JESUS ERA NEGRO
Ignorar o racismo nos púlpitos das igrejas ou nos debates teológicos é ter olhos, mas não conseguir enxergar, e ter ouvidos, mas perder a capacidade de ouvir (conforme as palavras do profeta Isaías no versículo 8 do capítulo 43 de seu livro) um pecado que assola o mundo.
(Imagem: Concepção artística do designer gráfico especialista em reconstituição facial forense Cícero Moraes mostra que judeus que viviam no Oriente Médio no século 1 tinham a pele, o cabelo e os olhos escuros)
É obrigação moral do teólogo classificar o racismo como pecado – portanto, como algo que avilta contra a face de Deus –, assim como é dos homens da Lei classificá-lo como crime e dos cidadãos em geral combatê-lo estruturalmente.
Diz nosso Senhor Jesus: “Eu, porém, vos digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a juízo. Também qualquer que disser a seu irmão: Racá, será levado ao tribunal. E qualquer que o chamar de idiota estará sujeito ao fogo do inferno” (Mateus 5:22). Cristo condenava o ato de agressão verbal como passível da ira divina. Imagina então atos que ultrajam contra o direito de existir do outro?
Sempre válido ressaltar que o maior líder da luta pelos direitos civis dos negros era um pastor batista: o norte-americano Martin Luther King Jr.
O Jesus histórico, apontam especialistas, muito provavelmente era moreno, baixinho e mantinha os cabelos aparados, como os outros judeus de sua época. A historiadora neozelandesa Joan E. Taylor, autora do livro “What Did Jesus Look Like?” e professora do Departamento de Teologia e Estudos Religiosos do King’s College de Londres, relata: “Os judeus da época eram biologicamente semelhantes aos judeus iraquianos de hoje em dia. Assim, acredito que ele tinha cabelos de castanho-escuros a pretos, olhos castanhos, pele morena. Um homem típico do Oriente Médio”. Já o designer gráfico brasileiro Cícero Moraes, especialista em reconstituição facial forense com trabalhos realizados para universidades estrangeiras, comenta: “Certamente ele era moreno, considerando a tez de pessoas daquela região e, principalmente, analisando a fisionomia de homens do deserto, gente que vive sob o sol intenso”. Por fim, o teólogo Pedro Lima Vasconcellos, professor da Universidade Federal de Alagoas e autor do livro “O Código da Vinci e o Cristianismo dos Primeiros Séculos”, pontua: “O melhor caminho para imaginar a face de Jesus seria olhar para algum beduíno daquelas terras desérticas, andarilho nômade daquelas terras castigadas pelo sol inclemente”.
Mas por que a imagem do Filho de Deus que mais comumente concebemos como a “real” é totalmente díspar dessa descrição? A matéria da BBC disserta: “Foram séculos e séculos de eurocentrismo – tanto na arte quanto na religião – para que se sedimentasse a imagem mais conhecida de Jesus Cristo: um homem branco, barbudo, de longos cabelos castanhos claros e olhos azuis. Apesar de ser um retrato já conhecido pela maior parte dos cerca de 2 bilhões de cristãos no mundo, trata-se de uma construção que pouco deve ter tido a ver com a realidade”.
Faz-se necessário produção intelectual e artística, além de arcabouço legal e ação política, para combater esse crime e pecado que é o racismo. Apesar de ainda engatinharmos enquanto sociedade nesse quesito, algumas mudanças são observáveis. O último censo oficial, de 2010, mostrou pela primeira vez que a população negra era majoritária no país, com 43,4% de pardos e 7,5% de pretos. No censo do ano 2000, mais de 53% dos brasileiros disseram ser brancos.
As pesquisas trimestrais realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com uma amostra representativa da população confirmam essa tendência nos últimos anos.
A mais recente, do segundo trimestre de 2021, reporta 45,9% de pardos, 8,8% de pretos e 44,2% de brancos.
O conceito de negro é definido pelo Estatuto da Igualdade Racial como: “O conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou que adotam autodefinição análoga”.
Por pardo, é entendido a pessoa que possui ascendência étnica de mais de um grupo, ou seja, mestiça. Essa miscigenação engloba: descendentes de negros e brancos, descendentes de negros com indígenas e descendentes de índios com brancos.
Outrora, muitos pardos tendiam a se classificar como brancos devido aos padrões sociais contaminados pelo racismo. Lembro-me de, quando adolescente, realizar procedimentos químicos para alisar o cabelo a fim de me enquadrar na moda apregoada dos meninos a lá Justin Bieber - e, aqui, logicamente não é uma crítica a quem efetua tais procedimentos no cabelo, pois cada um tem a liberdade de fazer o que quiser, mas sim uma autorreflexão do motivo que me levava a buscar o alisamento, isto é, sem nem ter consciência, era motivado pelo racismo alheio/social contra o meu tipo de cabelo.
No século XVI, a escravidão começou no Brasil e os índios são os primeiros a trabalhar nesse sistema. Os pretos africanos chegam à colônia na segunda metade do século. Já no século XVIII, o sistema começa em Minas, sendo escravos os pretos, mulatos, pardos e cabras (filhos de negros com índios). Leia com atenção: os pardos também eram escravizados. Tal concepção reforça que o ser “negro” trata-se de uma questão racial. Pretos e pardos são classificados no mesmo grupo de negros justamente por esse aspecto racial. Ambos eram os oprimidos.
Portanto, daí se explica o porquê durante tanto tempo nós pardos termos sido instruídos e pressionados a “parecer ser brancos” - o que, racialmente e historicamente, é uma mentira, pois os pardos foram escravizados junto com os pretos, pois os dois grupos fazem parte de um mesmo: negros.
Pardos estão se assumindo como negros graças aos resultados positivos da luta contra o racismo. Os grilhões que nos prendiam para “parecermos ser brancos” para tentar escapar do racismo (o que é uma fantasia, além de ceder ao opressor) foram quebrados em muitos, de forma que declarar-se negro é motivo de orgulho. Na minha certidão de nascimento está “pardo”, mas imagino quantos pardos não foram classificados como “brancos” como válvula de escape do racismo.
A luta é árdua. O caminho é longo. Até Jesus foi “embranquecido”. Mas toda luta justa vale a pena.
Finalmente, conclui-se que entender Jesus como negro não significa apenas fidelidade histórica e factual, mas corrigir e dar novos rumos a um “erro” proposital que foi a representação europeizada de Cristo. E cada vez mais essa consciência se dissemina. No filme “O Auto da Compadecida” (2000), por exemplo, Jesus Cristo é representado como um homem negro, brilhantemente interpretado pelo ator Maurício Gonçalves.
Teólogos, pastores, padres, evangélicos, católicos, espíritas, umbandistas, budistas, ateus... todos aqueles que têm o mínimo de empatia, independente de seu credo: não finjam que o racismo não existe. Adquiram consciência e combatam esse crime e pecado.
(Referências bibliográficas: https://www.bbc.com/portuguese/geral-43560077.amp; https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2021/11/19/interna_internacional,1324032/amp.html; https://www.diferenca.com/preto-pardo-e-negro/; https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/05/12/interna_gerais,293896/amp.html)
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