TEMPO DE DEUS
Muitas vezes, imputamos a Deus características tipicamente humanas (“antropologizamos” o Senhor). Ao invés de nós sermos imagem e semelhança dEle, fazemos Ele a nossa imagem e semelhança.
Um claro exemplo disso é que sempre achamos que Deus está “demorando demais”. Como Pedro e os discípulos dormiram no Getsêmani enquanto Jesus orava, não temos paciência e persistência de esperar por Cristo.
Por isso, o teólogo norte-americano A.W. Tozer afirma:
Um claro exemplo disso é que sempre achamos que Deus está “demorando demais”. Como Pedro e os discípulos dormiram no Getsêmani enquanto Jesus orava, não temos paciência e persistência de esperar por Cristo.
Por isso, o teólogo norte-americano A.W. Tozer afirma:
“Deus não se curvou à nossa pressa nervosa, nem adotou os métodos de nossa era mecânica. O homem que deseja conhecer a Deus precisa dedicar-lhe tempo.”
Antigamente, tínhamos que ficar pendurados esperando a internet discada resolver funcionar. Hoje, basta um clique.
Está com fome e tem pressa? O miojo está aí pra isso.
Enfim, nos acostumamos com a instantaneidade.
Mas Deus não se curvou a isso. Ele é o Soberano do Universo, portanto é Ele quem dita as regras.
Tudo se cumpre no tempo de Deus.
Vamos relembrar o sonho que o Senhor deu a José:
“‘Estávamos amarrando os feixes de trigo no campo, quando o meu feixe se levantou e ficou em pé, e os seus feixes se ajuntaram ao redor do meu e se curvaram diante dele.’
Seus irmãos lhe disseram: ‘Então você vai reinar sobre nós? Quer dizer que você vai nos governar?’ E o odiaram ainda mais, por causa do sonho e do que tinha dito.
Depois teve outro sonho e o contou aos seus irmãos: ‘Tive outro sonho, e desta vez o sol, a lua e onze estrelas se curvavam diante de mim’.”
(Gênesis 37:7-9)
Deus mostrou a José através de sonho o que já era uma realidade. Sim, apesar de ainda não ter acontecido, já era uma realidade.
Afinal, enquanto nós enxergamos o tempo como uma espiral (ou seja, só conseguimos enxergar o momento presente), Deus enxerga o tempo como uma linha reta. Ele vê a nossa vida como uma linha, desde o nosso nascimento até a nossa morte. Portanto, algo que pra nós ainda não aconteceu - por não enxergarmos ainda - já é realidade pra Deus.
Um claro exemplo disso é o livro de Apocalipse. Os eventos escatológicos ainda não foram consumados. Todavia, Jesus mostrou ao apóstolo João o que já era uma realidade. Não aconteceu pra nós ainda, mas é real e vai acontecer. Billy Graham entendeu esse quesito e disse: “Eu li a última página da Bíblia. Tudo vai acabar bem”. Ou seja, ele sabe que tudo vai acabar bem porque o que está escrito nas Escrituras, ainda que não se cumpriu na totalidade, é real.
Voltando à história de José. Deus mostrou a ele algo que seria realidade na sua vida, mas muito tempo se passou até tudo se cumprir.
Pra você ter ideia, foi apenas depois de doze anos na prisão que José interpretou os sonhos do Faraó do Egito e se tornou o vice-rei do país, controlando toda a fortuna da época. Doze anos!
Ou seja, desde o sonho até o cumprimento dele, anos se passaram.
O que eu quero dizer com isso? É simples: não é porque Deus te mostrou algo (através de sonho, visão, revelação, na Palavra, através de uma pessoa ou situação, etc) que isso vai se cumprir num estalar de dedos. Tudo é no tempo dEle.
Para entender melhor este conceito do tempo de Deus, e como podemos aplicar suas promessas na nossa vida, seria útil examinar duas palavras gregas: “kairós” e “chronos”. Assim como a distinção entre as palavras gregas (“ágape”, “phileo” e “eros”) ajuda a compreender melhor o conceito de “amor”, estas duas palavras nos ajudarão a ver dois aspectos de “tempo” no plano de Deus.
A palavra “chronos” significa um espaço de tempo ou intervalo, e às vezes é usada para dar a idéia de “demora”. Em contraste, “kairós” significa uma ocasião especial, um tempo determinado, ou uma oportunidade. Encontramos “chronos” em textos como Lucas 20.9 (o dono da vinha ausentou-se do país por muito tempo), João 5.6 (o paralítico que estivera doente havia muito tempo), Atos 8.11 (Simão, o mágico, desde muito tempo iludira os samaritanos com suas artes) e Atos 13.18 (Deus suportou os costumes do povo de Israel no deserto por espaço de quarenta anos).
