O CRISTÃO E A POLÍTICA

“Por que o cristão deve ter interesse em política? Primeiro porque a Bíblia fala muito sobre política. O que a gente mais tem na Bíblia são histórias ligadas a reis, príncipes, campanhas militares, o Antigo Testamento todo é carregado dessas histórias. Nós temos conspirações palacianas no Antigo Testamento, nós temos tensões entre a nobreza e o povo no Antigo Testamento. No Novo Testamento nós temos um império que reina sobre todo o mundo antigo, nós temos Israel (ou Judá) como uma província desse império. O Novo Testamento registra as tensões entre os habitantes da província e os poderes imperiais. A Bíblia retrata, especialmente no Novo Testamento, coletores de impostos, tropas militares, dinheiro.

Então, a Bíblia é dada num contexto eminentemente político. Deus retrata a si mesmo como Rei. Ele retrata o seu projeto como um projeto do Reino, isto é, Ele com poder vai implantar uma nova era quando Cristo voltar em glória. Então, toda a Sagrada Escritura, tanto no Antigo como no Novo Testamento, fala bastante dessas tensões políticas. Então, o cristão, especialmente o jovem num tempo como o nosso, ele precisa ter alguma noção do que a Bíblia fala sobre política.

Por exemplo, quando a gente lê em 1 Samuel quando os representantes das tribos de Israel se dirigem a Samuel e dizem a ele que eles querem um rei de outra nação, e Deus concede esse rei, o que significa isso dentro da Teologia Bíblica? O que significa Deus conceder um rei que precisa ser ungido pelos representantes das doze tribos enquanto em outras nações o rei era confundido com o divino? Quer dizer, o jovem cristão precisa ler a Bíblia também por essa ótica tentando entender o que a Bíblia fala sobre as relações de poder, as relações políticas no tempo do Antigo e Novo Testamento e também fazer uma transição para o nosso tempo.

Por exemplo, é curioso que no século XVI, com Reforma Protestante, os reformadores não pensaram apenas em questões eclesiásticas, em questões ligadas à salvação da alma. Eles também pensaram numa reorganização política. Então, via de regra, tem sido sugerido que grande parte do impulso democrático (especialmente o republicano) no Ocidente, se deu a partir da tradição da Reforma. Por exemplo, os debates ligados ao federalismo e ao constitucionalismo são debates oriundos do campo protestante (homens como Johannes Althusius, Samuel Rutherford, entre outros escritores escoceses, holandeses, alemães e franceses tentando pensar essas questões e tentando relacionar especialmente a visão pactual/federalista do Antigo Testamento com as questões bíblicas da atualidade). Quando a gente passa pra Revolução Americana, uma das grandes revoluções do Ocidente, por que ela é uma revolução diferente da Revolução Francesa que é eminentemente iluminista? É porque aqueles que lideraram a Revolução Americana era gente ligada às igrejas protestantes, especialmente presbiterianas e congregacionais. Eles trouxeram muito a sua pré-compreensão teológica pros debates políticos. Por isso que os estudiosos de política notam uma aparente contradição entre a Declaração de Independência americana e a Constituição americana. A Declaração de Independência foi preparada por Benjamin Franklin, alguém embebido nos ideais franceses de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, nos ideias iluministas da Revolução Francesa. Então, ainda que ela fale de Deus no seu preâmbulo, ela é eminentemente iluminista, o que coloca ela numa tensão com a Constituição americana que é calcada numa visão pactual da sociedade, numa visão federalista da sociedade, e essas ideias são oriundas de um homem chamado John Witherspoon, que era naquela altura o reitor do Colégio Nova Jersey (a futura Universidade de Princeton), ministro presbiteriano, que trouxe pros debates constitucionais todo o seu pano de fundo presbiteral. O brasileiro olha pro sistema de voto americano, um sistema representativo, e não entende. Por que? Porque nós não entendemos esse sistema de governo presbiteral, que acabou entrando dentro da estrutura política americana.

Então, não só a Bíblia fala de política, mas os pais fundadores da tradição protestante ouviram muito que a Bíblia fala de política, e trouxeram isso pra dentro da sua relação com a sociedade. É curioso que muitos pastores presbiterianos e congregacionais serviram as tropas do exército continental (exército de George Washington), e havia um regimento chamado Regimento Negro por conta da quantidade de presbíteros e pastores (presbiterianos e congregacionais) que serviram naquele regimento. Então, por causa da toga de neblina que era usada nas igrejas americanas da época, aquele que foi caracterizado como Regimento Negro por causa do grande número de presbiterianos, congregacionais e também batistas servindo naquele regimento.

