O DEUS TAPECEIRO
Para nós cristãos, Deus é o que a Bíblia diz ao seu respeito. Por isso sabemos que Ele é provedor, salvador, protetor, etc. Afinal, todos esses atributos são descritos na Palavra. Porém, uma outra característica divina é a de não revelar de imediato todos os seus planos e propósitos para um filho ou filha, mas sim de pouco a pouco, a fim de exercitar a fé.
Quero compartilhar com vocês um pequeno texto que vi no site Recanto das Letras:
“‘Todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus que são chamados segundo o seu propósito.’ (Rom. 8:28)
Imaginem um tapeceiro. Eu não entendo nada da arte da tapeçaria mas sei que um tapete, além da finalidade, tem um desenho bonito de se ver. No entanto, o emaranhado de linhas, a mistura de cores e o movimento daquele que os tece não nos é claro. Num primeiro momento parece que nada faz sentido. Mas ele sabe o porquê das cores, sabe o fim desde o começo.”
Você já viu um tapete pelo avesso? É um emaranhado de fios! Se fôssemos basear uma possível compra de um tapete apenas com base nesta visão do avesso, jamais o levaríamos pra casa. Entretanto, se víssemos a parte da frente, na qual está a ilustração, teríamos o prazer de levar tão bela obra de arte para embelezar nosso lar. Mas, afinal, olhar o avesso significa visualizar da maneira errada, pois o avesso fica no chão, enquanto a parte de cima (que é onde está a arte) é que foi feita para ser mostrada e contemplada. Assim é o agir de Deus, com base nos relatos das Escrituras: Seu agir pode ser comparado com os fios do avesso do tapete, mas Seus planos configuram-se na bela obra de arte da frente do tapete.
Quando Deus falou para Abraão sair de sua terra e partir rumo a um local desconhecido, não lhe disse mais nada sobre a viagem e os acontecimentos que se sucederiam. Mas sabe qual foi o combustível de Abraão? A promessa de Deus. O Senhor lhe declarou: “Os seus descendentes vão formar uma grande nação. Eu o abençoarei, o seu nome será famoso, e você será uma bênção para os outros” (Gênesis 12:2).
Da mesma forma, quando Deus concedeu a José os sonhos de que ele exerceria um papel de autoridade (Gn 37), Deus não revelou que José seria quase vítima de assassinato por parte de seus próprios irmãos, iria parar literalmente no fundo do poço, ser vendido como escravo, ser preso injustamente, ser esquecido por aqueles a quem um dia estendeu a mão... ufa! Imagina na cabeça de José quando ele estava sendo levado à força pro Egito como escravo. Talvez, para ele, o Egito seria seu fim. Porém, para Deus, era apenas o começo, pois naquela terra a promessa ia se cumprir.
Deus não mostra o filme. Ele mostra o frame. Diz o pastor Felippe Valadão:
“Quando você assiste um filme de 2h você está assistindo milhões de quadros de imagens por segundo captados pela câmera de vídeo.
A sequência dessa imagens fragmentadas dá-se o nome de FRAMES.
Não sei se você sabe disso, mas uma animação por exemplo tem cerca de 24 Frames por segundo.
Os iPhones mais novos já fazem isso, você consegue escolher o Frame de uma sequência de fotos e até de vídeos.
O dia que eu descobri isso Deus falou comigo poderosamente.
Deus faz exatamente assim com a gente em nossa vida.
Às vezes eles nos fala pra fazer coisas que não fazem o menor sentido no momento, mas lá na frente a gente entende o motivo.
Quantas vezes Deus me deu direções sem o menos sentido, e então eu entendi que era apenas um frame da história.
Deus nunca vai te mostrar toda história, você não daria conta de suportar emocionalmente todas as batalhas, gigantes, altos e baixos, tempestades que uma jornada nos reserva.”
Deus faz exatamente assim com a gente em nossa vida.
Às vezes eles nos fala pra fazer coisas que não fazem o menor sentido no momento, mas lá na frente a gente entende o motivo.
Quantas vezes Deus me deu direções sem o menos sentido, e então eu entendi que era apenas um frame da história.
Deus nunca vai te mostrar toda história, você não daria conta de suportar emocionalmente todas as batalhas, gigantes, altos e baixos, tempestades que uma jornada nos reserva.”
Imagine uma viagem. Você está indo do Rio de Janeiro para São Paulo. Está de noite. Naturalmente, você liga os faróis do carro. Pense bem: a luz dos faróis vai iluminar todo o trajeto, do Rio a São Paulo? Claro que não! A iluminação ocorre à medida que você vai prosseguindo, certo? O mesmo ocorre com nossa jornada com Deus. À medida que andamos, Ele vai nos mostrando o caminho. Nas palavras do escritor inglês C.S. Lewis (1898-1963): “O ir faz o caminho”. E por que Deus escolheu agir assim? Para exercitar a fé.
