SEMENTES DO VERBO

Há teólogos que são uma centelha de luz num amontoado de trevas.

Por que os lemos, então?

Jesus responde:


“Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.”

(Mateus 5:45)


O mártir São Justino (100-165) definiria tal concepção como as “sementes do Verbo”, isto é, todo homem participa do Logos, ou seja, do Verbo Eterno de Deus, e, portanto, traz em si uma “semente do Verbo”, que pode germinar e chegar à plenitude. Isto quer dizer que em cada cultura humana existem sementes da Verdade que podem frutificar, à medida que os mitos vão cedendo espaço ao reconhecimento da Verdade plena, revelada por Deus ao longo da história e culminada em Cristo, que é a própria Verdade, Caminho e Vida.

Segundo o teólogo alemão Joseph Ratzinger, “a obra de Justino marca a opção decidida da Igreja antiga pela filosofia, mais pela razão do que pela religião dos pagãos. Antes ainda, o Papa João Paulo II já havia escrito sobre ele na importantíssima encíclica “Fides et Ratio: Justino foi um “pioneiro de um encontro positivo com o pensamento filosófico, ainda que no sinal de um cauto discernimento.

O Magistério da Igreja também reforça, na “Dominus Iesus, número 12, que “é o Espírito que infunde as ‘sementes do Verbo’, presentes nos ritos e nas culturas, e as faz amadurecer em Cristo.

Na Idade Média, o monge dominicano e teólogo Tomás de Aquino enxergou verdades na Filosofia grega. Nas palavras do dramaturgo inglês G.K. Chesterton: “Santo Tomás não reconciliou Cristo com Aristóteles; reconciliou Aristóteles com Cristo”.

Em “Cristianismo Puro é Simples”, C.S. Lewis diz algo que vale a pena considerarmos:


“Se você é um cristão, você não precisa crer que tudo nas demais religiões é simplesmente errado. Se você é ateu, então, sim, você tem de crer que o ponto central de todas as religiões do mundo não passa de um enorme engano. Mas se você é um cristão, você é livre para pensar que todas as demais religiões, mesmo as mais excêntricas, contém ao menos alguma alusão à verdade. Quando eu era ateu, tinha que procurar persuadir-me de que a maior parte da humanidade sempre se enganou no ponto mais importante; quando me tornei cristão, pude ver as coisas de modo mais abrangente. Contudo, o cristão tem de admitir que, nos pontos em que o cristianismo diverge de outras religiões, ele é verdadeiro e as outras religiões são falsas. É como em aritmética: há somente uma resposta certa para uma soma, e as outras estão erradas; mas algumas das respostas erradas estão muito mais próximas da certa do que outras.”


Quero dissertar um pouco mais sobre o escritor britânico. Ele era muito enfático ao se referir ao cristianismo, e afirmou algo emblemático:


“O cristianismo, se for falso, não tem valor; se for verdadeiro, tem valor infinito. A única coisa que lhe é impossível é ser ‘mais ou menos’ importante.”


A teologia deveria ser a mais sublime das ciências. Dissecar as Escrituras desemboca na formação de uma cosmologia.

Sobre isso, Lewis também refletiu:


“Eu acredito no Cristianismo como acredito que o sol nasce todo dia. Não apenas porque o vejo, mas porque através dele eu vejo tudo ao meu redor.”


Não consiste em ser um teólogo de cátedra, mas que a teologia produzida faça sentido no cotidiano.

A figura do sol aparece tanto na Bíblia quanto na pena teológica para definir a ação da graça divina no tocante à iluminação intelectual do ser, dotando-o de capacidades cognitivas e epistêmicas.

Tal característica é comum a todo ser, inerente à alma, o que o teólogo alemão Karl Rahner chamaria de “existencial sobrenatural”, ou seja, a abertura ontológico de todo indivíduo à transcendência.

Para citar um exemplo: um macaco pode aprender a pintar um quadro, porém, por indução técnica. Já o ser humano o faz mediante esse “existencial sobrenatural”, esse ímpeto criativo outorgado pelo próprio Deus.

Nesse sentido, o mundo deve ser enxergado como esse espaço iluminado por Deus, com os homens inclinados a compreenderem a criação iluminada a partir da mente também iluminada.

O que seria uma criação iluminada?


“Os homens tornaram-se cientistas porque esperavam encontrar lei na natureza, e esperavam encontrar lei na natureza porque criam um Legislador.”

(C.S. Lewis)


E que a Verdade descoberta seja amplamente disseminada para mútua edificação.



(Referências bibliográficas: https://www.google.com.br/amp/s/pt.aleteia.org/2020/06/01/sao-justino-e-as-sementes-do-verbo/amp; https://m.facebook.com/chestertonnobrasil/photos/a.544249365641587/3585001651566328/?type=3&source=57&_se_imp=0WqA1895F8Jil4Kkf; C. S. Lewis, Cristianismo puro e simples [São Paulo: ABU, 1997), p. 19)


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