TEOLOGIA NA RUA

Teólogos, saiam de suas cátedras e andem nas ruas para fazer teologia mais excelente.

E, quando digo “teólogos”, não me refiro apenas aos que possuem diploma, mas sim aos que se propõem a fazer teologia.

E fazer teologia está ao alcance do mais singelo dos seres.

Martinho Lutero, cabeça da Reforma Protestante, escreve:


“Deus está fazendo das aves nossos professores e mestres. É uma grande e permanente vergonha para nós o fato de, no evangelho, um frágil pardal se tornar teólogo e pregador para o mais sábio dentre os homens.”


Um pássaro pode ser teólogo, portanto.

Será que não estamos nos fechando no nosso universo do tamanho de uma casca de noz enquanto o mundo padece?

À época do Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII declarou:


“Vou abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa.”


Abrir as portas e janelas para deixar que a brisa fresca entre na casa e, ao mesmo tempo, que a poeira e o mal odor saiam.

É necessário que os teólogos andem nas ruas para a partir disso empunhar as penas e fazer teologia.

Para ver que os pobres estão no relento, com a barriga roncando, invisíveis à sociedade apressada.

Como falar de Calvino àquele que necessita de pão?

Não que citar as grandes mentes iluminadas sejam em vão, mas temos que compreender que o pão físico é urgente e necessário tanto quanto o pão espiritual. Aliás, Jesus vê o ser humano pela sua inteireza, e não deixa o físico pra depois com a justificativa de que o espiritual é mais primoroso. Tanto é que ele condena o sacerdote e o levita (que estavam inseridos no contexto religioso) por negarem auxílio ao necessitado, enquanto o bom samaritano (considerado inimigo pelos judeus) foi elogiado pela sua atitude piedosa (cf. Lucas 10:30-37).

Lembremos:


“A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como sincera e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e, especialmente, não se deixar corromper pelas filosofias mundanas.”

(Tiago 1:27)


É necessário que os teólogos andem nas ruas para ver o lixo espalhado pela cidade, a poluição sufocando a todos e a Terra gritando por cuidado.

Na encíclica “Laudato Si’”, o Papa Francisco relata:


“A crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior. Entretanto temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático frequentemente se burlam das preocupações pelo meio ambiente. Outros são passivos, não se decidem a mudar os seus hábitos e tornam-se incoerentes. Falta-lhes, pois, uma conversão ecológica, que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa” (LS 217).


A conversão ecológica é ordenança divina.


“E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar.”

(Gênesis 2:15)


Será que temos guardado o jardim de Deus?

Será que, como Igreja, temos respondido às questões propostas pelo mundo?

O crítico da revolução francesa, o britânico Edmund Burke (século 18) alertava acerca da mentira que é a crença em se transformar o mundo a partir de “closet theories” (teorias de gabinete), conforme termo cunhado por ele.

Fazer teologia do trabalho dentro de uma sala com ar condicionado é uma coisa. Fazer teologia do trabalho no chão de fábrica é outra coisa.

Se negarmos o contato com o mundo exterior em prol de um labor teológico como ratos de biblioteca, além de produzirmos conteúdos desprendidos da realidade, corremos o sério risco de nos tornarmos reclusos em nosso universo do tamanho de uma casca de noz, utilizando o termo shakesperiano. Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”. Foi essa fala de Hamlet, obra do dramaturgo inglês William Shakespeare.

Em dado momento, o Papa Francisco fez o alerta: sejam sacerdotes próximos do povo e não de laboratório teológico. Em suas palavras: Sejam pastores do povo. Próximos ao povo do qual vocês vêm. Não sejam sacerdotes de laboratório teológico, não. Padres do povo, com o cheiro do povo, com o cheiro do rebanho.

Essa mentalidade de isolamento, como um João Batista às avessas (pois o profeta se isolou no deserto, porém, logo voltou para a proximidade com o povo), é uma tentação antiga para os teólogos. Não sem motivo o romancista inglês G.K. Chesterton ponderou:


O homem não é um balão que sobe ao céu nem uma toupeira que vive unicamente cavando na terra, mas antes algo semelhante a uma árvore, cujas raízes se alimentam da terra enquanto os ramos mais altos parecem subir quase até às estrelas.

(CHESTERTON, G. K. In: St. Thomas Aquinas, The Dumb Ox. New York: Dover Publications, 2009, p. 107)


Evidentemente, devemos pensar nas coisas do Alto, conforme orientação paulina. Contudo, não a ponto de nos descolarmos da realidade que nos cerca.

O filósofo inglês David Hume constatou que a origem do conhecimento humano está alicerçada na profunda experiência com o cosmos.


Adão, ainda que supuséssemos que suas faculdades racionais fossem inteiramente perfeitas desde o início, não poderia ter inferido da fluidez e transparência da água que ela o sufocaria, nem da luminosidade e calor do fogo que este poderia consumi-lo. Nenhum objeto jamais revela, pelas qualidades que aparecem aos sentidos, nem as causas que o produziram, nem os efeitos que dele provirão; e tampouco nossa razão é capaz de extrair, sem auxílio da experiência, qualquer conclusão referente à existência efetiva de coisas ou questões de fato.

(HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento humano. São Paulo: Unesp, 2003)


Nesse sentido, o pleno conhecimento de determinado elemento se dá pela experiência com o mesmo. Como produziremos teologia sobre a criação, para as criaturas, sem termos contato com a mesma?

Por isso, brada-se: teólogos, saiam de suas cátedras e vão às ruas!



(Referências bibliográficas: https://lagoinha.com/lagoinha-news/55983/um-antidoto-para-a-ansiedade; https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2014/04/25/interna_mundo,424696/amp.shtml; https://laudatosimovement.org/pt/news/o-melhor-resumo-da-laudato-si/; https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0609201017.htm; https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/universo-numa-casca-de-noz-um-app-curiosos/; https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2022-05/papa-francisco-sacerdotes-povo-comunidade-pio-romeno.html; https://descomplica.com.br/gabarito-enem/questoes/2020/primeiro-dia/segundo-o-autor-qual-e-origem-conhecimento-humano/)



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