CUIDADO PARA COM OS POBRES

“Onde pobres e ricos se encontram frente a frente, [Cristo] nunca escolhe seu lugar entre os mais abastados, mas se associa sempre aos pobres. Ele nasce em uma manjedoura, e, mesmo que as raposas tenham seus covis e as aves do céu seus ninhos, ele, o Filho do Homem, não tem onde reclinar a cabeça. [...] Não é da vontade de Deus que alguém, mesmo que trabalhe de forma diligente, experimente escassez de pão, tanto para alimentar a si mesmo como para alimentar sua família. É ainda menos a vontade de Deus que alguém, que tem mãos e tem vontade para trabalhar, pereça literalmente de fome ou se encontre condenado a uma vida de pedinte, simplesmente porque não encontra trabalho. Se tivermos ‘sustento e com que nos vestir’, aí sim o santo Apóstolo exige que nos contentemos com isso. Mas não podemos nem devemos nos desculpar por haver miséria entre nós. Pois, onde nosso Pai celeste, desejoso em nos dar, nos oferece, por meio desta sua bondade divina, abundância de alimento proveniente do campo, não será exonerado em nome do Senhor aquele que aceitar que por sua culpa tal riqueza seja compartilhada com tanta desigualdade. Desigualdade que faz com que uns tenham pão com fartura enquanto outros permaneçam com estômago vazio ao se deitar em seu saco de dormir ou até mesmo se encontrem dormindo ao relento sem ter onde reclinar a cabeça. [...] O próprio Cristo, como também os apóstolos e também os profetas, registraram esse fato e eram invariavelmente contra tudo o que era poderoso e luxuriante frente aos sofredores e oprimidos. [...] A esta altura, vemos algo que se mostra, como ensino, totalmente oposto ao ensino do socialista: ‘Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas.’ (Mateus 6.33). Portanto, a teoria se volve para ambos os lados, estendendo-se ao mesmo tempo para o rico e para o pobre, cortando a raiz do pecado encontrada em nosso coração.”

(Abraham Kuyper, clérigo eleito como representante do Partido Anti-Revolucionário, em discurso proferido no Congresso Social Cristão, em 1891)


Será que a Igreja tem respondido às questões propostas pelo mundo? Será que temos sido como Jesus que escolheu comer o pó da Palestina, andando com suas sandálias e simples vestimenta em meio ao povo (pescadores, cobradores de impostos), e também entre as classes sociais mais elevadas (como soldados romanos e doutores da Lei), ensinando tanto na sinagoga quanto em cima de um barco ou na montanha, ou nos tornamos teólogos de cátedra, que discutem o “sexo dos anjos” enquanto pessoas não tem o pão de cada dia lá fora?

Será que a Igreja fechou-se dentro de suas quatro paredes?

Muitas vezes apontamos o dedo para aqueles que não estão inseridos num contexto religioso/eclesial, mas a Igreja não se atenta para as próprias falhas que eventualmente tenham causado um afastamento dessas pessoas.

Pedro desembainhou sua espada e cortou a orelha do soldado Malco. Será que nós não temos parcela de culpa na “surdez” do mundo? Será que não fomos nós mesmos que cortamos a orelha daqueles a quem desejamos audição?

Há uma belíssima obra de arte chamada “Homeless Jesus” (em tradução livre, “Jesus Sem-Teto”), de autoria do canadense Timothy Schmalz. A escultura foi originalmente instalada na Faculdade Regis, da Universidade de Toronto, em 2013. Hoje, se encontra em frente à Igreja Episcopal de St. Barnabas, em Ohio (EUA). A obra retrata Cristo enrolado em um cobertor e deitado em um banco.

A referência bíblica é clara:


“‘Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’.

Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?’

O Rei responderá: ‘Digo a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram’.”

(Mateus 25:35-40)


Jesus diz com todas as letras: quando fazemos o bem para o próximo, é como se estivéssemos fazendo para o próprio Deus. E, quando negamos fazer o bem para o próximo, significa negar também a Deus.

Como tem sido a nossa atitude diante da consciência da pobreza, mazelas e aflições que assolam o mundo?

Será que estamos esperando que todos batam à porta da nossa igreja?

Sobre essa questão, o pastor Billy Graham responde:


“A Bíblia não manda que os pecadores procurem a igreja, mas ordena que a igreja saia em busca dos pecadores.”


Bom pastor tem cheiro de ovelha. E não me refiro ao pastor que possui tal cargo, mas sim a todos nós discípulos de Jesus que somos chamados a cumprir o “ide”.

O verdadeiro Evangelho não é você estar trancafiado em meio a um “clube gospel”. Jesus andava no meio daqueles que eram excluídos pela sociedade e amaldiçoados pela religião da época: cobradores de impostos, prostitutas, leprosos. Fora isso, andava com homens simples, como pescadores da Galileia.

Aliás, o próprio Jesus era um excluído por ser de Nazaré (região precária) e era referido como “o filho do carpinteiro”.

O cuidado para com o pobre não é questão meramente partidária, ideológica ou invencionice teológica, mas sim bíblica.

A “fórmula de sucesso” para uma igreja está em Atos 2:


“Os apóstolos faziam muitos milagres e maravilhas, e por isso todas as pessoas estavam cheias de temor. Todos os que criam estavam juntos e unidos e repartiam uns com os outros o que tinham. Vendiam as suas propriedades e outras coisas e dividiam o dinheiro com todos, de acordo com a necessidade de cada um. Todos os dias, unidos, se reuniam no pátio do Templo. E nas suas casas partiam o pão e participavam das refeições com alegria e humildade. Louvavam a Deus por tudo e eram estimados por todos. E cada dia o Senhor juntava ao grupo as pessoas que iam sendo salvas.”

(Atos 2:43-47)


Muitos cristãos focam apenas na parte que fala dos milagres, do sobrenatural, ou na nossa gíria, no “shaba”. Todavia, não podemos nos esquecer da parte (igualmente importante) de que os primeiros cristãos repartiam tudo o que tinham, vendiam as suas propriedades para suprir as necessidades dos demais. Em suma, eram uma grande família.

Essa característica da igreja apostólica só ratifica que o cuidado para com os pobres não é coisa de partido político A, B ou C ou de ideologia X, Y ou Z.

Dom Hélder Câmara dizia:


“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo; quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista.”


Cumprir uma ordenança do próprio Jesus Cristo de cuidar dos pobres não é ser comunista ou qualquer outro rótulo do tipo, mas sim entender a importância de estender a mão para o próximo - e o valor que Deus dá para essa atitude, conforme já vemos num trecho bíblico acima.

Portanto, que possamos cumprir essa ordenança do Senhor.


“A religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.”

(Tiago 1:27)


Como eu disse, está na Bíblia. E finalizo com esta frase emblemática do escritor Tyler Huckabee:


“Se a Bíblia é misteriosa sobre alguns temas, certamente a busca da dignidade dos pobres não é um deles.”



(Referências bibliográficas: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/servindo-na-esfera-publica-para-o-bem-comum-na-holanda/; https://cultura.uol.com.br/viralizou/noticias/2020/10/16/20_estatua-jesus-sem-teto-policia-e-acionada-20-minutos-depois-da-instalacao-da-obra-em-ohio-nos-eua.html; https://www.otempo.com.br/mundo/papa-francisco-cita-dom-helder-sobre-preferencia-aos-pobres-no-natal-1.2428433)


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