Em Atos 17.26-30, podemos ver o contraste dos dois termos. No versículo 26, diz que Deus fez todas as nações para habitarem sobre a Terra, determinando-lhes os tempos (“kairós”) já dantes ordenados. No meio de todo o espaço de tempo que vai passando, existem na história da humanidade como um todo momentos específicos que Deus já predeterminou como épocas especiais, épocas de mudanças, épocas que abrem novas etapas no desenvolvimento do seu plano na Terra. Este é o significado de “kairós”: é um momento decisivo, uma ocasião especial, em que grandes coisas podem acontecer.
Já no versículo 30 do mesmo capítulo, lemos que Deus não levou em conta os tempos (“chronos”) de ignorância, em que os povos não conheciam a verdade. Esta é a idéia de “chronos”: espaços indeterminados e prolongados de tempo, em que nada de especial ou importante está acontecendo. São os séculos de ignorância antes da vinda de Cristo, os séculos de escravidão no Egito, os períodos de silêncio e apostasia na história, as décadas de andanças sem rumo no deserto, os anos de espera do paralítico à beira do tanque de Betesda, e tantos e tantos períodos na nossa vida em que as promessas de Deus parecem estar longes e inalcançáveis.
Por outro lado, “kairós” representa aquele momento emocionante quando tudo muda, quando Deus se levanta, e dá ordens que transformam o estagnado em movimento, e que fazem nascer um novo dia e uma nova situação. Isto ocorre na história, como vimos na passagem de Atos 17 citada acima, e que foi exemplificado na época dos descobrimentos na virada do século XV e de eventos históricos marcantes. Mas ocorre especialmente dentro do plano de Deus, conforme visto na Bíblia.
Josué 1 foi um destes momentos “kairós” no plano de Deus. Moisés completara sua missão, a velha geração incrédula havia morrido, e a hora finalmente estava chegando para entrar na terra. Outro momento foi quando Jesus começou seu ministério anunciando o maior “kairós” de todos os tempos (até então), dizendo que o tempo (“kairós”) estava cumprido, e que o Reino estava chegando (Mc 1.15). Quantos séculos Deus não havia aguardado em paciência até que chegasse a “plenitude dos tempos”?
Uma outra explicação plausível: Kairós é uma palavra de origem grega, que significa “momento certo” ou “oportuno”, relativo a uma antiga noção que os gregos tinham do tempo.
A noção de tempo representada pelo termo “kairós” teria surgido a partir de um personagem da mitologia grega. Kairós era filho de Cronos, deus do tempo e das estações, e que, ao contrário de seu pai, expressava uma ideia considerada metafórica do tempo.
Para Kairós o tempo era não-linear e que não se pode determinar ou medir, uma oportunidade ou mesmo a ocasião certa para determinada coisa.
Pode-se entender que o chamado “kairós” é um momento oportuno único, que pode estar presente no espaço de um tempo físico, determinado por Cronos, segundo a mitologia grega. Em outras palavras, “kairós” seria o período ideal para a realização de uma coisa específica, que pode ser um objeto, processo ou contexto.
No âmbito religioso, a palavra “kairós” é utilizada no sentido de “tempo espiritual” ou “o tempo de Deus”, que diverge do conceito cronológico de tempo terrestre, ou seja, as horas, os dias, os anos e etc.
O chamado “kairós de Deus” não pode ser medido, pois, de acordo com uma das passagens da Bíblia Cristã: “(...) um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8).
Para a filosofia grega, “kairós” simbolizava a ideia de tempo momentâneo, uma oportunidade ou um período específico para a realização de determinada atividade, por exemplo. “Kairós” não era entendido como um tempo cronológico, mas sim como um momento no presente ideal para algo.
Já o conceito de “cronos” está relacionado com a ideia de tempo cronológico e físico, como as horas, os minutos, os dias e etc.
Para a Igreja cristã, os termos “kairós” e “cronos” são antagônicos no sentido de um significar o “tempo de Deus” (kairós) e o outro o “tempo dos humanos” (cronos).
