O SIMBOLISMO POLÍTICO NA RELAÇÃO IGREJA-ESTADO

Um dos pilares argumentativos do raciocínio político do filósofo e teólogo católico francês Blaise Pascal (1623-1662) é de que, para os governantes conseguirem levar a cabo a tarefa de justificar a manutenção de seu status (em outras palavras, legitimar o poder), a ferramenta para tanto seria o espetáculo. No raciocínio pascaliano, assim como os juízes e os médicos — que vestem roupas pomposas para ratificar a compreensão de que eles têm a ciência que seus postos predispõem (o que, para o filósofo em questão, não passava de uma farsa, pois estavam longe de possuir o conhecimento que aparentavam ter) —, os governantes rodeiam-se de toda parafernália possível para, desta maneira, impressionarem o comum dos homens.

Na Torá, o profeta Samuel unge o pastor Davi como rei da nação de Israel (cf. 1 Sm 16:13). Já no Novo Testamento, o apóstolo Paulo argumenta que “Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se opondo contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos” (Romanos 13:1-2).

Podemos trabalhar na Grécia Antiga se levarmos em consideração que Platão (428 a.C.-347 a.C.) entendeu o espectro político numa perspectiva que beirava a metafísica, ao imaginar um cenário de perfeição - em paralelo, seria a expectativa escatológica do cristianismo. A ideia de utopia, na “Politeia” do Platão (ou “A República”, como nós conhecemos mais a sua tradução latina de título), é uma utopia política em que Platão imagina uma sociedade que produziria seres praticamente perfeitos desde a reprodução humana a partir de meninas e meninos, rapazes e moças que seriam os mais bonitos e saudáveis (daí a noção de “eugenia”, a “bela geração”), e a ideia de que você teria portanto uma cidade que tomaria decisões de que pessoas que nasceram com uma alma para fazer sapatos seriam sapateiros, enquanto pessoas que nasceram com uma alma capaz de contemplar as ideias universais, plenas e belas seriam o Rei Filósofo, e isso faria com que todo mundo fosse, de alguma forma, eternamente feliz.

Ao longo do Império Romano, os imperadores levavam consigo o título de “Augustus”, que na tradução do latim significa divino. A adoração a suas estátuas de grandes proporções, como construíra Calígula, era justificável mediante a compreensão popular de que ali se encontrava mais do que um responsável por gerir os domínios de Roma, mas uma figura do panteão romano.

A oração “O Estado sou eu” (no original “L'État c'est moi”, em inglês “I am the State”) é atribuída ao Rei Luís XIV (1638-1715). Na conhecida charge “A fabricação do rei”,o rei Luís XIV, na França, teve sua imagem fabricada por um conjunto de estratégias que visavam sedimentar uma determinada noção de soberania. Isto é, demonstra-se a importância da vestimenta para a constituição simbólica do rei, pois o corpo político adornado esconde os defeitos do corpo pessoal. No Antigo Regime, os reis absolutistas faziam uso da representação simbólica para demonstrar o seu poder. Na charge, essa característica é bem representada, pois ao evidenciar uma figura do rei com roupas comuns e posteriormente com toda a indumentária típica dos reis absolutistas do período, demonstra que a vestimenta confere ao monarca toda uma distinção e soberania que se sobrepõe às suas características físicas.

A coroação de Napoleão Bonaparte como imperador da França aconteceu em 2 de dezembro de 1804, na Catedral de Notre-Dame, em Paris. A cerimônia foi marcada pelo luxo e grandiosidade, simbolizando o poder do novo imperador. Ao escolher Notre-Dame, Napoleão quis mostrar que a sua coroação diferenciava-se das outras ocorridas na França durante o Antigo Regime, as quais aconteceram na Catedral de Remis, na capital francesa.

Ao ser coroado em uma catedral, Napoleão mostrou que seu governo seria próximo da Igreja Católica. Durante a Revolução Francesa, a Igreja foi atacada por propagandas dos revolucionários e por ações violentas contra seus templos. A própria Catedral de Notre-Dame suspendeu suas atividades religiosas por conta da revolução. De acordo com o costume das coroações anteriores, era o papa quem coroava o novo imperador, demonstrando que o poder espiritual sobrepunha-se ao terreno.

No entanto, a coroação de Napoleão rompeu com essa tradição. Ele mesmo colocou a Coroa em sua cabeça e, em seguida, coroou sua esposa Josefine ao invés do Papa Pio VII. Invertendo a ordem dos poderes, ele mostrou que, durante seu comando à frente do império francês, a Igreja estaria sob o comando do imperador.

Apesar dessas significativas mudanças na coroação de Napoleão, ele trouxe de volta algumas lembranças dos impérios romano e carolíngio. Ele utilizou duas coroas na cerimônia: uma aos moldes romanos e outra aos moldes carolíngios. Logo após sua autocoroação, Napoleão fez o juramento ao Evangelho, e, em seu discurso, exaltou os feitos da Revolução Francesa.

Reconhecendo a importância daquele momento para a História e querendo que ele fosse perpetuado, Napoleão Bonaparte chamou o pintor neoclassicista Jacques-Louis David para fazer a pintura de sua coroação. Nela se observa o novo imperador de costas para o papa enquanto coroava sua esposa, um gesto de superioridade do seu poder sobre o poder da Igreja.

