ECLESIOLOGIA
Em tempos de internet e mídias sociais, o papel da Igreja entrou no cerne do debate teológico.
“Do púlpito saía uma saliência frontal, como projeção de obra ornamental, que imitava o exporão de uma nau, encimado por um anteparo de mesa. Que podia existir de mais significativo? – Pois o púlpito é sempre a parte mais adiantada da terra; tudo o mais vem depois dele: O púlpito conduz o mundo. Dele se divisa em primeiro lugar a tempestade da viva cólera de Deus, e a proa deve aguentar o primeiro impacto. Dele é que primeiro se clama por ventos favoráveis ao Deus das brisas propícias ou adversas. Sim, em sua travessia, e não viagem completa, o mundo é um navio; e o púlpito é a proa dele.”
A pandemia do coronavírus potencializou tal questão de maneira estratosférica. Afinal, tornou-se quase que uma obrigatoriedade as celebrações religiosas de maneira remota (online), o que levantou uma série de questionamentos.
Qual o papel da Igreja? Esta instituição continua sendo necessária para a vivência da fé? Há diferenças no âmbito teológico se as reuniões são presenciais ou à distância (seja em período pandêmico ou não)?
Primeiramente, vejamos em Gênesis, no início de tudo, o início também do conceito de Igreja:
Qual o papel da Igreja? Esta instituição continua sendo necessária para a vivência da fé? Há diferenças no âmbito teológico se as reuniões são presenciais ou à distância (seja em período pandêmico ou não)?
Primeiramente, vejamos em Gênesis, no início de tudo, o início também do conceito de Igreja:
“E Deus Todo-Poderoso te abençoe, e te faça frutificar, e te multiplique, para que sejas uma multidão de povos.”
(Gênesis 28:3)
No livro “Jesus: Pai de Família”, Alessandro Vilas Boas disserta (págs. 91 e 92):
“A expressão ‘multidão de povos’ é, no original hebraico, ‘qahal’. O Dicionário Strong explica seu significado:
1 – assembleia, companhia, congregação, convocação 1a – assembleia 1a1 – para mau conselho, guerra ou invasão, propósitos religiosos 1b – companhia (de exilados que retornavam) 1c – congregação 1c1 – como um corpo organizado
1 – assembleia, companhia, congregação, convocação 1a – assembleia 1a1 – para mau conselho, guerra ou invasão, propósitos religiosos 1b – companhia (de exilados que retornavam) 1c – congregação 1c1 – como um corpo organizado
Strong também mostra que, em uma raiz primitiva, o termo carregava o sentido de reunir, juntar, tanto por razões religiosas quanto políticas. Era usado para convocar uma assembleia de guerra e julgamento, ou uma assembleia de fins religiosos. Mais uma vez, vê-se o plano eterno em curso: de Abraão, Deus faria nascer ‘qahal’.”
Já no Novo Testamento, a primeira vez que a palavra “igreja aparece é num diálogo entre Jesus e o apóstolo Pedro:
“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;
E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.
Então mandou aos seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era Jesus o Cristo.”
(Mateus 16:18-20)
É notável observar que Jesus não inventou a palavra “ekklesia”, conforme o original grego par designar a Igreja.
A Eclésia (em grego: Εκκλησία; transl.: ekklesia) era a principal assembleia da democracia ateniense na Grécia Antiga. Era uma assembleia popular, aberta a todos os cidadãos do sexo masculino, com mais de dezoito anos que tivessem prestado pelo menos dois anos de serviço militar e que fossem filhos de um pai natural da pólis (a partir do ano de 452 a.C. também a mãe o teria de ser). Atuava no âmbito da política externa e detinha poderes de governação relativos à legislação, judiciais e executivos, como por exemplo, decidindo a destituição de magistrados. Também fiscalizava todos aqueles que cargos de poder, de modo a que não abusassem do mesmo e desempenhassem as suas incumbências o melhor possível.
Ou seja, quando Jesus estabeleceu Sua Igreja, o paralelo com a “ekklesia” foi proposital: assim como a “ekklesia” dos gregos tinha como papel definir os rumos da sociedade, a “ekklesia” de Cristo também deve ser sal da terra e luz do mundo.
