TEOLOGIA POLÍTICA

John Knox nasceu entre 1505 e 1515. Pouco se sabe dos primeiros anos da sua vida, mas é de conhecimento que em 1540 já era um ministro ordenado ao sacerdócio católico. A conversão de Knox ocorreu justamente nessa época por influência da leitura dos evangelhos, especialmente de João 17 (a oração sacerdotal de Cristo). Ele chegou a afirmar que foi nessa passagem bíblica que definitivamente “lançou sua âncora”.

Knox se tornou discípulo do reformador George Wishart, que popularizou os ensinamentos de Calvino e Zwinglio por meio das suas pregações. Circunstâncias como o martírio de Wishart (queimado em uma estaca como herege) e, alguns anos antes, do jovem pastor Patrick Hamilton (que defendia ideias luteranas, como a justificação pela fé) exerceram grande impacto na vida de Knox e o levaram a se convencer do chamado para ser “restaurador do evangelho de Deus na Escócia”. Tendo ficado prisioneiro em um navio militar francês por 19 meses, ele mergulhou no estudo do tema da justificação pela fé, como relata James Stalker no livro “John Knox: His Ideas and Ideals” (p. 98).

Márcio Costa, PhD em Teologia Histórica pela Universidade Andrews (EUA), disserta:


“De fato, seu ministério começou depois que ele foi solto, em março de 1549. Knox se tornou pároco na diocese de Durham, onde ministrava as Escrituras com autoridade e vigor, combatendo com notoriedade dogmas que considerava ‘blasfêmias abomináveis’. Seu trabalho foi reconhecido pelo rei Eduardo VI e o reformador e arcebispo Thomas Cranmer, de quem se tornou amigo e confidente.

Uma das peculiaridades da Reforma era a total dependência de apoio político aos anseios de mudança religiosa. Com a morte de Eduardo VI e a ascensão de Mary Tudor, católica fanática, ao trono em 1553, Knox se viu obrigado a fugir para a França. Posteriormente, passou por Genebra, onde recebeu o apoio de Calvino. Em julho de 1554 ele escreveu abertamente contra a rainha e seus aliados em ‘A Faithful Admonition to the Professors of God’s Truth in England’ (Admoestação Fiel aos Adeptos da Verdade Divina na Inglaterra), obra que caracteriza o início do ativismo político de Knox.

(...) Sua ousadia resultou na convocação para prestar esclarecimentos perante o Conselho do Clero Católico de Edimburg. Contudo, a essa altura as pregações combativas de Knox haviam causado tanto impacto entre os escoceses que o Conselho foi forçado a abandonar o caso. Então, com o apoio da nobreza, John Knox buscou a rainha Mary, da Escócia, a fim de tentar convencê-la a reformar a igreja escocesa.

A despeito de sua enérgica argumentação, a rainha permaneceu inflexível aos seus apelos, o que despertou uma relação aguerrida. Knox começou a demonstrar extrema repulsa pela rainha e sua igreja e passou a convocar seus amigos e ouvintes a se reunirem em suas casas em vez de frequentar as catedrais.

(...)

Depois, em seu retorno ao país de origem, Knox se associou a outros reformadores e nobres a fim de consolidar a reforma escocesa. Contudo, enquanto os demais tinham interesse em apenas ‘podar os galhos’ do papado, Knox ansiava abater suas raízes, como comparou Stewart Lamont na obra ‘The Swordbearer: John Knox and the European Reformation’ (p. 160).

Sem descansar de seu objetivo, Knox buscou em Elizabeth I o suporte necessário contra uma aliança entre Maria de Guise, regente da Escócia, e a França. Depois de muito esforço diplomático, Elizabeth apoiou os reformadores e assinou o Tratado de Berwick em fevereiro de 1560 (‘John Knox: A Biography’, p. 237).”


Em suma, John Knox provocou mudanças não apenas na religião, mas na vida política e social.

A História registra que Maria Stuart, rainha da Escócia, temia mais as orações de John Knox do que todos os exércitos da Inglaterra.

Isso nos leva à seguinte compreensão: para o cristão, o ativismo político deve estar profundamente enraizado numa dimensão espiritual. Em outras palavras, seria uma espécie de Teologia Política.

