SARTRE E O LIVRE-ARBÍTRIO
Para o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, o ser humano é condenado a ser livre, e a liberdade reside em escolher e aceitar as consequências de nossos atos. Podemos ainda escolher não escolher; podemos simplesmente não agir, não fazer nada. Porém, ao fazer isso, já estamos escolhendo.
Se o homem é livre para escolher, reside sobre si a responsabilidade por todo e qualquer ato.
Uma indagação inicial é: até que ponto vai essa liberdade humana?
Para o teólogo João Calvino, o homem não possui tamanha liberdade uma vez que é afligido pela “depravação total”. Para ele, a depravação é “total” no sentido de que afeta todas as partes de nosso ser — não somente o corpo, não somente as emoções, mas igualmente a carne, o espírito, a mente, as emoções, os desejos, os motivos e a vontade, juntos. Não somos tão maus quanto podemos ser, mas isso acontece apenas por causa da graça restringente de Deus. Nós mesmos somos totalmente corruptos, porque de uma maneira ou de outra o pecado contamina tudo que pensamos, desejamos e fazemos. Portanto, nunca tememos a Deus da maneira como deveríamos, nunca O amamos como deveríamos e nunca Lhe obedecemos com um coração completamente puro.
Outra indagação, na perspectiva calvinista: o homem sempre foi depravado a ponto de perder sua liberdade de escolha - pois, uma vez depravado, a escolha sempre irá pender para o mal - ou, em algum momento, essa liberdade era plena?
Vemos no livro de Gênesis que Deus orienta ao homem que não coma do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal pois, no dia em que fizesse isso, morreria (cf. Gênesis 2:17). Ora, se Deus orientou Adão e Eva de tal maneira, não teriam eles a escolha de não fazê-lo? Portanto, crê-se que nesse contexto pré-Queda o homem ainda possuía a liberdade de escolha, algo que foi perdido após a Queda, que foi o momento no qual o pecado entrou no mundo e no coração humano e, dessa forma, maculou as naturezas vitais do indivíduo (depravação total).
É interessante observar que, quando Sartre afirma que o homem está condenado à escolha, ele rompe com qualquer noção de metafísica ou transcendência, da mesma forma que Napoleão Bonaparte rompeu com a necessidade de legitimação do poder por parte do Igreja quando se autocoroou imperador da França, na Catedral de Notre-Dame, em 2 de dezembro de 1804. Ele mesmo colocou a Coroa em sua cabeça e, em seguida, coroou sua esposa Josefine ao invés do Papa Pio VII. Invertendo a ordem dos poderes, ele mostrou que, durante seu comando à frente do império francês, a Igreja estaria sob as rédeas do imperador.
A temática do livre-arbítrio também é exaustivamente trabalhada em “Macbeth”, tragédia de William Shakespeare que data provavelmente de 1606. É uma peça maldita, lembrada por muitas superstições, e recorrentemente adaptada para o cinema. A história se desenrola na Escócia, no século XI. Os generais Macbeth e Banquo retornam vitoriosos de um batalha. No caminho para casa, eles se deparam com três bruxas que fazem uma profecia: Macbeth se tornará barão e, depois, rei. E os filhos de Banquo serão os próximos soberanos. Assim que o primeiro presságio se concretiza e Macbeth é nomeado barão, a vontade de se tornar monarca ganha espaço no coração do general. Mas é Lady Macbeth quem mais demonstra avidez com a possibilidade de virar rainha. Perversa e ardilosa, ela convence o marido de que o assassinato do rei é um passo imprescindível para a realização da profecia. Antes do crime, Macbeth pensa em recuar – afinal, ele é parente próximo do rei, um líder bom e justo. Porém, sua esposa consegue persuadi-lo e ele executa o monarca com um golpe de punhal. O peso da coroa, no entanto, traz apenas tormento e insônia ao novo rei. Sofrendo de dores terríveis de consciência, ele é incapaz de usufruir o que almejou. Ao mesmo tempo, teme a perda do poder recém-conquistado. No decorrer da trama, Macbeth vai se tornando cada vez mais insensível, sujando cada vez mais suas mãos de sangue. Por outro lado, Lady Macbeth, tomada pela culpa, passa a ter alucinações perturbadoras e se suicida.
A peça teatral do dramaturgo inglês demonstra também um rompimento (ou desejo de rompimento) entre Igreja e Estado, esfera secular e esfera religiosa, poder estatal e poder eclesiástico, sendo que a metafísica e a transcendência são representadas pela profecia das bruxas que, por ter sido alvo de depósito de fé por parte de Macbeth e sua Lady, culmina em desgraça. Em suma, o enredo demonstra os infortúnios de basear a conduta política em aspectos metafísicos ou transcendentes.
Para Sartre, a liberdade de escolha é uma condenação. Para Calvino, uma pré-disposição da natureza humana, a qual só pode ser suprimida mediante a graça divina. Para Shakespeare, o livre-arbítrio seria o caminho racional e necessário para evitar fanatismos e devaneios.
E onde Deus se encaixa nessa história? Bom, se o homem é integralmente responsável pelas suas escolhas, Deus não teria culpa alguma nas más escolhas do ser humano. Como declara a Palavra: “Eis que hoje estou colocando diante de ti a vida e a felicidade perenes, ou a morte, destruição e infelicidade!” (Deuteronômio 30:15). Isto é, diante de dois caminhos, o homem tem livre-arbítrio para escolher o que melhor lhe convém. Todavia, eis a questão: e se Deus é soberano em cada detalhe do universo, inclusive na escolha humana? E se a predestinação vigora? E se o enredo da história humana já está escrita desde a fundação do mundo? Logo, Deus teria culpa em cada má escolha humana, que inclusive culmina em tragédias, infortúnios, maldições? Nesse sentido, a Bíblia é clara ao declarar que não há pecado algum no Deus que é três vezes santo (2 Cor 5:21, 1 Pe 2:22), e portanto o pecado seria de responsabilidade dos homens (Rm 3:23) ou dos anjos (2 Pe 2:4).
E como explicar e entender a relação entre a soberania divina e a responsabilidade humana? Esta é uma discussão de séculos da teologia. Mas o que se sabe é o que foi dito: jamais a origem ou culpabilidade do pecado é Deus. Por outro lado, toda boa obra que por ventura façamos, antes, vem de Cristo (Jo 15:5).
Crendo no livre-arbítrio ou na depravação total, o ideal seria a busca por uma conduta digna (ou virtuosa, conforme o termo aristotélico) nessa breve caminhada chamada vida, faça ela sentido (numa perspectiva metafísica), ou que não tenha sentido algum (levando em consideração o niilismo).
(Referências bibliográficas: https://www.netmundi.org/filosofia/2017/jean-paul-sartre-liberdade-na-escolha/amp/; https://ministeriofiel.com.br/artigos/o-que-e-a-depravacao-total/; https://www.conjur.com.br/2018-mai-06/embargos-culturais-macbeth-livre-arbitrio-nao-devemos-ouvir-profecias; https://www.britishcouncil.org.br/atividades/shakespeare-lives/escolas/dicas/macbeth)
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