No romance “Moby Dick”, o autor Herman Melville escreve:
“O púlpito conduz o mundo”. Belo, não?
Por isso, a Igreja deve se atentar. Estamos respondendo as questões propostas pelo mundo?
O Papa João XXIII afirmou, na época do Concílio Vaticano II:
“Desejo abrir as janelas da Igreja para que possamos ver o que está acontecendo lá fora e para que o mundo possa ver o que está acontecendo aqui dentro.”
Agora, faz-se necessário discernir entre a Igreja enquanto instituição e a Igreja chamada pela Bíblia de “Noiva de Cristo” (que recebe adjetivos como “pura” e “imaculada”).
Durante as invasões napoleônicas, o exército francês invadiu país atrás de país pela Europa fora. Uma vez que a Igreja Católica era vista como uma ameaça, Napoleão Bonaparte disse ao Cardeal Ercole Consalvi, secretário de Estado do Papa Pio VII:
- Vou destruir a sua Igreja!
O Cardeal respondeu:
- Não vai conseguir!
O Imperador insistiu:
- Vou destruir a sua Igreja!!
E o Cardeal explicou:
- Não é possível porque nem nós conseguimos fazê-lo. Se milhares de pecadores não a conseguiram destruir de dentro, como é que a vai destruir de fora?
Sem dúvidas, há um cuidado de Deus para com sua Igreja. O Cristianismo perdura há 2.000 anos, de maneira institucional. E, como relatado na História, superando perseguições políticas e afins. Por que? Teologicamente, conforme já mencionado, Cristo fez uma promessa de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Sua Noiva (cf. Mateus 16:18).
Esse detalhe da imperfeição da Igreja enquanto instituição é reconhecida pelos próprios fiéis. Ora, a Igreja não é formada por tijolos e cimento, mas sim por pessoas. E a própria palavra chama essas pessoas de falhas:
- Não vai conseguir!
O Imperador insistiu:
- Vou destruir a sua Igreja!!
E o Cardeal explicou:
- Não é possível porque nem nós conseguimos fazê-lo. Se milhares de pecadores não a conseguiram destruir de dentro, como é que a vai destruir de fora?
Sem dúvidas, há um cuidado de Deus para com sua Igreja. O Cristianismo perdura há 2.000 anos, de maneira institucional. E, como relatado na História, superando perseguições políticas e afins. Por que? Teologicamente, conforme já mencionado, Cristo fez uma promessa de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Sua Noiva (cf. Mateus 16:18).
Esse detalhe da imperfeição da Igreja enquanto instituição é reconhecida pelos próprios fiéis. Ora, a Igreja não é formada por tijolos e cimento, mas sim por pessoas. E a própria palavra chama essas pessoas de falhas:
“Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer.
Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus.
Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.”
Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus.
Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.”
(Romanos 3:10-12)
Portanto, não espera-se que haja perfeição da Igreja como instituição, pois tampouco o próprio Deus o intenta.
Contudo, estes que perseveram na santificação mediante a justificação são os que fazem parte da Noiva de Cristo.
Aliás, essa necessidade de contínua santificação é resumida no difundido lema protestante: “ECCLESIA REFORMATA ET SEMPER REFORMANDA EST”.
Essa famosa frase do reformado holandês Gisbertus Voetius (1589-1676) resume bem o espírito da Reforma: “Igreja reformada está sempre se reformando”. A mudança tencionada pela Reforma é andarmos para frente, enquanto andamos para trás.
Utilizando um exemplo bíblico e bem simples: imagina o estado da arca de Noé, com centenas de animais a bordo mais sua família, durante quarenta dias e quarenta noites (cf. Gênesis 7:11-13)! No português claro, o odor certamente estava forte, tanto por causa das necessidades fisiológicas de todos (animais e humanos) quanto por não ter uma ducha pra todo mundo tomar banho, não é mesmo?
Porém, dentro da arca havia suporte; fora dela, nas águas do dilúvio, perdição.
Contudo, que nos atentemos para um ponto fundamental: isso não significa afirmar que a Igreja exerce papel salvífico (pois iria contra o princípio bíblico do Sola Fidae).
“Sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. Deus o ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. Onde está, então, o motivo de vanglória? É excluído. Baseado em que princípio? No da obediência à Lei? Não, mas no princípio da fé. Pois sustentamos que o homem é justificado pela fé, independente da obediência à Lei.”
