A RAZÃO COMO ATRIBUTO DIVINO
Os atributos de Deus nos são revelados nas Sagradas Escrituras e também podem ser constatados mediante a observância do cosmos.
(Imagem: “Deus, o Pai”, de Cima da Conegliano, 1515)
Ora, se os atributos revelados na Palavra não pudessem ser ratificados através da experimentação do que existe, logo tais atributos seriam subjetivos de um Ser que se dá a conhecer apenas por meio da retórica.
Vejamos o que o apóstolo João nos revela a respeito de um atributo divino mister:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.”
(João 1:1-3)
O “discípulo amado” argumenta que Jesus é o Verbo pelo qual o cosmos foi criado. No original em grego, a palavra utilizado para designar “Verbo” é “logos”. Este termo era muito significativo na cultura grega - a qual João estava inserido -, e foi aproveitado pelo apóstolo para classificar um atributo de Deus: a racionalidade.
Para Heráclito, o “logos” é a razão que domina todo o universo e que faz possível a existência de ordem e regularidade no acontecimento das coisas. Para o filósofo, “logos” também está presente em nós e que deve servir para guiar-nos na nossa conduta e como instrumento para o verdadeiro conhecimento.
Portanto, quando João utiliza o termo “logos”, ele pega emprestado o arcabouço conceitual do termo conforme a filosofia grega para aplicar à figura de Cristo.
Aqui possuímos dois conceitos importantes:
1 – Cristo é a própria inteligência que se observa na criação;
2 – Tal inteligência também está presente no ser humano, e guia-o rumo à verdade.
Acerca do primeiro aspecto, a ciência já constatou que se a Terra estivesse mais próxima do Sol, a densidade da atmosfera causaria um efeito estufa. A temperatura provavelmente aumentaria para 480 °C e ocorreria um efeito semelhante às temperaturas abrasadoras de Vênus.
A superfície seria coberta por planícies atravessadas por montanhas desertas e a temperatura seria tão alta que os oceanos se extinguiriam. Isso significaria a falta de água e o fim de todos os processos vitais do planeta.
Se a Terra estivesse mais próxima do Sol, os campos gravitacionais da estrela leste atrairiam a Terra cada vez mais.
Dependendo da redução na velocidade da órbita, haveria períodos prolongados de luz nos quais os dias seriam mais longos e os anos mais curtos.
Isso é proporcional à segunda teoria da lei de Kepler, que afirma que “a velocidade orbital de qualquer planeta é inversamente proporcional à sua distância do Sol”.
Em suma, há uma inteligência por detrás da criação, o que muitos chamam de “design inteligente”. Seria como observar um relógio com sua fluída funcionalidade (engrenagens, ponteiros, bateria, etc.). Uma imediata constatação seria que tal objetivo não surgira “ex nihilo” (locução latina que significa “do nada”). Algum ato inteligente e intencional dera origem a singular objeto.
Já a respeito do segundo aspecto (o “logos” em nós), significa o que nas palavras do teólogo alemão Karl Rahner (1904-1984) vemos como “existencial sobrenatural”, isto é, uma abertura ontológica para o transcendente presente no ser humano.
O escritor inglês C.S. Lewis (1898-1963) disse:
“Os homens tornaram-se cientistas porque esperavam encontrar lei na natureza, e esperavam encontrar lei na natureza porque criam um Legislador.”
O ímpeto do ser humano de buscar respostas (averiguar as leis) dá-se porque o próprio Legislador assim o permitiu.
No livro “O Amor às Letras e o Desejo de Deus”, Jean Leclercq dissertou:
“Compreender as coisas é aprender a relação que elas têm com Cristo.”
O nível de intelectualidade trabalhado nesse sentido seria uma própria manifestação de adoração a Deus, simplesmente pelo fato de demonstrar interesse no que dele proveio.
Há muito se aplicou uma hermenêutica equivocada em cima do versículo “a letra mata e o espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6), como se houvesse uma aparente disparidade entre a piedade e a intelectualidade. Na verdade, o núcleo argumentativo de Paulo nesse contexto é que a aplicação das Escrituras sem o devido entendimento proporcionado pelo Espírito (em outras palavras, a “iluminação” para ter acesso e compreender a “revelação”) leva a uma conduta errônea que causa danos tanto ao indivíduo em si quanto a outrem.
