O GOVERNO DO REI SALOMÃO: SABEDORIA (Parte I)

“Assim o rei Salomão excedeu a todos os reis da terra, tanto em riquezas como em sabedoria.” (I Rs 10:23)

A riqueza material é, por natureza, um tema polêmico na igreja de Cristo. Uns acham que os ricos não entrarão no Reino dos Céus; outros entendem que a verdadeira espiritualidade é expressada por uma vida de pobreza. A Bíblia Sagrada não apoia nenhuma dessas visões, porque a salvação não está condicionada à pobreza ou à riqueza, mas à graça de Deus, pela fé em Cristo, que capacita os salvos a obedecerem a Deus.

De qualquer forma, temos, neste estudo, a oportunidade de melhorarmos nossa visão sobre a maneira como os salvos devem lidar com as riquezas, tendo como inspiração a vida do rei Salomão, o homem mais rico do Antigo Testamento.

 “Aprendendo e praticando a forma correta de angariar e usar as riquezas.”

 

I - A história contada

Salomão não foi um monarca que assumiu o poder depois da morte do pai; Davi ainda vivia, quando ouviu falar que seu filho mais velho, Adonias, intentava usurpar seu trono (I Rs 1:5 a 2:53). Diante disso, o rei chamou a Salomão e lhe preveniu sobre alguns homens que poderiam causar graves instabilidades no reino de Israel; eram eles: Joabe e Simei, além do próprio Adonias (I Rs 2:5-10). Mas o que determinou a passagem do trono a Salomão não foi este fato, mas a ordem que Deus dera a Davi (I Cr 22:5-19).

Salomão era o décimo filho de Davi, e, por isso, tinha poucas chances de assumir o trono; entretanto, a morte violenta de seus irmãos mais velhos, antes de assumirem o poder, explica a situação (II Sm 10 – I Rs 2). A história resumida do esplendoroso reinado de Salomão é encontrada em I Reis 1:11 e I Crônicas 28 a II Crônicas 9. Para facilitar a sua compreensão, utilizaremos a divisão feita por Gadner, que divide o assunto em quatro partes, a saber: a garantia do trono para Salomão (I Rs 1-2), a sabedoria de Salomão e suas realizações (I Rs 3-8), a fama internacional de Salomão e a consequente apostasia (I Rs 9 a 13:8), e os oponentes de Salomão (I Rs 11:9-43).

A narrativa da coroação de Salomão é apresentada na Bíblia com duas perspectivas: de acordo com I Crônicas 28-29, Salomão foi ungido rei numa solenidade aberta, pública, quando se declarou que aquela era uma escolha divina; em I Rs 1, porém, tem-se uma cerimônia de coroamento fechada, privada, feita às pressas.

Não há contradição; o que ocorre é a revelação do que aconteceu exteriormente e o que ocorreu nos “bastidores do poder”. Isto é, Adonias, com o apoio do sacerdote Abiatar, havia se declarado rei, ainda com Davi vivo e sem o apoio do profeta Natã, do sacerdote Zadoque e dos valentes de Davi (I Rs 1:5-10). O velho rei, porém, jamais repreendeu Adonias (I Rs 1:6). Diante dessa situação, o profeta Natã e a mãe de Salomão, Bate-Seba, concluíram que era necessário agir rapidamente. Com argumentos envolventes, mexeram com o brio de Davi, mostrando-lhe que as intenções de Adonias eram contrárias às do rei. Assim, Davi decidiu ungir a Salomão como rei de Israel (I Rs 1:11-31).

Com a elevação de Salomão ao poder, este repreendeu a Adonias e a oposição cessou (I Rs 1:50-53). Porém, o início do reinado de Salomão não foi marcado pela paz. Quando Adonias insistiu que o rei lhe desse Abisague como esposa, Salomão mandou executá-lo, por não concordar que seu irmão desejasse deitar-se com a virgem que passou a fazer parte do harém de seu pai, Davi, quando este já não tinha vitalidade (I Rs 2:13-25).

O sacerdote Abiatar, que sempre apoiara Adonias, foi expulso (I Rs 2:26 e 27); mas o comandante Joabe foi executado (I Rs2:36-46). Suas funções foram assumidas por Benaia e Zadoque, respectivamente, como prêmio pela fidelidade a Davi e a Salomão. O rei ainda mandou executar a Simei, que também apoiara Adonias (I Rs 2:36-46). Assim, o violento Benaia matou os principais opositores do rei.