Já no século XX, a gente tem uma grande revolução que é a queda do comunismo na Alemanha que foi capitaneada por evangélicos, por um homem chamado Christopher Fuhrer. Ele era pastor da Igreja de São Nicolau em Leipzig, e durante dez anos mais ou menos eles gastaram toda segunda-feira orando para que Deus derrubasse o comunismo. Na Romênia, se destacou o pastor László Tõkés, que começou a pregar em Amós, tratando a questão de justiça social, a necessidade de haver um governo justo (num país comunista onde se faltava pão, se faltava produtos básicos de subsistência), ele começou uma revolução. A revolução acabou terminando num banho de sangue. Nicolae Ceausescu, talvez o pior dos ditadores socialistas, acabou executado literalmente no paredão (por ironia, ele que mandou tanta gente pro paredão, acabou indo pro paredão). Mas a queda do comunismo na Romênia, o país mais fechado do bloco socialista, se deu a partir da pregação do László Tõkés em Timisoara (fronteira da Romênia com a Hungria).

Então, o cristão tem que estar envolvido com a política. Ele tem que entender e a gente pode fazer uma distinção entre uma visão política e uma visão partidária. O cristão pode até ser apartidário, (...) mas ele tem que estar envolvido com os embates políticos do nosso tempo, ele tem que ter o discernimento pra entender aquilo que pode ser recebido no nosso meio porque de alguma medida espelha verdades que Deus gravou na Bíblia e aquilo que é uma tentativa de colocar o Estado ou partido no lugar de Deus, e tem que ser rejeitado isso como idolatria, idolatria grosseira.

Então, o cristão precisa estar inteirado do que a Bíblia fala sobre política (e a Bíblia fala bastante sobre a questão política: reis, rainhas, tensões militares, tensões sociais, tensões políticas), e como trazer isso pros debates presentes no nosso país hoje, no começo do século XXI.”

(FERREIRA, Franklin. Vídeo “O Cristão e a Política”)


A narrativa bíblica se passa dentro de um contexto político. Desde o Gênesis, no qual há a história de José, governador do Egito, até o livro de Apocalipse, cujo relato é de que Cristo voltará glorioso para implementar seu Reino de maneira plena e definitiva.

Em Êxodo vemos que Deus se importa com o clamor do povo. Aqui cabe uma tese esmiuçada a respeito desta característica divina, mas irei me ater apenas a um singelo comentário: sim, Ele inclina seus ouvidos para ouvir o grito do necessitado e estende suas mãos para libertar o oprimido. E com o devido aprofundamento teológico há de se constatar que não se trata de um cenário alegórico, mas tipológico: não apenas no segundo livro de autoria de Moisés observa-se uma preocupação divina para questões sociais, mas na figura de Jesus vemos o ensinamento de que a profissão de fé deve se transformar em ações concretas em prol de outrem (destaque especial para a Parábola do Bom Samaritano, em Lucas 10:25-37).

No livro de Ester, vê-se a rainha que sente a dor do seu povo e por ele intercede.

Neemias era copeiro do rei Artaxexes.

Daniel tornou-se uma figura proeminente na corte da Babilônia.

Em Davi e Salomão, duas trajetórias no trono de Israel, com seus erros e acertos, ratificam a importância da temática política no livro sagrado.

No Novo Testamento, nota-se Jesus orientando Pedro a cumprir com seus deveres cívicos mediante o pagamento de impostos:


“Vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir e, abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o e dá-o por mim e por ti.”

(Mateus 17:27)


E, claro, há a frase emblemática:


“Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”

(Mateus 22:21)


Novamente, o nazareno atenta para o aspecto do ser cidadão, que não está desassociado do ser cristão.

No contexto da Reforma Protestante, conforme foi mencionado, vale ressaltar que os debates não se restringiram ao âmbito teológico, dado o contexto da época no qual a Igreja desempenhava não apenas o poder religioso, mas também temporal.


“Durante a Idade Média (476-1453), ter terras era sinônimo de influência política. A Igreja Católica de Roma detinha muitas propriedade e, com isso, era uma das principais instituições do período.

Essa autoridade vinha também do reconhecimento dos próprios reis e soberanos que enxergavam no Papa e na Igreja uma autoridade não só religiosa, mas também política.

Além disso, as interpretações da Bíblia exerciam grande controle social no período. Práticas como indulgências, por exemplo, eram comuns. Além de gerarem riquezas para a Igreja, essas práticas colocavam nas mãos da Instituição a salvação dos pecados.

Internamente, a Igreja era marcada pela hierarquia. Isso significa que os membros do Clero mantinham uma relação centrada na figura do Papa como líder principal.

De forma geral, essa estrutura hierárquica, as práticas eclesiásticas e as relações políticas levaram ao descontentamento de nomes dentro do próprio Clero. Apesar de essa insatisfação estar presente desde o século XII, foi somente no século XVI que figuras do Clero trouxeram novas ideias sobre as doutrinas adotadas pela Igreja Católica, culminando no movimento que ficou conhecido como a Reforma Protestante.”


Logo, naturalmente o impacto da Reforma foi bem mais além do que meramente no fator teológico.


“O processo iniciado por Lutero deu abertura para mudanças profundas em questões políticas e econômicas na Europa do século XVI.

A primeira mudança ocorreu no âmbito político, pois a Europa já não era aquela do período medieval, uma vez que, a partir da Baixa Idade Média, foi iniciado o processo de centralização do poder dos monarcas e da formação dos Estados Nacionais. Acontece que, ainda no século XVI, a Igreja era muito poderosa e sua influência sobre o poder secular, isto é, o poder dos reis, ainda era muito grande.