Grandes heróis da fé que foram precursores de moveres extraordinários também eram homens dados aos estudos. Em 1760, em uma carta ao seu discípulo John Trembath, o avivalista inglês John Wesley escreveu:
“O que tem lhe prejudicado excessivamente nos últimos tempos e, temo que seja o mesmo atualmente, é a carência de leitura. Eu raramente conheci um pregador que lesse tão pouco. E talvez por negligenciar a leitura, você tenha perdido o gosto por ela. Por esta razão, o seu talento na pregação não se desenvolve. Você é apenas o mesmo de há sete anos. É vigoroso, mas não é profundo; há pouca variedade; não há sequência de argumentos. Só a leitura pode suprir esta deficiência, juntamente com a meditação e a oração diária. Você engana a si mesmo, omitindo isso. Você nunca poderá ser um pregador fecundo nem mente um crente completo. Vamos, comece!
Estabeleça um horário para exercícios pessoais. Poderá adquirir um gosto que não tem; o que no início é tedioso, será agradável, posteriormente. Quer goste ou não, leia e ore diariamente. É para sua vida; não há outro caminho; caso contrário, você será, sempre, um frívolo, medíocre e superficial pregador.
Faça justiça à sua própria alma; dê-lhe tempo e meios para crescer. Não passe mais fome. Carregue a sua cruz e seja um cristão no verdadeiro sentido da palavra. E então, todos os filhos de Deus se regozijarão (e não se afligirão) consigo; e particularmente.”
Ter uma boa biblioteca em casa é como ter uma boa farmácia. Certamente, você não irá ingerir todos os medicamentos de uma só vez. Porém, eles estão à disposição para quando for preciso. Assim são os livros: você pode não ter lido todo o conteúdo de suas estantes e prateleiras, mas ele deve estar lá, acessível para consultas.
Nesse caso, cito Lewis novamente:
“Não existe uma xícara de chá grande o suficiente ou um livro longo o suficiente para me satisfazer.”
Por fim, ressalta-se que o conhecimento de Deus mediado por aqueles que já trilharam uma digna jornada (seria como observar o horizonte sob o ombro de gigantes) é digno é necessário. Todavia, não pode-se esquecer que o próprio sujeito também deve lançar-se em tão nobre atividade, sem jamais esquecer-se que “Teologia se faz de joelhos”.
No livro “Inteligência Humilhada” (pág. 53), o pastor e filósofo Jonas Madureira relata:
“Se você acha que é um conhecedor de Deus apenas porque sabe o que Agostinho pensava sobre Deus, o que Dionísio, o Aeropagita, pensava sobre Deus, o que Boécio pensava sobre Deus, o que Tomás de Aquino pensava sobre Deus, o que Guilherme de Occam pensava sobre Deus etc., então o que você sabe é apenas o que os outros pensam sobre Deus. Mas e você? O que você pensa sobre Deus a partir de sua experiência com ele e as Escrituras? Para falar apropriadamente sobre Deus, é preciso encarnar uma postura que Agostinho chamou de ‘coram Deo’, ‘diante de Deus’. Ou seja, é preciso fazer teologia diante de Deus; escrever teologia diante de Deus; dar aulas de teologia diante de Deus; abençoar a igreja com pregações que são feitas para a igreja, mas diante de Deus; passar horas e horas quebrando a cabeça para entender teologia sistemática, mas diante de Deus. As coisas, porém, não são tão simples assim. Falar sobre o conhecimento que temos de Deus ‘na presença do próprio Deus’ requer a consciência da ‘humilhação’. O conhecimento de Deus é uma experiência que nos humilha. Por isso, nada é melhor para o desenvolvimento da mente do que o conhecimento de Deus.”
Encare seu labor intelectual como uma forma de adoração a Deus. Você não precisa escolher entre os estudos e as práticas espirituais (jejum, oração, leitura bíblica, etc.) porque, na verdade, o estudo em si já é uma prática espiritual quando consagrado e encarado dessa forma.
(Referências bibliográficas: https://diariodecaratinga.com.br/eu-prefiro-ser-essa-metamorfose-ambulante/; https://maestrovirtuale.com/o-que-aconteceria-se-a-terra-estivesse-mais-proxima-do-sol/)
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