O DEUS QUE ATENDE AS NOSSAS EXPECTATIVAS (FRUSTRANDO ELAS)

Quem é Deus? Como Ele é? Qual seu modo de agir?

São indagações presentes no âmbito existencial humano. Há respostas, e segundo a fé cristã, elas são encontradas nas Sagradas Escrituras.

O ponto de partida para compreendermos quem é Deus, como Ele é e qual seu modo de agir é entendê-lo como o “Totalmente Outro”, conforme a expressão cunhada pelo teólogo alemão Karl Barth (1886-1968).

Conceber Deus como o “Totalmente Outro” significa afirmar, à priori, que Ele não se esgota na racionalidade ou lógica humana, tampouco numa infalibilidade da religião que por ventura presuma não estar constantemente posta à disposição da análise efetuada à luz das Escrituras.

Vejamos um exemplo bíblico desse Deus “Totalmente Outro”:


“Passado algum tempo, Deus pôs Abraão à prova, dizendo-lhe: ‘Abraão!’ Ele respondeu: ‘Eis-me aqui’.

Então disse Deus: ‘Tome seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei’.”

(Gênesis 22:1-2)


Segundo a lógica humana, seria impossível o Sumo Bem (segundo o termo aristotélico, como fim último da ação humana, ou “o melhor dos bens”) solicitar a um pai que sacrificasse seu próprio filho.

Apesar de Deus já estar ciente do desfecho da história (no alto do monte Moriá, um anjo apareceu a Abraão, orientou-o a não sacrificar Isaque, e afirmou: “Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou seu filho, o seu único filho.” - Gn 22:12), a fé de Abraão foi provada quando ele se deparou com uma solicitação divina que não era convergente com sua lógica humana.

Um outro exemplo é o próprio Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne. Ele atendeu às expectativas humanas, só que, na verdade, quebrando elas.

No livro “Boas Novas”, o pastor e teólogo John MacArthur destaca:


“A Escritura deixa claro que os judeus nutriam altas expectativas com relação ao Messias há muito esperado – expectativas que Cristo não necessariamente preencheu num primeiro momento. Eles tinham certeza que o Messias seria um homem – não um anjo, e também não Deus – simplesmente um homem. E não apenas um homem qualquer, mas um filho de Davi. Com base nas promessas da aliança de Deus com Davi, eles aguardavam o herdeiro de Davi que estabeleceria o reino eterno. Eles esperavam que quando o Messias viesse, seria um homem com tremenda autoridade e influência, que assumiria o poder, destronaria os romanos e todos os inimigos de Israel, e cumpriria instantaneamente todas as promessas de reino feitas a Abraão, Davi e aos profetas. E ao fazer essas coisas, ele traria salvação plena a Israel.”


Contudo, Cristo não era o líder militar esperado que veio para destruir Roma e trazer esse tipo de libertação à Israel. Na verdade, Ele trouxe libertação, mas não através da espada militar, e sim através da espada da Palavra (cf. Hebreus 4:12). Não sentou-se num trono real terreno naquele momento, mas está assentado à destra do Pai e, brevemente, voltará para reinar de maneira definitiva e eterna (cf. Apocalipse 21). Não obstante, esvaziou-se de Sua glória, mesmo sendo Deus, submeteu-se à morte de cruz, sendo o Servo Sofredor conforme profetizado por Isaías (Isaías 53; Filipenses 2:7-11).

Ainda falando de Jesus, destaco o episódio no qual os discípulos lembraram do caso do profeta Elias, que orou para fazer cair fogo do céu, e imaginaram que Cristo faria o mesmo:


“Aproximando-se o tempo em que seria elevado ao céu, Jesus partiu resolutamente em direção a Jerusalém.

E enviou mensageiros à sua frente. Indo estes, entraram num povoado samaritano para lhe fazer os preparativos; mas o povo dali não o recebeu porque se notava em seu semblante que ele ia para Jerusalém.

Ao verem isso, os discípulos Tiago e João perguntaram: ‘Senhor, queres que façamos cair fogo do céu para destruí-los?’

Mas Jesus, voltando-se, os repreendeu, dizendo: ‘Vocês não sabem de que espécie de espírito são, pois o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los’; e foram para outro povoado.”

(Lucas 9:51-56)


Jesus não atendeu às expectativas vingativas dos discípulos.

Recordo-me do testemunho de um pastor que disse que tinha recebido uma palavra de revelação, de que um grande homem de Deus lhe imporia as mãos e, então, sua vida e ministério teria uma virada de chave. Pois bem. Esse pastor viajou para o exterior e teve um encontro com um grande homem de Deus, que orou sobre a vida dele e lhe disse coisas belíssimas. “Pronto! A palavra se cumpriu”, pensou. Mas nada de diferente aconteceu em sua vida, tampouco em seu ministério. Até o dia que em que ele foi trabalhar como “tio” (ou cuidador) das crianças da igreja em um retiro, e uma dessas crianças colocou a mão em sua cabeça e orou por ele. Naquele momento, ele sentiu o poder do Espírito Santo de uma forma sem precedentes. Ali foi a virada de chave prometida.

Moral da história: não foi o grande homem de Deus conhecido mundialmente que foi usado pelo Senhor naquele ocasião para cumprir a promessa, mas sim uma simples e singela criança.

Deus atende as nossas expetativas, só que quebrando elas.

O cumprimento das promessas vem de lugares os quais jamais imaginaríamos.

Um exemplo clássico é a pergunta de Natanael acerca da origem do Messias:


“Disse-lhe Natanael: ‘Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?’”

(João 1:46)


Quando soube que Jesus Cristo era de Nazaré, Natanael duvidou que Ele era de fato o Messias. Afinal, Nazaré era um pobre vilarejo, um pequeno povoado de não mais de 30.000 metros quadrados (200 metros de comprimento por 150 de largura). As casas eram compostas geralmente por uma única sala, ligadas a uma gruta escavada à mão devido à fragilidade das rochas do local. Por isso, muitos judeus nutriam pouca estima em relação a essa região, e não esperavam que o Messias prometido viria de lá.

Porém, Deus atende as nossas expectativas quebrando elas.

Que essa reflexão seja um convite para você se abrir à multiforme graça de Deus e ao Seu maravilhoso agir!


(Referências bibliográficas: https://voltemosaoevangelho.com/blog/2019/04/eles-nao-enxergaram-o-messias/; https://www.google.com.br/amp/s/mundoeducacao.uol.com.br/amp/filosofia/aristoteles-felicidade-como-fim-das-acoes-humanas.htm; https://formacao.cancaonova.com/diversos/o-vilarejo-de-nazare-no-tempo-de-jesus/)



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