Por vezes temos uma mentalidade “hollywoodiana” no sentido de que os homens a quem Deus realizou promessas específicas possuem uma linearidade de acontecimentos fantásticos durante sua vida, e desde a mais tenra infância, tudo já apontava para o que eles haveriam de ser. Um exemplo disso são os relatos não-canônicos de que Jesus, ainda menino, ressuscitou um passarinho. Isto é, o intuito é demonstrar que os escolhidos já são fantásticos desde o berço. Todavia, não é bem assim que funciona, conforme a História nos registra.
John Wesley, por exemplo, era chamado de “O Tição Tirado do Fogo”. Vejamos um pouco de sua história:
“O céu, à meia-noite, era iluminado pelo reflexo sombrio das chamas que devoravam vorazmente a casa do pastor Samuel Wesley. Na rua, ouviam-se os gritos: ‘Fogo! Fogo!’ Contudo, a família do pastor continuava a dormir tranquilamente, até que os escombros ardentes caíram sobre a cama de uma filha, Hetty. A menina acordou sobressaltada e correu para o quarto do pai. Sem poder salvar coisa alguma das chamas, a família foi obrigada a sair casa a fora, vestindo apenas as roupas de dormir, numa temperatura gélida.
A ama, ao ser despertada pelo alarme, arrebatou a criança menor, Carlos, do berço. Chamou os outros meninos, insistindo que a seguissem, desceu a escada; porém, John, que então contava cinco anos e meio, ficou dormindo.
Três vezes a mãe, Susana Wesley, que se achava doente, tentou, debalde, subir a escada. Duas vezes o pai tentou, em vão, passar pelo meio das chamas, correndo. Sentindo o perigo, ajuntou a família no jardim, onde todos caíram de joelhos e suplicaram a favor da criança presa pelo fogo.
Enquanto a família orava, John acordou e, depois de tentar descer pela escada, subiu numa mala que estava em frente a uma janela, onde um vizinho o viu em pé. O vizinho chamou outras pessoas e conceberam o plano de um deles subir nos ombros de um primeiro enquanto um terceiro subia nos ombros do segundo, e alcançaram a criança. Dessa maneira, João foi salvo da casa em chamas, apenas instantes antes de o teto cair com grande fragor.
O menino foi levado, pelos intrépidos homens que o salvaram, para os braços do pai. ‘Cheguem, amigos!’, clamou Samuel Wesley, ao receber o filhinho, ‘ajoelhemo-nos e agradecemos a Deus! Ele me restituiu todos os meus filhos; deixem a casa arder; os meus recursos são suficientes’. Quinze minutos depois, casa, livros, documentos e mobiliários, não existiam mais.
Anos depois, em certa publicação, apareceu o retrato de John Wesley e embaixo a representação de uma casa ardendo, com as palavras: ‘Não é este um tição tirado do fogo?’ (Zacarias 3.2).
Encontra-se nos escritos de Wesley, a seguinte referência interessante, desse histórico sinistro: ‘Em 9 de fevereiro de 1750, durante um culto de vigília, cerca das onze horas da noite, lembrei-me de que era esse o dia e a hora, havia quarenta anos, em que me tiraram das chamas. Aproveitei-me do ensejo para relatar a maravilhosa providência. Os louvores e as ações de graças subiram às alturas e grande foi o regozijo perante o Senhor’. Tanto o povo, como John Wesley, já sabiam naquele tempo porque o Senhor o poupara do incêndio.
O historiador Lecky, nomeia o Grande Avivamento como sendo a influência que salvou a Inglaterra de uma revolução, igual a que, na mesma época, deixou a França em ruínas. Dos quatro vultos que se destacaram no Grande Avivamento, John Wesley era o maior. Jonathan Edwards, que nasceu no mesmo ano de Wesley, faleceu trinta e três anos antes dele; George Whitefield, nascido onze anos depois de Wesley, faleceu vinte anos antes dele; e Charles Wesley continuou o seu itinerário efetivo somente dezoito anos, enquanto John continuou durante meio século.”
(BOYER, Orlando. Heróis da Fé)
Incrível, não? Eu também admiro muito John Wesley. Sem dúvidas, ele é um herói da fé.
Contudo, sua vida não foi uma linha reta de acontecimentos fantásticos.
No mesmo navio, “Simmonds”, em que John Wesley e seus companheiros viajaram para Georgia, 25 morávios sob a liderança do bispo Davi Nietchmann, também se dirigiam para o novo mundo. Wesley mal havia se instalado no seu camarote quando decidiu aprender o alemão para poder se comunicar com essa gente. Apenas três dias após o embarque, ele se referiu, em seu diário, aos morávios como “pessoas que deixaram tudo pelo Mestre, e que têm realmente aprendido dele, sendo mansos e humildes, mortos para o mundo, cheios de fé e do Espírito Santo”.
