MELANCOLIA INERENTE À INTELECTUALIDADE
A melancolia é um termo advindo do grego “Melan” (Negro) e “Cholis” (Bílis), isto é, “melancholia”, significando, portanto, bile negra. Ela é classificada por Hipócrates a partir de um conjunto de sintomas: “aversão à comida, falta de ânimo, insônia, irritabilidade e inquietação” (CORDÁS, 2002, p. 20), e explicada como proveniente do desequilíbrio e da intoxicação do cérebro por um excesso anormal de bile negra. Nas palavras de Lambotte:
“da teoria antiga dos humores à teoria das revulsões do século XVIII, trata-se sempre da sobrecarga do cérebro, devida aos vapores de uma bílis em fermentação na primeira teoria, devida à pregnância da idéia fixa ou do falso julgamento na segunda” (LAMBOTTE, 1997, p. 27).
Anteriormente à concepção de Hipócrates sobre a “doença mental”, todo mal que afetava o homem: a perda da razão ou o adoecimento físico, era obra da punição ou vingança dos deuses. Aquele que se encontrava doente, enlouquecido, abatido, sem vida, pagava por um erro que ele mesmo havia cometido ou seus antepassados. Sobre uma base mitológica se constituía a explicação para o sofrimento na doença.
Com as ideias de Hipócrates e sua teoria dos humores (século IV a.C.), a concepção de doença deixa de ser vista como proveniente de um sobrenatural e passa a ser pensada em termos de um desequilíbrio humoral. A importância desta teoria, situada como um marco na história, reside no fato de que retira da doença seu estatuto sagrado e a coloca sobre uma base física (corporal) e, ou, “biológica especulativa”. O cérebro, em sua estreita relação com o corpo, passa a ser eleito como o centro das funções mentais e órgão portador das patologias (CORDÁS, 2002).
Diz-se que certo nível de melancolia é componente daquele que opta por uma rotina intelectual, isto é, o acúmulo de informações devidamente processadas e transformados em conhecimento culminariam fatidicamente num estado de desânimo - ou, para utilizar um termo da semântica filosófica, num niilismo.
Quando se aborda este tópico singular, há de se separar o joio do trigo, ou seja, o que procede e o que trata-se de mera especulação. Diz-se que o sujeito que lê muito a Bíblia Sagrada acaba ficando louco. Há dois pontos aqui: o primeiro seria que a compreensão da realidade além do materialismo (portanto, a noção da metafísica) abriria de tal forma a cosmovisão humana que inúmeras possibilidades surgiriam no campo de ideias a respeito da realidade; além disso, os eventos registrados nas Escrituras, desde a abertura do Mar Vermelho até a escatologia e seus fenômenos, teriam de ser levados em consideração; o porvir tornar-se-ia algo concreto, logo, naturalmente, esta vida presente ganharia novo sentido. O segundo ponto é que tal oração seria proveniente de tempos remotos nos quais a Reforma Protestante imperava e a Bíblia deixava de ser item exclusivo do clero e passou às mãos do povo, à medida em que traduzida para a língua vernácula. Tamanha disseminação, proporcionada também graças à imprensa de Johann Gutenberg, no século XV, descentralizaria uma interpretação teológica mediada eclesialmente e expandiria a possibilidade de conclusões hermenêuticas de maneira singular.
Parte do raciocínio mencionado se aplica à questão da melancolia e intelectualidade: a compreensão acerca da funcionalidade dos engenhos sociais, dos meios de produção, do aparelho estatal, da “psyché” e demais temáticas traria um grau de ceticismo ao indivíduo de tal forma que elemento algum seria irrelevante demais à sua ótica.
O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) produziu reflexões isentas de um ser divino envolvido. Portanto, seu ponto de divergência com Platão seria que não há imortalidade da alma, mas a filosofia pode ajudar a refletir sobre a morte. Além disso, o autor discorda da ideia kantiana de que as ações das pessoas sejam fundamentadas apenas na razão. Logo, a moral deve estar conectada com outros elementos da realidade além da racionalidade.
Um dos conceitos importantes no pensamento de Schopenhauer é o da Vontade. Segundo o filósofo, essa Vontade é aquilo que explica a conduta humana, algo que não possui uma finalidade, é cego, e não apresenta sentido. Ou seja, a realidade é guiada pela Vontade, e não pela razão.
Esse é um dos pontos que tornam Schopenhauer um autor “pessimista”. Afinal, se a base de tudo é a Vontade, a vida em si não possui um significado, uma finalidade, e a humanidade não se encaminha em um progresso contínuo. Na verdade, tudo é guiado sem um significado inerente.
Nesse contexto, o filósofo sugere que é preciso examinar a própria vida para poder encontrar uma felicidade e um bem-estar. Ao contrário, boa parte das pessoas estão interessadas apenas nos divertimentos e nas distrações, sem produzir uma reflexão consciente de si.
Portanto, Arthur Schopenhauer defende também a solidão como um componente fundamental para a felicidade – não apenas estar só, mas em bastar a si mesmo. De qualquer modo, é também na solidão que se alcança a verdadeira liberdade.
É emblemática a imagem de George Orwell com sua máquina de escrever, semblante depressivo, cercado por dezenas de bitucas de cigarros e copos com conhaque. O ensaísta político inglês compreendeu de maneira aguda parte da vertente de funcionamento do aparelho estatal no tocante aos regimes totalitários, e por isso dissertou em sua obra literária “1984” (1949) acerca do Grande Irmão cujos olhos rondam todo o tecido social (compreendendo o Estado macro como algo que coordena além de finanças e segurança populacional, mas também consumo cultural e prática religiosa). Também no seu “A Revolução dos Bichos” (1945), os porcos lideram um movimento na fazenda intentando a igualdade, mas acabam usufruindo de privilégios os quais os demais animais não tinham direito. Logo, é compreensível que tamanho pessimismo político de Orwell (que viria a impactar a era literária de seu tempo e após ele) resultasse numa melancolia - ou então, no mínimo, uma descrença em relação às engrenagens civilizatórias.
Ainda que a melancolia seja fruto da dedicação intelectual, creio que este seja o melhor caminho para a felicidade. Pode parecer contraditório, mas a felicidade que brota daquilo que não é efêmero pode resultar num desprendimento acerca do que é virtuoso aos olhos desatentos.
(Referências bibliográficas: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-44272009000200007; https://www.todoestudo.com.br/filosofia/arthur-schopenhauer)

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