IMAGÉTICA BÍBLICA E O APARELHO PSÍQUICO
A literatura bíblica nos fornece episódios, figuras e locais de tamanho cunho extraordinário que desafia os limites de nossa mente e, por isso, suscita a imaginação.
O profeta Ezequiel descreve a visão de um ser angelical:
“Cada um dos querubins tinha quatro faces: Um rosto se assemelhava ao de um boi, isto é, querubim; o segundo, de um homem, o terceiro de um leão, e o quarto, de uma águia.”
(Ez 10:14)
Não diria que jamais ser humano algum teve a oportunidade de vislumbrar tão magnífico ser, pois dessa forma desprezaria as experiências de fé registradas nas Escrituras e ao longo da História. Todavia, certamente não se trata de algo que faça parte do cotidiano, do viver ordinário e da ótica de todo e qualquer indivíduo.
E qual seria o motivo de tais elementos imagéticos serem tão díspares do que estamos familiarizados? Karl Rahner, um dos mais influentes teólogos do século XX, elaborou o conceito acerca da Trindade Imanente e Trindade Econômica. A primeira seria o Pai, o Filho e o Espírito Santo como eles são, desde toda a eternidade, e sempre serão. Já a segunda seria a forma pela qual as três pessoas da Trindade escolheram se manifestar na História humana. Um claro exemplo é a figura do Filho. Ele sempre existiu (“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.” - João 1:1-3), mas se manifestou para a humanidade em dado momento histórico. Em suma, o Filho sempre existiu, mas Yeshua, filho de Maria e José, passou a existir em um ponto específico da jornada da humanidade. Não quer dizer que são duas pessoas distintas, mas apenas que Jesus como um judeu em Israel se encarnou em um ano definido no calendário. Aqui vale uma observação: apesar de que, a Bíblia nos relata que o Cristo, já em seu corpo glorificado após a ressurreição, possuía as marcas do processo de crucificação. Como diria o teólogo alemão Joseph Ratzinger, a segunda pessoa da Trindade agora possui o que não possuía antes: as marcas de sua trajetória humana.
Conforme dizem as Escrituras, a imagem que temos conhecida do Pai é a que vimos no filho. Tamanha foi a dificuldade de retratar a primeira pessoa da Trindade que o pintor renascentista Michelangelo recorreu a Zeus, deus mór da mitologia grega, para representar a face do Pai no afresco “A Criação de Adão”, no teto da Capela Sistina.
O apóstolo Paulo também constrói essa teologia do Deus que se dá a conhecer, mas não em plenitude, quando escreve: “Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido” (1 Coríntios 13:12).
Aliada à natural dificuldade de atingirmos uma visualização plena, há de se mencionar a funcionalidade do aparelho psíquico no tocante à formação de imagens. Vejamos o caso de Maria, por exemplo. Apesar da mãe de Jesus Cristo ser uma só, há uma gama de representações da mesma. Qual o motivo? A formação de uma imagem passa pelo subjetivo de quem a forma. Em Fátima, ela é retratada como uma mulher branca. Em Guadalupe, observa-se traços indígenas. No Brasil, a pele negra que remete à formação da identidade nacional e diálogo com os escravos que ainda padeciam em tempos de mazelas, mas mantinham a fé e a esperança. Isto é, cada representação possui estreita ligação com o local de origem.
Em 2001, para um documentário produzido pela BBC, o especialista forense em reconstruções faciais britânico Richard Neave utilizou conhecimentos científicos para chegar a uma imagem que pode ser considerada próxima da realidade. A partir de três crânios do século 1, de antigos habitantes da mesma região onde Jesus teria vivido, ele e sua equipe recriaram, utilizando modelagem 3D, como seria um rosto típico que pode muito bem ter sido o de Jesus. O resultado final foi bem diferente do Cristo com traços europeus que conhecemos graças às representações artísticas: cabelos e barba crespos de castanho-escuros a pretos, olhos castanhos, pele parda. Todavia, graças à repetição de representações de um homem muito mais típico da Europa do que do Oriente Médio, a imagem mais estabelecida e disseminada é o oposto do que apresenta a pesquisa - e a realidade em si. Contudo, parece que obras cinematográficas estão se prestando a corrigir esse fato em retratações atuais.
Sobre esse aspecto da imagem, o autor Glauco Magalhães Filho relata no livro “O Imaginário em As Crônicas de Nárnia” (pág. 30):
“Numa perspectiva menos religiosa e mais científica, Carl Jung considera Deus um arquétipo do inconsciente coletivo. Assim, muito embora não se pudesse provar a realidade do Deus transcendente, seria incontestável a existência, no mundo psíquico, do Deus imanente. Em outras palavras, Jung afirmou que independentemente da posição religiosa de cada um, a ideia de Deus está no inconsciente de todos.
Nos últimos dez anos de vida, Jung usou a expressão ‘Deus-imagem’ ou ‘imagem de Deus’ (seria a ‘imago Dei’ do cristianismo?) cerca de 166 vezes em seus escritos para designar o arquétipo de Deus no ser humano. Em suas obras, há mais de seis mil referências a ‘Deus’. Em ‘Resposta a Jó’, Jung explicou:
‘Encontramos inúmeras imagens de Deus, mas não podemos produzir o original. Não há dúvida em minha mente de que há um original por trás de nossas imagens, mas é inacessível. Não podemos nem mesmo estar a par do original, uma vez que sua tradução em termos psíquicos é necessária para fazê-lo perceptível, no fim das contas [...]. Por que deveríamos ser tão pouco modestos, supondo que podemos apanhar um ser universal nos estreitos limites de nossa linguagem? Sabemos que o Deus-imagem representa um grande papel na psicologia, mas não podemos provar a existência física de Deus. Como cientista responsável, não vou pregar minhas convicções pessoais e subjetivas, que não posso provar [...].’”
Em suma, nossa mente se presta à imaginação uma vez que, naturalmente, a resolução de uma imagem integralmente de acordo com a realidade configura-se em tarefa impossível, pois numa perspectiva teológica o Deus que se dá a conhecer esvazia-se de Sua glória para adentrar na História humana (conforme a “kenosis” de Filipenses 2); e numa perspectiva psicológica jungiana, a imagem do original é inacessível à mente humana.
(Referências bibliográficas: https://www.bbc.com/portuguese/geral-43560077.amp)
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