APARENTES CONTRADIÇÕES NOS ATRIBUTOS DIVINOS
Karl Barth foi um teólogo reformado suíço que é muitas vezes considerado o maior teólogo protestante do século XX. Sua influência expandiu-se muito além do domínio acadêmico, chegando a incorporar a cultura, o que levou a Barth ser apresentado na capa da revista Time em 20 de abril de 1962. Ele definia Deus como “o totalmente Outro”, isto é, o Ser divino consiste em alguém integralmente além do que possamos definir com palavras ou mediante a lógica humana. Tal característica explica o porquê Deus pedira para Abraão subir ao Monte Moriá e sacrificar Isaque, o filho da promessa - o que sabemos que não foi consumado, pois o intuito divino seria averiguar até onde ia a fé daquele que seria chamado justamente de “Pai da Fé” (cf. Gênesis 22).
Por fim, ao mesmo tempo em que vemos o salmista extasiado com o poder de Deus (“Ele governa para sempre com o seu poder, seus olhos vigiam as nações; que os rebeldes não se levantem contra ele!” - Salmos 66:7), assombram-se as nações com a imagem do Deus crucificado (cf. Is 53:5-7). Como convergir o atributo do poderio divino com tamanha humilhação no madeiro? Talvez os dizeres de São Leão Magno findam essa questão: “Tão humano assim, só podia ser Deus”.
Dito isso, podemos inferir que demasiados aspectos que integram a natureza divina podem nos parecer impactantes e conflituosos à primeira vista. Um claro exemplo é quando Jesus é chamado de Cordeiro de Deus em João 1:29 e João 1:36 (em alusão ao fato de que Ele é o sacrifício perfeito e definitivo pelo pecado). Todavia, em Apocalipse 5:5, há uma clara referência a Cristo como sendo o “Leão de Judá”. Ora, portanto Deus seria “cordeiro” e “leão”? Como dois arquétipos (aproveitando-se do termo da psicologia jungiana) de dois animais tão díspares podem conviver em harmonia na natureza divina?
João nos afirma que “Deus é amor” (1 Jo 4:8). Porém, Paulo também ressalta: “Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou” (Rm 1:18-19).
Talvez tenhamos dificuldade de compreender como elementos tão díspares se encaixam perfeitamente no Ser que é perfeito primeiro porque Ele é “o totalmente Outro”; e segundo que o pecado em nós naturalmente nos leva à dicotomia.
Entretanto, devemos clamar ao Espírito para que as escamas caiam de nossos olhos e, dessa forma, possamos expandir nossa visão a respeito de Deus e seus atributos.
Tais aparentes contradições, na verdade, não o são. Tratam-se de atributos divinos, que não se opõem, mas se completam em Sua natureza.
E o mais interessante é que, por termos sido criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1:26-27), tal dialética tamanha pode ser observada no próprio ser humano.
O teólogo anglicano Richard Sibbes (1577-1635) escreveu:
“O cristão é uma pessoa estranha. Ele está tanto morto como vivo, é miserável e glorioso... Dirige-se para baixo e para cima ao mesmo tempo; pois, à medida que ele morre para o pecado e miséria, e a morte natural aproxima-se, vive a vida da graça e cresce cada vez mais até alcançar a glória.”
O próprio Talmude (texto central do judaísmo rabínico, que alicerça todas as leis e rituais judaicos) já ensinava: uma pessoa deveria andar com dois bilhetes, um em cada bolso. No primeiro estaria escrito “para mim o mundo foi criado”. No segundo, “sou feito de pó”. Saber a qual bolso recorrer a cada momento é a maior das sabedorias.
Que não se confunda tal dialética e atributos divinos com o modalismo, que consiste numa antiga heresia trinitária a qual dizia que as três pessoas da Trindade só são três modos ou uma máscara que Deus vai trocando. Segundo essa heresia, às vezes Deus está no Pai, às vezes muda ao modo Filho, e outras vezes Deus está no modo Espírito Santo; e só pode estar em um modo por vez. Na verdade, o ensinamento correto é que as pessoas da Trindade existem eternamente e ao mesmo tempo. Isto é, Deus não escolhe ora se manifestar como cordeiro (no sentido de arquétipo), ora como leão; ora despeja sua ira, ora é amor. Em suma, todos esses itens são atributos de Deus e fazem parte de Sua natureza.
O ser humano também é convidado a exercer o equilíbrio quanto a essa questão: nem humilhado a ponto de esquecer a filiação divina, nem exaltado a ponto da vaidade corroer o coração. Assim como em Cristo encontramos o perfeito equilíbrio, que nEle possamos nos espelhar.
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