Nesse contexto, as agendas e os interesses dos Estados Nacionais e dos reis começavam a se distanciar dos interesses da Igreja. Portanto, era necessário enfraquecer a Igreja para que um distanciamento entre o poder secular e o poder eclesiástico fosse possível. Os questionamentos de Lutero surgiram como possibilidade de promover isso e, por essa razão, ele contou com o apoio de muitos príncipes.”


Um símbolo clássico dessa abrupta mudança da perspectiva do poder político poder ser vista no episódio da coroação do imperador francês Napoleão Bonaparte (retratada na obra de arte “Coroação de Napoleão I e da Imperatriz Josephine em Notre-Dame de Paris”, de Jacques-Louis David [1748-1825]).


“A cerimônia de coroação foi realizada na catedral de Notre-Dame, em 1804, e teve um fato inusitado para os rituais de coroação existentes na Europa. Napoleão havia convidado para a cerimônia o papa Pio VII, como indicação da reaproximação da França com a Igreja Católica. A saída de Pio VII de Roma a Paris já era um grande feito diplomático de Bonaparte.

De acordo com os rituais de coroação, o imperador ajoelhava-se frente ao representante da Igreja, que colocava em sua cabeça a coroa, demonstrando assim a superioridade do poder religioso sobre o poder temporal dos homens.

Porém, ao invés de Napoleão Bonaparte se ajoelhar frente ao papa, o imperador francês alterou o ritual. Primeiramente, ele coroou sua esposa, a Imperatriz Josefina. Depois, Napoleão tomou a coroa em suas mãos e colocou em sua própria cabeça. Perplexos, os presentes à cerimônia viram o novo imperador deixar o papa Pio VII como um mero espectador.

Napoleão pretendia, dessa forma, apresentar simbolicamente seu poder como superior ao poder religioso da Igreja Católica. A atitude mostrava também o tipo de personalidade de Napoleão Bonaparte, que pretendia se colocar como um dos grandes nomes da história mundial.”


Quando Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos da América, deu luz à concepção do Estado laico, o intuito não foi impedir que religiosos atuassem na esfera pública, mas sim garantir o direito da liberdade religiosa para cada indivíduo, sem que o Estado aviltasse contra ele.

O presbítero inglês Charles Spurgeon afirmou:


“Eu tenho ouvido: 'Não traga a religião para a política'. É precisamente para este lugar que ela deveria ser trazida e colocada ali na frente de todos os homens como um candelabro.”


Obviamente, os dizeres de Spurgeon não visam um Estado teocrático, mas sim a garantir do exercício do direito constitucional de cada indivíduo carregar consigo a sua cosmovisão, seja ela uma profissão de fé ou não.

Ainda nos dias de hoje, há a incidência teológica no âmbito político - e isso não se confunde com Estado teocrático ou algo do tipo. Um exemplo é que Barack Obama, presidente dos Estados Unidos de 2009 a 2016, realizou seu juramento na posse de seu segundo mandato, em 2013, com uma das mãos sobre as Bíblias de Abraham Lincoln (16.° presidente dos EUA) e Martin Luther King (pastor batista e ativista político). A Bíblia de Lincoln foi usada na primeira posse presidencial, em 1861. Já o livro de King era usado pelo líder negro para preparar sermões durante suas viagens pelo país nos anos 1960. Obama já havia usado a Bíblia de Lincoln em sua primeira posse, em 2009. Tal ritual é clássico na Casa Branca.

É mister que a Igreja compreenda a importância do entendimento a respeito de política. Utilizando uma expressão do teólogo Clodovis Boff, o objetivo seria que esse assunto se tornasse tão natural no meio eclesiástico que não seria mais necessário bater exaustivamente nessa tecla, uma vez que essa corrente reentraria, finalmente, na “grande correnteza da teologia. Ou então, ainda citando Boff: “É como o torrão de açúcar, que só existe para se dissolver no café: continuará aí presente, adoçando todo o café, mas invisível”.

Sim! Gostaria que não mais precisássemos reforçar a importância e urgência dos cristãos compreenderem a respeito de política, a ponto do trabalho teológico nesta área tornar-se desnecessário ou invisível, uma vez que o assunto já estaria misturado na grande correnteza teológica, ou como um torrão de açúcar que já se dissolveu na xícara de café. Tão incorporado, que não mais se destaca; torna-se invisível, pois já se tornou parte do todo.

Mas, um dia, com fé e labor, chegaremos lá.



(Referências bibliográficas: https://m.youtube.com/watch?v=61OJHiCIRxI; https://www.politize.com.br/reforma-protestante/; https://www.google.com.br/amp/s/mundoeducacao.uol.com.br/amp/historiageral/reforma-protestante.htm; https://www.google.com.br/amp/s/escolakids.uol.com.br/amp/historia/coroacao-de-napoleao-bonaparte.htm; https://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/01/obama-vai-prestar-juramento-sobre-biblias-de-lincoln-e-de-luther-king.html; https://domtotal.com/noticia/778659/2014/08/confira-a-entrevista-de-clodovis-boff/)



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