ANGÚSTIA E BUSCA DE SIGNIFICADO EM KIERKEGAARD
O teólogo dinamarquês Søren Kierkegaard (1813-1855) debruçou-se acerca da questão da angústia e busca de significado. Pudera, o chamado “Pai do Existencialismo” chegou a cursar teologia e filosofia da Universidade de Copenhague, a partir de 1830. Sendo a angústia um tema do universo de preocupação teológico, é mais do que justificável a dedicação e labor intelectual de Kierkegaard neste quesito.
Para Kierkegaard, há ao menos quatro estágios para a busca de significado e, consequentemente, supressão da angústia no ser (o que veremos, ao chegar no quarto ponto, que se trata de algo impossível de erradicar).
O primeiro seria a sensação (do grego “aisthésis”). Outrora, a busca pela sensação (ou impacto estético) se daria no Coliseu, onde o povo se distraía mediante a política do “Panem te circenses” no auge do Império Romano. Posteriormente, já numa era pós-moderna, poderíamos usar como metáfora a figura do Homer Simpson vegetando diante de sua televisão. Ou então uma viagem que proporcionaria pular na cabeça de um vulcão. Atualmente, esse impacto estético não se trata de questões vistas como hobbies ou lazer, isto é, extralaborais. As empresas possuem como filosofia tanto proporcionar uma “experiência” benéfica para o cliente (como alguém que vai na Disney e não apenas deseja voltar, mas indica o parque para seus amigos) quanto um ambiente que propicie aos funcionários uma boa “experiência” no local de trabalho (vide a forma que o Google é retratado no filme “Os Estagiários”, de 2013). Todavia, tal ponto não se restringe ao âmbito empresarial. As igrejas também devem proporcionar uma experiência aos fiéis, com sensações físicas e emocionais. Em suma, seria a constante busca por experiências em todos os âmbitos do cotidiano.
O segundo estágio seria a ética. A busca por uma vida rígida no tocante aos preceitos éticos e morais. O ser e o parecer ser ético. A consciência limpa que permite o sono e o estereótipo que gera aprovação e/ou respeitabilidade alheia.
O terceiro estágio consiste no religioso. A busca por significância e pertencimento em uma doutrina religiosa. E aqui abre-se o leque para além de um conceito puramente metafísico. Um partido político, por exemplo, pode ser encarado como tal viés religioso. Qualquer comunidade reunida com o propósito de “devoção” em torno de um mesmo objeto carrega este arcabouço.
O quarto estágio de Kierkegaard é o salto na fé. Trata-se da compreensão de que a angústia é ontológica, faz parte do ser, portento está enraizada no coração humano.
Agora, vamos aos contrapontos.
Qual seria o “pecado” (utilizando uma semântica teológica) em viajar, buscar uma experiência agradável enquanto cliente e ir ao templo religioso em vista de boas sensações? Na lógica kierkegaardiana, o errôneo reside em encarar tais episódios como uma maneira de preencher (ou ao menos suprimir) a angústia. Seria como buscar extinguir a sede ingerindo água do mar. Conforme o raciocínio, nenhum desses itens é capaz de sanar algo que é bem mais sério e profundo do que simplesmente “faça a viagem dos seus sonhos e seja feliz” - apesar do marketing constantemente vincular a resolução da angústia ao materialismo. Não é este o remédio para a angústia, tampouco ser bem tratado como cliente. Agora, quando se fala em matéria de fé, sabe-se que as experiências tem sua base bíblica e podem constituir a conduta piedosa de um indivíduo ou comunidade. Todavia, as experiências jamais devem ser encaradas como possibilidades de suprimirem a angústia, pois isso causaria um ciclo vicioso de busca-frustração desta característica ontológica. Nas palavras do reformador Martinho Lutero: “Fiz uma aliança com Deus... Que Ele não me mande visões, nem sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instruções abundantes. É tudo o que preciso conhecer, tanto para esta vida quanto para o que há de vir”. Para o monge, as experiências tinham um lugar que não o de substituir a convicção de fé.
Já no ponto da ética, trata-se de uma busca que já nasce frustrada, não porque o indivíduo não possa exercer o que é justo e correto, mas sim porque se for levado em consideração o inconsciente (numa linguagem psicanalítica freudiana), o pecado (linguagem teológica judaico-cristã) e o corrompimento (segundo o pensamento do filósofo francês Montesquieu), torna-se impossível o alcance de uma plenitude neste quesito.
Em relação ao pertencimento calcado na doutrina religiosa, se for isento de uma introspecção pessoal e resolutiva, no máximo geraria no indivíduo o alento efêmero proporcionado pela indução e “efeito manada”, conhecida característica psicológica. Além disso, dentro da própria comunidade doutrinária há fracassos, mentiras, hipocrisias, assim como em qualquer instituição humana. A santidade encarada com expectativa de sinônimo de perfeitabilidade gera a frustração na articulação da vida comunitária. A ótica equivocada para esta realidade leva ao desespero - e o mesmo se aplica aos outros estágios.
O ideal, no pensamento de Kierkegaard, seria de fato dar o “salto na fé”. Isto é, compreender a angústia como algo que, conforme o pensamento no arcabouço teológico judaico-cristão, tornou-se um elemento intrínseco no ser humano no contexto pós-Queda. O romancista russo Fiódor Dostoiévski escreveu: “Há no homem um vazio do tamanho de Deus”. Compreender que a busca por essa erradicação da angústia não deve ser encampada a partir do que chamamos de realidade física e material, mas sim na transcendência - não nos esqueçamos que Kierkegaard era pastor e teólogo -, seria o salto na fé necessário para achegar-se no Ser que é anterior ao cosmos (que é imperfeito e insuficiente, até mesmo se formos levar em consideração o pensamento platônico), satisfeito em si mesmo e originário do que chamamos de existência.
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