Knox era um homem culto. Na universidade, estudou profundamente a obra de Agostinho. Ele é reconhecido inclusive com uma grande estátua localizada na Universidade New College, em Edinburgh. Todavia, o reformador escocês aliou a intelectualidade com o fervor espiritual, refinou seus estudos no fogo do Espírito Santo, e por isso teve êxito em operar tão grande obra em sua nação.

A própria Bíblia Sagrada nos demonstra que, na cosmovisão cristã, o exercício político é realizado em plena comunhão com Deus.


“Então Davi consultou o SENHOR: ‘Devo atacar os filisteus?’, indagou ele. ‘Tu os entregarás nas minhas mãos?’ E Yahweh respondeu a Davi: ‘Ataca! Certamente entregarei os filisteus nas tuas mãos!’”

(2 Samuel 5:19)


Ou seja, antes de decidir tomar uma ação política em seu reinado, Davi consultava o Senhor.

Seguindo o exemplo do seu pai, o rei Salomão considerava impossível governar bem sem o auxilio divino.


“Salomão respondeu: ‘Ó Deus, tu foste extremamente bondoso para com o meu pai, David, e agora deste-me o reino. Só pretendo, ó Senhor Deus, que as tuas promessas se confirmem! A tua palavra, dirigida a meu pai, David, concretizou-se e fizeste-me rei sobre um povo tão numeroso como o pó da terra! Dá-me agora sabedoria e conhecimento para conduzi-lo com competência. Pois quem seria capaz de governar uma tão grande nação como esta?’

Deus respondeu-lhe: ‘Sendo que o teu maior desejo é seres capaz de servir este povo e que não pretendeste nem riquezas nem honras pessoais, nem pediste que amaldiçoasse os teus inimigos, nem tão-pouco que te desse uma longa vida, mas sabedoria e conhecimento para guiar o meu povo, concedo-te o que me pediste, e ainda te darei tantas riquezas, prosperidade e honras como nenhum outro rei antes ou depois de ti! Não haverá depois de ti outro semelhante em toda a Terra!’”

(2 Crônicas 1:8-12)


Para citar um outro exemplo histórico, temos o caso do evangelista Billy Graham, que foi conselheiro de diversos presidentes dos Estados Unidos. Sua proximidade com os mandatários norte-americanos começou com Harry Truman (1945-1953), passou por Richard Nixon (1969-1974) e terminou com Barack Obama (2009-2017). Também foi muito próximo de George H.W. Bush (1989-1993) e influenciou na mudança de vida e costumes de seu filho George W. Bush (2001-2009). Além disso, também se reuniu para aconselhamento da rainha Elizabeth II (tal episódio inclusive é apresentado na série “The Crown”).

Para disseminação e consolidação desse conceito, defendo que deva existir uma disciplina à parte dedicada exclusivamente a tão caro tema: a Teologia Política.

As Escrituras são uma só, pois apesar dos 66 livros, há uma linearidade de pensamento de Gênesis e Apocalipse. Contudo, como gomos de uma tangerina, há as mais diversas matérias para dar luz a assuntos específicos, como por exemplo Cristologia, Pneumatologia, Escatologia, Literatura Joanina, etc. Portanto, dedicar-se à Teologia Política não seria novidade no sentido de inclinar-se a uma parte do todo, sem esquecer o todo.

Para aperfeiçoamento e edificação do Corpo de Cristo, a Teologia Política deve estar entre nós a fim de tratar desse tema de tamanha magnitude, não só para os cristãos, mas para a sociedade como um todo.



(Referências bibliográficas: https://www.revistaadventista.com.br/reforma-500/john-knox/; https://apmt.org.br/john-knox-o-missionario-destemido/; https://www.google.com.br/amp/s/gauchazh.clicrbs.com.br/mundo/amp/2018/02/conselheiro-da-rainha-elizabeth-ii-e-de-presidentes-dos-eua-pastor-billy-graham-morre-aos-99-anos-cjdx7oz29009701qxgl9m514t.html; https://www.google.com.br/amp/s/veja.abril.com.br/mundo/morre-billy-graham-pastor-e-conselheiro-de-presidentes-dos-eua/amp/)



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