DOCE LOUCURA
Em 1888, na cidade francesa de Arles, aconteceu um dos episódios mais famosos da história da arte: um estrangeiro foi até um bordel da cidade e entregou a uma garota que estava no local um pacote com um pedaço sangrento de sua própria carne.
Finalizo com os dizeres do filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.): “Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura”.
Era Vincent van Gogh, que acabara de cortar a própria orelha. Na época, tratava-se de um pintor desconhecido e sem sucesso, mas que posteriormente se tornaria um dos artistas mais famosos de todos os tempos.
O ano que ele passara na região francesa de Provença o definiu: foi o período em que criou suas obras-primas mais apreciadas, mas também aquele em que se mutilou.
Horas depois do episódio no bordel, às 7h da manhã na véspera de Natal, ele foi encontrado pela polícia em sua cama, em posição fetal e com a cabeça envolta em trapos empapados de sangue.
Van Gogh morreu 18 meses depois, em 29 de julho de 1890, como consequência de uma infecção que contraíra alguns dias antes, após tentar se matar com um revolver.
A história do corte de sua orelha é o incidente mais famoso do mundo da arte moderna. No entanto, ninguém sabe o que ocorreu realmente naquele dia de dezembro de 1888.
Talvez, esse seja o principal caso que demonstra que genialidade e loucura, por vezes, andam de mãos dadas.
Porém, antes mesmo do artista holandês, um outro personagem protagonizou uma lenda que evidencia essa questão.
Era uma vez um rei. E um sábio. O rei se chamava Hierão, e o sábio, Arquimedes. Os dois viviam em Siracusa, cidade-Estado da Grécia Antiga. O rei mandou fazer uma coroa toda de ouro, mas ouviu uns boatos de que o ourives não tinha usado apenas ouro para fazer a coroa, e ficou desconfiado. Mas se a coroa era totalmente dourada, e se parecia muito com ouro puro, como fazer então para ter certeza sem destruí-la?
É aqui que entra o sábio. Arquimedes já era renomado na época - quando o termo filósofo era usado para todos os estudiosos e cientistas em geral - e é célebre até hoje por suas descobertas na matemática, física e por diversas invenções. Arquimedes teve uma importância decisiva no surgimento da ciência moderna.
O rei consultou o filósofo para resolver o problema da coroa de uma vez por todas - provar se ela era toda de ouro ou não. Estava o sábio grego, um belo dia, a tomar banho numa banheira, entretido com essa questão. De repente, ele teve um vislumbre da solução e saiu correndo, nu (!) pelas ruas da cidade, gritando “Eureka, Eureka!”, que em grego quer dizer “Descobri, descobri!”.
O que ele descobriu foi o que hoje chamamos de “Princípio de Arquimedes” (que se baseia no empuxo ou impulsão). A partir dele, podemos afirmar: “Um corpo imerso em um líquido irá flutuar, afundar ou ficar neutro de acordo com o peso do líquido deslocado por este corpo”. Ou seja, se o peso do líquido deslocado por um objeto for maior que o peso do corpo, ele irá flutuar. Mas se o peso do objeto for superior ao peso do líquido deslocado, o corpo irá afundar. Se for igual ficará no meio do caminho, não afunda nem flutua.
E Arquimedes descobriu isso quando tomava banho em sua banheira, quando percebeu que a quantidade de água que transbordava era igual em volume ao seu próprio corpo.
E assim percebeu como poderia provar a fraude do ourives. Ele observou que blocos de mesma massa, feitos de prata e de ouro, faziam transbordar diferentes volumes de água: por serem materiais de densidades diferentes, os blocos não tinham o mesmo tamanho (volume). Então, ele mergulhou numa bacia cheia de água um bloco de ouro de massa igual à da coroa e mediu o volume de água que transbordou. Fez a mesma coisa com um bloco de prata. O volume de água que transbordou quando mergulhou o bloco de ouro era menor que o volume de água quando mergulhou o bloco de prata. Repetiu a experiência com a coroa e verificou que o volume de água que transbordou era maior que o do bloco de ouro e menor do que o do bloco de prata.
Concluiu que a coroa não era de ouro puro e que o ourives a tinha feito misturando os metais. Ele usou a densidade para provar que a coroa tinha sido feita com uma liga (mistura) de ouro e prata.
Quem nunca viu a foto de Albert Einstein com a língua pra fora? Esta é provavelmente a foto que menos representa o trabalho do cientista – no entanto, é de longe a imagem que todo mundo imagina quando pensa em Einstein. Foi ela que consagrou a concepção de “cientista maluco” no imaginário popular, mas nem ao menos foi tirada em um laboratório. Na verdade, Einstein estava saindo de uma festa.
