko” significa cidadão. Apesar da compreensão moderna de que “político” é sinônimo de um indivíduo que exerce a política como profissão, isto é, aquele que passou pelo processo eleitoral ou exerce a política de maneira técnica (em um ministério ou secretaria, por exemplo), a raiz da política na Grécia Antiga demonstra claramente que “politiko” é todo aquele que reside na “polis” e, logo, visa o bem-estar individual e coletivo.

Nesse sentido, tudo é política. O cidadão faz política na reunião da escola dos filhos, na reunião com o síndico do prédio ou em conversas com os demais moradores da sua rua para discutir o que é melhor para o bairro.

Inclusive, a Igreja também faz política, pois é um agente (ou “player”) político. No clássico literário “Moby Dick”, o autor Herman Melville escreve:


“Do púlpito saía uma saliência frontal, como projeção de obra ornamental, que imitava o exporão de uma nau, encimado por um anteparo de mesa. Que podia existir de mais significativo? – Pois o púlpito é sempre a parte mais adiantada da terra; tudo o mais vem depois dele: O púlpito conduz o mundo. Dele se divisa em primeiro lugar a tempestade da viva cólera de Deus, e a proa deve aguentar o primeiro impacto. Dele é que primeiro se clama por ventos favoráveis ao Deus das brisas propícias ou adversas. Sim, em sua travessia, e não viagem completa, o mundo é um navio; e o púlpito é a proa dele.”


Portanto, podemos concluir que é válida a sentença: Jesus Cristo era um político. Tal concepção torna-se clara quando compreendemos que Cristo não era político por exercer determinado cargo no Senado de Roma ou tomar partido dos saduceus (que representavam o partido judaico aristocrata dos sacerdotes e das classes ricas, na época subordinado aos romanos) ou dos zelotes (que eram contrários ao domínio de Roma), mas simplesmente por ser um cidadão judeu que expunha suas ideias (lembre-se: “politiko” significa cidadão).

Ele mesmo afirmou: 


“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”

(Mateus 22:21)


Acerca dessa conhecida passagem, a Bíblia King James traz a seguinte explicação:


“O dinheiro usado no Império Romano para pagar os impostos chamava-se ‘denário’. Uma moeda romana, cujo valor correspondia a um dia de trabalho braçal, criada no governo de Tibério, e que trazia, em um dos lados, o retrato do imperador, e do outro, a inscrição em latim: ‘Tibério César Augusto, filho do divino Augusto’.

Jesus explana sua tese de forma magistral e deixa todos atônitos diante de sua devoção ao Pai, sabedoria, simplicidade e coerência. Foi Deus quem deu a César poder e autoridade (Rm 13:1-7). Todos os governos deste mundo, em todas as épocas, vivem de tributos recolhidos do povo. Entretanto, o governo espiritual tem sua moeda própria e eterna: fé, amor, bondade, compaixão, misericórdia (Lc 20:20-25; Gl 5:22-26).

O Reino de Deus não é deste mundo. Seu ‘modus vivendi’ (estilo de vida) é espiritual e visa o benefício de todos os seres e não a exploração do homem pelo homem.

Jesus reconheceu a distinção entre responsabilidades políticas e espirituais. Ao governo devemos impostos e obediência, política justa. No tributo às autoridades cívicas, apenas retribuímos parte daquilo que oferecem. Para Deus, devemos nossa adoração, louvor, gratidão, obediência, serviço e dedicação de todo o nosso ser.”


Ademais, Jesus demonstrou responsabilidade cívica ao ordenar que o apóstolo Pedro tirasse uma moeda (estáter) da boca do peixe a fim de realizar o pagamento dos impostos (Mateus 17:24-27).

Algumas observações acerca dessa passagem:

1 – Um Estáter valia 4 dracmas. A moeda era portanto suficiente para pagar o imposto tanto de Jesus como o de Pedro.

2 – Havia alguns peixes do mar da Galiléia cuja boca era grande o suficiente para engolir um estáter; o nome científico desses peixes hoje é Chromis simonis (assim chamado em homenagem a Simão Pedro).

Ao externar essa disposição em cumprir com as responsabilidades cívicas, Jesus Cristo evidenciou a perfeita união hipostático, ou seja, a plena convivência entre a natureza humana e a natureza divina em Sua pessoa. Afinal, como homem Ele não se eximiu de exercer aquilo que era Seu dever enquanto cidadão da “polis”. Enquanto Deus, Ele ratificou o que o apóstolo Paulo viria a escrever na sua carta aos Romanos: “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se opondo contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos” (13:1-2).

Ser político é ser cidadão. E isso independe de posicionamento partidário ou de gostar ou não do tema. É como disse Platão (428 a.C.-347 a.C.), o mestre de Aristóteles: “Não há nada de errado com aqueles que não gostam de políticas, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”.



(Referências bibliográficas: Vídeo Davi Lago no Hub Podcast [https://m.youtube.com/watch?v=CcuYMt00tag]; Bíblia King James Atualizada; Brother Bíblia Arte; https://www.pastorjoaodesouza.com.br/123/?p=1018; https://brainly.com.br/tarefa/18301180)


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