AMAR A DEUS DE TODO O ENTENDIMENTO

Jesus nos deixou uma ordenança: “Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22:37). A palavra “entendimento” na original da Língua Grega consiste no termo “dianoia” (διάνοια). “Dianoia” é um termo usado por Platão para designar um tipo de conhecimento, particularmente conhecimento de assuntos matemáticos e técnicos. É o resultado, o processo, ou a capacidade, para o pensamento discursivo, em contraste com a apreensão imediata, que é a característica da “noesis”.

Em suma, a ordenança bíblica é que amemos a Deus não apenas com nosso coração (símbolo dos sentimentos, sensibilidade, vontade), mas também com o intelecto. Portanto, nossa fé deve também possuir um aspecto racional, no sentido da compreensão das Escrituras mediante a lógica, a sistemática e apreensão intelectual.

John Stott (1921-2011) foi um dos mais influentes nomes na teologia e da fé evangélica do século XX. Em 2005, ele foi indicado pela revista Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo. Ele afirmou: “Não nos é dada a liberdade de apresentar Cristo parcialmente (como homem mas não como Deus, sua vida e não sua morte, sua cruz mas não sua ressurreição, como Salvador mas não como Senhor). Nem ainda temos o direito de pedir uma resposta parcial (da mente mas não do coração, do coração mas não da mente, ou da mente ou do coração mas não da vontade). Não. Nosso objetivo é ganhar o homem todo para o Cristo total, e para isso é necessário o completo consentimento de sua mente, coração e vontade”. Nesse sentido, a exposição da Palavra deve ter o intuito não apenas de apelar ao emocional (experiências, lembranças, ímpetos), mas de maneira essencial à razão.

Priorizar a fé no estádio estético (do grego aisthesis, sensação, sensibilidade), utilizando o termo do universo kierkegaardiano, a despeito da fé enquanto entendimento, seria um desbalanceamento na prática cristã.

Compreender o racional nos desígnios divinos (“fides quae”) é essencial para o depósito da fé (“fides qua”).

O teólogo Rino Fisichella disserta acerca desse conceito:


“‘Fides qua’ indica o ato mesmo com o qual o fiel, sob a ação da graça, confia em Deus que se revela e assume o conteúdo da revelação como verdadeiro. ‘Fides quae’ indica o conteúdo da fé que é aceito pelo fiel, as diversas verdades de fé que são acolhidas ou cridas como uma só coisa, em um só ato.”


Um exemplo clássico consiste na ordenança divina ao povo hebreu de não ingerir carne suína (cf. Levítico 11:7-8). Sem a devida contextualização histórica e exercício exegético e hermenêutico, uma indagação acerca da procedência de tal ordenança pode naturalmente surgir. Todavia, há de se vislumbrar o cenário: o povo hebreu era essencialmente peregrino, isto é, caminhava de maneira consistente na região árida do Oriente Médio. Levar carne suína durante essas peregrinações, sob temperaturas elevadas e ainda mediante a ausência de materiais adequados de cozimento, fatalmente acarretaria no óbito de quem a ingerisse. Afinal, é comum quando se fala em carne suína na contaminação de cisticercose no organismo - doença normalmente atribuída a este alimento e causada pela ingestão dos ovos de microrganismos presentes nessa carne -, infecção causada pelos cisticercos (larvas) da “Taenia solium”, que também causa teníase. Essas larvas, uma vez ingeridas, ligam-se ao intestino delgado pelo seu escólex e tornam-se tênias adultas em cerca de dois meses meses. Portanto, é plenamente compreensível a precaução divina em relação ao seu povo. E o mesmo raciocínio se aplica a todos os demais mandamentos, desígnios e ordenanças divinas - isto é, sempre há uma lógica por detrás de cada conceito doutrinário.

Amar a Deus com todo o nosso entendimento é essencial tanto para a maturidade requerida na segunda carta petrina quanto em relação ao testemunho para outrem.



(Referências bibliográficas: http://www.philosophypages.com/dy/d5.htm; http://berakash.blogspot.com/2020/06/fides-qua-fe-em-que-e-fides-quae-fe-que.html?m=1; https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/doenças-infecciosas/cestódeos-vermes-em-fita/infecção-por-taenia-solium-tênia-da-carne-de-porco-e-cisticercose)



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