Toda essa truculência, porém, não tem relação com a bênção de Deus sobre Salomão, uma vez que a graça e a misericórdia divina sobre o rei não se baseavam nos atos deste, mas na aliança que Deus fizera com Davi e seus descendentes de torná-los uma dinastia perene em Jerusalém (II Sm 7:4-17).

Ao ver que Salomão estava usando as mesmas armas violentas que o pai usara para resolver os problemas (cf. II Cr 22:7-8), Deus lhe apareceu pela primeira vez e lhe disse: “Pede-me o que queres que eu te dê” (I Rs 3:5). Salomão fez este pedido: “A teu servo, pois dá um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal: porque quem poderia julgar a este teu tão grande povo?” (I Rs 3:9). Agradou-se o Senhor de Salomão e concedeu-lhe um bom entendimento, que, na Bíblia, significa ter um coração capaz de ouvir a palavra de Deus e obedecer-lhe. Assim, Salomão foi divinamente habilitado para discernir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre o superficial e o essencial, enfim, pela observação das palavras e dos atos, ele teria condições de entender o que realmente se passava no coração das pessoas que o rodeavam.

Tamanha sabedoria proporcionaria a Salomão reagir corretamente diante das situações mais complexas e realizar um reinado afinado com a vontade de Deus. Davi havia perdido essa capacidade parcialmente depois de seu pecado com Bate-Seba, quando não percebeu o levante de Absalão, de Adonias, entre outros. Depois deste encontro com Deus, Salomão procurou mudar suas atitudes políticas: em vez de violência, buscou alinhar suas ações aos princípios estabelecidos na aliança que Deus fizera com seu pai. Desta forma, além de sabedoria, Deus adicionou riquezas e glória incomparáveis aos demais reis de seu tempo (I Rs 4:13); mas com uma condição: “Se tu andares nos meus caminhos, guardando os meus estatutos e os meus mandamentos, como andou teu pai Davi, prolongarei os teus dias” (I Rs 3:14 – TB; cf. I Rs 2:2-4).

A prova de que o rei havia adquirido refinada habilidade para resolver problemas de maneira sábia viria logo em seguida, com a maravilhosa decisão sobre o caso das duas mães que pleiteavam o mesmo bebê (I Rs 3:16-26). O povo reconheceu que havia nele a sabedoria de Deus, para fazer justiça (I Rs 3:28).

Gardner destaca exemplos adicionais da sabedoria deste rei de Israel:

“Salomão organizou seu próspero reino (1 Rs 4.1-21), sua corte (1 Rs 4.2-28), e escreveu provérbios e outras literaturas sobre sabedoria (1 Rs 4.29-34; cf. Pv 1.1; 10.1; 25.1; Ct 1.1 e os títulos dos Sl 72 e 127). A maior demonstração da sabedoria de Salomão, entretanto, foi a construção do Templo do Senhor Deus de Israel. 1 Reis 5 a 7 contém os detalhes das negociações, os preparativos, do início e fim da obra. A sua inauguração foi celebrada com a introdução da Arca da Aliança na parte santíssima da estrutura (1 Rs 8.1-11). Esse ato foi seguido pela bênção de Salomão sobre o povo e a sua dedicatória, onde falou das promessas que Deus fizera a Davi, seu pai, e intercedeu pelo bem-estar do povo e da terra (1 Rs 8.12-66).”

Até este ponto Salomão era um modelo de rei. Para preveni-lo de futuros deslizes que o poder costuma causar, Deus lhe apareceu pela segunda vez, advertindo-lhe, bem como a seu povo, de que todas aquelas bênçãos graciosas seriam suspensas, se eles não permanecessem fiéis ao pacto feito com Davi (I Rs 9:3-9). Desta forma, a sabedoria, a riqueza e as realizações de Salomão correram mundo afora.

Champlin informa que o rei expandiu o território que ia ao Eufrates, no nordeste; ao ribeiro do Egito, no sudeste; ao mar Mediterrâneo, no oeste, e ao deserto arábico, no leste. O rei introduziu ao exército cavalos, carruagens e várias inovações militares que o tornaram invencível. Através dos fenícios, Salomão conseguiu desenvolver uma relação comercial marítima que lhe rendeu muitas riquezas; fez de Hirão, rei de Tiro, um poderoso parceiro comercial (I Rs 5:1-12, 9:10-14); fez, também, vários tratados comerciais, inclusive através de casamentos (I Rs 3:1; 10:24 e 25; II Cr 9:23 e 24). Em I Rs 4:20-28, 10:14-29, é descrita a impressionante riqueza de seu reinado.