(Romanos 3:24-28)
Nada que façamos pode nos salvar. Por que? Para que não nos vangloriemos, conforme diz o apóstolo. Para que ninguém chegue diante do Senhor e fale: “Sou salvo porque eu ia em todos os cultos, eventos, vigílias e congressos da igreja!”
Isso significa que não devemos frequentar a igreja? Claro que não. Porém, devemos fazê-lo pelo motivo certo.
“Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia.”
(Hebreus 10:25)
Comunhão, edificação, suporte, fortalecimento mútuo, são alguns dos benefícios de se congregar.
A plena vivência da fé ocorre com a vivência da igreja.
Ser cristão e não congregar em uma igreja é como ausentar determinado alimento de sua dieta (sem colocar outro com o mesmo índice nutricional no lugar). Seu corpo sentirá falta daquele nutriente, certamente.
Aliás, se a Bíblia nos chama de “corpo de Cristo” (Romanos 12:5), enquanto Ele próprio é a cabeça, como membros desse corpo funcionarão de outro modo senão o integrado? Por ventura você já viu um braço andar por aí sozinho?
Nesse sentido, o Rev. Augustus Nicodemus ressalta:
“Quando a Bíblia se refere à Igreja, se refere ao ‘corpo de Cristo’. Um corpo não tem só um membro. Um corpo não é feito somente de um olho, de uma orelha, de um nariz, ou de um braço, de uma perna ou de um dedo, mas de um conjunto de membros que juntos formam um corpo.”
Lembro-me de assistir um documentário no Animal Planet sobre os porcos-espinhos. No inverno, eles ficam bem juntos um do outro, a fim de se protegerem do frio. Todavia, há um efeito colateral: devido à proximidade necessária, os espinhos de um fincavam na carne do outro. Porém, era preciso suportar para que sobrevivessem.
Não conheço nenhum grupo de pessoas (família, time de futebol, ambiente de trabalho, faculdade, etc) que jamais tenha tido algum embate e desgaste. Ora, é típico do ser humano. Há várias visões de mundo convivendo entre si, então é natural que, em dado momento, haja determinada “faísca”.
Com a Igreja não é diferente. Há pessoas, que não estão ali porque se acham melhores do que as outras, mas justamente o contrário: reconhecem que necessitam de um Salvador.
Entretanto, o diferencial da Igreja é superar os momentos de adversidade. Quando houver embate, o ponto de convergência deve ser procurado de imediato. Na dissensão, a reconciliação deve ser urgente. E, para qualquer aspecto, o ímpeto tanto de pedir perdão quanto o de perdoar devem ser primazia.
Finalmente, as questões elencadas na introdução deste artigo são devidamente respondidas:
1 – Qual o papel da Igreja?
Opinião: Viver família, conforme o plano eterno de Deus. E, assim como toda família, há eventuais divergências. Porém, calcados no Evangelho, estas devem ser superadas, para que a Noiva de Cristo seja evidenciada.
2 – Esta instituição continua sendo necessária para a vivência da fé?
Opinião: a Igreja é um plano eterno de Deus, conforme vemos em Gênesis. Portanto, ela não apenas continua sendo necessária, mas perpetuará por toda a eternidade.
3 – Há diferenças no âmbito teológico se as reuniões são presenciais ou à distância (seja em período pandêmico ou não)?
Opinião: Há diferenças cruciais, pois o convívio presencial, em qualquer aspecto, é sempre mais caloroso, íntimo do que o contato remoto.
Faça parte da Igreja!
(Referências bibliográficas: http://senzapagare.blogspot.com/2013/08/napoleao-e-o-cardeal-ercole-consalvi.html?m=1; https://m.youtube.com/watch?v=u39kGAYGHUU; http://mpap.mp.br/eclesia/index.php?pg=o_que_e_eclesia; https://www.pastorjoaodesouza.com.br/123/?p=1018; https://www.terra.com.br/noticias/mundo/europa/renuncia-do-papa/conheca-joao-xxiii-o-papa-bom-ou-pai-da-igreja-moderna,e16618129e5af310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html)
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Uma surra de conhecimento.
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