Diversos eventos durante a viagem confirmaram para ele a primeira impressão. Eles faziam, aparentemente com alegria, tarefas tidas como as mais humildes, dizendo que “fazia bem aos seus corações altivos”. Mas foi numa tempestade feroz, que aterrorizou os passageiros ingleses e até os tripulantes, que Wesley notou a grande coragem dos alemães. Mesmo no auge da tempestade, continuaram seu culto costumeiro, nem parando de cantar, apesar de tudo indicar que o navio não fosse aguentar a força do mar em revolta.
Após o culto, Wesley perguntou a um deles se não havia ficado com medo. Ele respondeu singelamente: “Graças a Deus, não”. Não inteiramente satisfeito, Wesley indagou sobre as mulheres e crianças. A resposta veio: “Não, nossas mulheres e crianças não têm medo de morrer”.
Mais tarde, quando chegaram à terra firme, o pregador Morávio, Spangenberg, perguntou a John:
“Você conhece Jesus Cristo?” Esta pergunta perturbou-o durante os dois anos seguintes.
De regresso a Inglaterra, John Wesley procurou o pregador Morávio, Peter Böhler, que lhe deu o célebre conselho: “Pregue a fé até conseguir tê-la; e depois, porque já a tem, pregará a fé”.
Meu irmão, minha irmã... você leu bem? John Wesley teve uma crise de fé durante dois anos! Outros cristãos chegaram a indagá-lo se ele era realmente um discípulo de Cristo. Sim, John Wesley!
Sabemos que o inglês mudou o mundo queimando por Jesus. O avivamento cujo expoente foi ele, de fato, ficou registrado na História.
A promessa de Deus que estava sobre a vida de Wesley desde a infância - “Tição Tirado do Fogo” - veio a se cumprir, mas depois de um longo processo de aprendizado, depois de, como diz o ditado, “trancos e barrancos”, e não de maneira fabulosa e linear.
Por acaso algo de errado aconteceu? Deus demorou? Depende da ótica: se você olhar pela ótica do “chronos”, sempre vai achar que demorou ou que algo deu errado no percurso; se olhar pelo “kairós”, vai concordar que tudo ocorreu de maneira perfeita, no tempo certo.
A história do apóstolo Pedro também não se difere muito desse aspecto. Vejamos o que Jesus falou pra ele:
“Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus.
Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;
E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.”
(Mateus 16:17-19)
Nossa! Olhando assim, parece que depois dessa promessa/revelação, a vida de Pedro foi só alegria, sucesso total, nadou de braçada!
Só que não...
Sabemos que Pedro negou a Jesus, ficou tão ressentido e desaminado que voltou a pescar, até ser curado e comissionado novamente pelo próprio Cristo.
No livro de Atos, já vemos outro Pedro. Um Pedro cuja sombra curava, que fazia o coxo voltou a andar, que pregava e milhares de almas se convertiam a Cristo. E, no ano 67 d.C., tudo foi consumado com o seu martírio.
Ou seja, a promessa de Jesus pra Pedro se cumpriu, mas não de maneira linear como esperaríamos no “chronos”, mas no tempo perfeito conforme o “kairós”.
O pastor Gustavo Paiva tem uma frase belíssima: “Deus não está preparando uma promessa para você, Ele está te preparando para a promessa”.
Deus não está preparando os tempos, Deus está preparando você para viver os tempos que já foram predeterminados.
A Bíblia diz que o Cordeiro foi imolado desde a fundação do mundo (Apocalipse 13:8).
Em suma, Deus não tem uma ideia brilhante e começa a preparar ela a partir daquele momento. Ele é o Alfa e o Ômega, o início e o fim. Ele enxerga a História como uma linha reta. Ele sabe tudo o que vai acontecer. Portanto, quando Ele revela uma promessa, Ele não está preparando a promessa, porque a promessa já está pronta! Ele está pavimentando o caminho, nos preparando para viver a promessa.
Compreenda o tempo de Deus, porque ele é perfeito!
(Referências bibliográficas: https://www.revistaimpacto.com.br/biblioteca/ultima-palavra-o-tempo-de-deus-kairos-e-chronos/; https://www.google.com.br/amp/s/www.significados.com.br/kairos/amp/; https://www.jesusnosama.com.br/pensamentos/pensamento123.htm)
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