Cada vez mais, Salomão usava sua sabedoria para enriquecer e para construir sua obra prima: o Templo. Para tanto, cobrou pesados impostos dos parceiros comercias e do povo (I Rs 9:10-14, 12:4), e não hesitou em usar mão de obra escrava (I Rs 9:15-24), medidas que iriam se transformar na base da divisão do reino, depois de sua morte. Esquecendo-se de que sua riqueza vinha das mãos do Senhor, Salomão se empolgou com sua capacidade de realizar grandes empreendimentos, e, assim, aprofundou seus relacionamentos íntimos e ilícitos com mulheres pagãs (I Rs 11:1-3) e suas parcerias comerciais com reis pagãos. De longe, rainhas vinham vê-lo e admirá-lo (I Rs 10:1-13). Com o tempo, suas esposas o conduziram à idolatria:

“Porque sucedeu que, no tempo da velhice de Salomão, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era perfeito para com o SENHOR, seu Deus, como o coração de Davi, seu pai, porque Salomão andou em seguimento de Astarote, deusa dos sidônios, e em seguimento de Milcom, a abominação dos amonitas. Assim fez Salomão o que era mau aos olhos do SENHOR e não perseverou em seguir ao SENHOR, como Davi, seu pai. Então, edificou Salomão um alto a Quemos, a abominação dos moabitas, sobre o monte que está diante de Jerusalém, e a Moloque, a abominação dos filhos de Amom. E assim fez para com todas as suas mulheres estrangeiras, as quais queimavam incenso e sacrificavam a seus deuses” (I Rs 11:4-8).

O sábio e entendido Salomão manchou seu reinado com a poligamia e com a idolatria. Nestas condições, Deus lhe apareceu pela terceira vez declarando juízo contra seus pecados e misericórdia para com a descendência de Davi:

“Pelo que disse o SENHOR a Salomão: Visto que houve isso em ti, que não guardaste o meu concerto e os meus estatutos que te mandei, certamente, rasgarei de ti este reino e o darei a teu servo. Todavia, nos teus dias não o farei, por amor de Davi, teu pai; da mão de teu filho o rasgarei; porém todo o reino não rasgarei; uma tribo darei a teu filho, por amor de meu servo Davi e por amor de Jerusalém, que tenho elegido” (I Rs 11:11-13; cf. vv 31-33).

A partir de então, o reino próspero começou a desabar; a imensa riqueza, a pompa, o luxo, tudo acabaria. Deus levantou adversários contra Salomão: Hadade, Rezom, Jeroboão (I Rs 11:14,23,26, cf. vv. 14-40). Cada um destes homens foi usado por Deus para enfraquecer e arrancar Salomão do trono, porque o rei decidiu ser desleal para com o Senhor. As palavras de Deus proferidas em I Rs 11:11-13 iriam se cumprir através da divisão do reino, sob os reinados de Jeroboão, seu servo, e de Roboão, seu filho. Desta forma, depois de quarenta anos de reinado, Salomão morreu e Roboão, seu filho, assumiu o seu lugar (I Rs 11:42-43).

Contudo, diversas linhas teológicas consideram que o rei Salomão possui “saldo positivo” no que tange ao registro das Escrituras acerca de sua pessoa. A maior evidência disso é que o próprio Jesus Cristo efetuou uma referência positiva em relação ao filho de Davi: “A rainha do sul se levantará no dia do juízo com esta geração, e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis que está aqui quem é maior do que Salomão” (Mt 12:42). Ou seja, Cristo destacou a conhecida sabedoria de Salomão, usando-o como exemplo.

Além disso, os escritos do antigo rei de Israel demonstram um homem reflexivo acerca do que se passara em sua vida, mais arrependido (e, portanto, redimido) do que orgulhoso de certos feitos.

De toda a forma, a sabedoria de Salomão foi um ponto essencial que possibilitou a saúde de seu longevo reinado em Israel.


(Referências bibliográficas: https://www.pcamaral.com.br/2010/06/o-reinado-da-riqueza-serie-monarquia-3.html; Gardner, Paul, Quem é Quem na Bíblia Sagrada. Ed. Vida, São Paulo, 1995; Gardner, Paul, Quem é Quem na Bíblia Sagrada, Ed. Vida, São Paulo, 1995; Champlin, Russell Norman. Dicionário - O Velho Testamento Interpretado Versículo por Versículo, vol 4, p. 5222, Candeia, 2000; Estudo bíblico de autoria do Pastor José Lima de Farias Filho)




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