A foto foi tirada no dia 14 de março de 1951, aniversário de 72 anos do físico alemão. Ele acabava de sair de uma comemoração no Princeton Club, que na época era localizado em Nova Jersey. Trata-se de um clube privado (e bem exclusivo) composto quase inteiramente por ex-alunos, professores e pesquisadores da Universidade de Princeton.
Albert Einstein (que fora contemplado com o Prêmio Nobel de Física em 1921) posou para fotógrafos e paparazzis quando saiu da festa, e em seguida andou em direção a um carro acompanhado de Frank Aydelotte, diretor do Instituto de Estudos Avançados dos Estados Unidos, e a esposa do diretor, Marie Jeanette. São os dois que aparecem na foto ao lado do físico.
Como é de se imaginar, Einstein já estava cansado após passar a noite fazendo uma social com os colegas e sorrindo para as câmeras. Mesmo após entrar no carro, o fotógrafo Arthur Sasse, da agência de notícias United Press International (UPI), continuou tentando arrancar um último sorriso do físico. Foi nessa hora que Einstein fez uma das caretas mais famosas da história – e Sasse foi rápido o suficiente para capturá-la.
A imagem foi veiculada na época e, ao contrário do que se imaginaria de uma celebridade da ciência, Einstein gostou do registro. Ele pediu nove cópias da foto à agência de notícias e retirou os dois outros integrantes da cena. Ele costumava assinar suas imagens e enviá-las de presente para amigos.
Como disse, o conceito de conhecimento aliado à genialidade com loucura é bem antigo. Já ouvi dizerem que quem lê muito a Bíblia acaba ficando doido. Por que isso? Talvez, para desestimular a leitura individual da Palavra, deixando-o a cargo de interpretações de terceiros. Ou então, uma sacralização errônea das Escrituras, optando-o por deixar como amuleto aberto na sala de estar no Salmo 23 ao invés de meditar nela dia e noite.
Entretanto, pensando bem, nós cristãos somos um tanto fora do normal mesmo (e isso é um elogio): temos como bússola da nossa vida um livro com capa de couro escrito há mais de um milênio, num idioma antigo, numa terra remota, com personagens que parecem heróis da Marvel por seus erros e tropeços, que conta com eventos sobrenaturais, e fala de coisas que ainda irão acontecer em linguagem simbólica e codificada que envolve números (“666”), dragão, besta, contexto geopolítico, etc.
Porém, nas palavras do apóstolo Paulo:
“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.”
(1 Coríntios 1:18)
O que pode ser tachado como loucura para uns, é fonte de vida para nós.
Erasmo de Rotterdam, teólogo holandês autor do clássico “Elogio à Loucura” (escrito em 1509 e publicado em 1511, a obra é considerada um dos mais importantes livros da civilização ocidental e um grande influenciador da Reforma Protestante), afirmou:
“A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos.”
Giorgio Tsoukalos, cientista que virou meme por causa do programa do canal History que fala sobre alienígenas, ficou conhecido mundialmente por conta de seus cabelos ouriçados, com as mãos abertas e falando “aliens”, enxergando os seres extraterrestres em diversos episódios da história humana. Ele é um exemplo mais recente desse fetiche que muitos têm em enxergar a genialidade aliada à uma aparente loucura.
Segundo o filósofo Luiz Felipe Pondé:
“Não dá pra dizer que uma vida perturbada garante a você alguma forma de sabedoria. Essa ideia é um certo fetiche de que todo mundo que tem sofrimento psicológico ou alguma psicopatologia, um mal psiquiátrico, seguramente é um sábio, e que para ser sábio ou artista você precisa ser meio louco. Isso tudo é fetiche.”
Em alguns casos, todavia, um contexto político-social ou até mesmo pessoal alvoroçado pode servir de potencializador e inspirador de uma obra. O escritor Franz Kafka (1883-1924) tinha uma vida conturbada, e era um sujeito tão brilhante quanto psicologicamente torturado. Seu relacionamento com a religião judaica, com as mulheres que passaram por sua vida e com a família era bem complicado e forneceu combustível para seu trabalho literário. A vida e a obra de Kafka foram influenciadas pelas condições políticas e sociais da época em que o escritor viveu.
Esse mundo é louco. Conformar-se a ele e viver sem tentar adquirir o mínimo de compreensão acerca dele é mais loucura ainda.
(Referências bibliográficas: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46731221.amp; https://memoria.ebc.com.br/amphtml/infantil/voce-sabia/2015/08/eureka-saiba-como-arquimedes-criou-o-conceito-de-empuxo-tomando-banho; https://super.abril.com.br/historia/como-foi-tirada-a-famosa-foto-de-einstein-mostrando-a-lingua/amp/; https://www.amazon.com.br/Elogio-Loucura-Erasmo-Rotterdam/dp/8572327541; https://www.youtube.com/watch?v=kXbmgnSPfCs; Revista Rolling Stone, nº 48, set/2010)
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