De certa forma, este gesto simbólico de Napoleão marca uma crise na relação Igreja-Estado. Afinal, se havia a necessidade da ratificação por parte desta última esfera a fim de legitimar a primeira, o imperador francês demonstrou que seu poderio militar e carisma político eram suficientemente necessários para tanto.

Ademais, o fato de Bonaparte ter convocado Louis-David para eternizar o momento fortalece a questão da necessidade do símbolo na política. Da mesma forma, para o filósofo e teórico político Edmund Burke (1729-1797), a necessidade do símbolo estava ligada inclusive a uma questão de manutenção da moralidade. A moral, segundo Burke, é uma experiência ancestral. Na cena em que Burke imaginou, estaria impregnada em todo o cenário do que significava uma rainha. Nesse trecho, Burke diz algo que vai ficar muito famoso na reflexão sobre moral: “No momento em que o povo perceber que uma rainha é só uma mulher, logo perceberão que a mulher é só um animal”. O que Burke quer dizer é que, no momento em que o povo invade os aposentos da rainha, destrói tudo e perde o respeito pela figura da rainha, eles terão descoberto que a rainha é só uma mulher, e esse será o passo definitivo para perceber que uma mulher (representante do gênero humano, e não apenas da figura feminina) não passa de um animal. Portanto, os seres humanos são animais como qualquer outro, neste raciocínio que leva à cabo a destruição do símbolo.

A necessidade do símbolo e da liturgia é incomparável quando levadas em consideração as esferas política e religiosa. Peguemos, por exemplo, a eleição de um novo papa. O “Habemus Papam” (expressão em latim que significa “temos um papa”) é anunciado a partir da fumaça branca que emerge da chaminé do Vaticano. Mesmo com outras possibilidades mais modernas e tecnológicas, a tradição da chaminé se mantém. O sistema do forno de ferro foi usado pela primeira vez para a eleição do Papa Pio XII em 1939. Desde então, foi utilizado mais sete vezes: em 1958 (Papa João XXIII), 1963 (Papa Paulo VI), 1978 (Papa João Paulo I), 1978 (Papa João Paulo II), 2005 (Papa Bento XVI) e 2013 (Papa Francisco). Cada uma dessas datas está gravada em algarismos romanos no fogão. Nesse sentido, a liturgia não apenas relembra a todos que se trata de um ato remoto, mas emprega gravidade ao mesmo.

No quadro “Independência ou Morte” (1888), o artista Pedro Américo retratou os soldados chamados de Dragões da Independência. Só que há um porém: os guardas não estariam usando uma farda tão pomposa. Os Dragões da Independência só adotaram o uniforme representado na pintura mais de cem anos depois, em 1926. Por que retratá-los daquela forma, então? A fim de ratificar o momento histórico, isto é, demonstrar que o poder estatal estava de acordo com a independência da nação brasileira, e não que se tratava de um ato isolado ou de rebeldia.

Acerca desse quesito da importância do imaginário, o autor Glauco Magalhães Filho relata no livro “O Imaginario em As Crônicas de Nárnia” (pág. 63):


“Desde o século passado, os sociólogos têm feito dos chamados ‘imaginários sociais’ um foco de grande interesse intelectual. As instituições sociais já não são vistas como meras reproduções de ideias imóveis de um mundo transcendente, mas como criações culturais do ser humano a partir de valores que funcionam como sua força motriz. Devem ser apreciadas e prestigiadas pela capacidade funcional de efetivar os valores que as inspiraram.

O imaginário cria novas realidades, e não há melhor exemplo disso que os imaginários sociais e políticos. O Direito, por exemplo, através de suas formalidades (ritos procedimentais, contratos solenes, prazos processuais, presunções de culpa e inocência, ficções legais etc.), estabelece um autêntico sistema simbólico.”


Retomando um pouco o raciocínio inicial de Pascal, de que os símbolos serviriam para legitimar um poder que nem sempre é positivo, esse pessimismo político pascaliano dialoga também com o pessimismo político visto em G.K. Chesterton. Segundo o teólogo inglês: “Duvido que os melhores homens algum dia se dediquem à política. Os melhores homens dedicam-se a porcos, bebês e coisas assim”.

Em suma, levando em conta esse pessimismo político, uma vez que as bases fundantes da esfera estatal são maculadas (pois, segundo Pascal, a formação político-social ocorre na relação entre dominadores e dominados, algo que beira uma sociedade de castas, ou o contexto social medieval, no qual observa-se uma imobilidade social), o que resta é a justificativa plausível da existência a permanência desse Estado, a qual se dá mediante o símbolo, a liturgia e legitimação metafísica.



(Fontes: https://estadodaarte.estadao.com.br/pascal-pessimismo-politico/; http://educacao.globo.com/provas/enem-2012/questoes/1.html; https://www.preparaenem.com/amp/historia/coroacao-de-napoleao-bonaparte.htm; https://pt.aleteia.org/2020/01/22/os-segredos-por-tras-da-fumaca-branca-e-preta-do-vaticano/amp/; https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/politica/audio/2021-09/quadro-mais-famoso-da-independencia-do-brasil-nao-retratou-realidade?amp)



(Imagem: “What makes the King?”, por William Makepeace. 1840)



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