“Ora, a fé é a certeza de que haveremos de receber o que esperamos, e a prova daquilo que não podemos ver.”
(Hebreus 11:1)
Pedro não entendeu muito bem o porquê Jesus se dispôs a desempenhar um trabalho legado aos serviçais: o de lavar os pés dos outros (essa prática era comum, pois no terreno árido de Israel, os pés facilmente ficavam cobertos de poeira, e então, quando chegavam em alguma casa, o serviçal lavava seus pés). E era mais absurdo ainda por ser um Mestre se colocando em posição de inferioridade em relação aos seus discípulos. “Você não compreende agora o que estou lhe fazendo; mais tarde, porém, entenderá” (João 13:7), disse Cristo ao apóstolo. E, de fato, Pedro viria a entender: bom líder é aquele que serve. Jesus não era o Messias guerreiro que expulsaria Roma ao fio da espada conforme muitos judeus esperavam, mas sim o Messias que libertou o homem das correntes que aprisionam a alma.
Deus é “tapeceiro” não apenas devido ao aspecto do Seu agir em nossas vidas (sentido micro), mas o raciocínio também se aplica no agir de Deus enquanto o controlador de toda a História (sentido macro). O teólogo Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) afirma:
“Toda a História está nas mãos do Senhor. Tudo o que acontece neste mundo está sob Seu controle, sem exceção.”
Se pensarmos em determinados episódios históricos, talvez achemos estranho que Deus estivesse no controle disso ou daquilo. Mas sim, Ele estava. O contrário seria afirmar que o Deus Soberano perde o controle em dados momentos. Não concordar com Seu agir significaria pressupor que faríamos um mundo melhor do que o dEle, conforme explica o pastor e filósofo Jonas Madureira no tocante a essa relação entre o pecado e a trajetória da humanidade:
“Quando a gente quer uma resposta clara (...) e diz ‘por que Ele não fez dessa forma?’ e oferece um mundo possível, a gente está dizendo: ‘Olha, eu acho que eu faria um mundo melhor do que o de Deus’. Então, há por detrás dessa questão também uma boa dosagem de orgulho e de uma noção de que, talvez, a gente conseguisse oferecer um mundo melhor se a gente tivesse justamente feito o mundo sem o pecado. Mas, por outro lado, existe uma razão bíblica pra justificar o porquê desse pecado e por que de tudo isso acontecer numa dimensão histórica.”
Um simples exemplo de como não existe coincidência, mas sim providência, e demonstra portanto o controle de Deus sobre a História, é a ligação entre a invenção da imprensa e a Reforma Protestante.
A invenção da máquina de imprensa pelo alemão Johann Gutenberg (1398-1468) ocorreu entre os anos de 1439 e 1440, operando uma mudança radical na forma de se ler e de se divulgar escritos (panfletos, jornais ou livros). A invenção da máquina de imprensa possibilitou a formação das comunidades de leitores (grandes massas de leitores que tinham acesso a livros até então de escassa circulação), bem como a formação de um aparato comercial em torno da leitura – algo que começou a aparecer no século XVIII.
O portal Mundo Educação relata:
“O sucesso da imprensa de Gutenberg começou sobretudo com sua impressão de cópias da Bíblia, ainda na década de 1440. Mas a utilização da imprensa tornou-se realmente intensa no século seguinte, com a Reforma Protestante empreendida por Martinho Lutero. Os panfletos luteranos, que começaram a ser veiculados em 1517, passaram a ser rodados nas máquinas de imprensa (réplicas do modelo de Gutenberg) dos vários principados alemães simpáticos à causa reformista. Essa disseminação dos escritos de Lutero por meio da impressa começou uma revolução sem precedentes na prática da leitura, haja vista que, antes disso, a demora em se fazer uma cópia à mão de um documento era enorme. Com a impressa, centenas eram feitas em um único dia.
A tradução que Lutero fez da Bíblia, do latim para o alemão, também foi impressa nos modelos da imprensa de Gutenberg. Isso ajudou ainda mais na disseminação da leitura e na proliferação do protestantismo na Europa, tornando esses dois fatos históricos correlacionados: a Reforma e a Imprensa, como bem destaca os historiadores Peter Burke e Asa Briggs:
‘Depois que as igrejas protestantes se estabeleceram, elas começaram a transmitir suas tradições por intermédio da educação das crianças. Peças, pinturas e impressos agora eram rejeitados em favor da palavra, fosse ela escrita ou falada, Bíblia ou sermão. Por outro lado, na primeira geração ([…] décadas de 1520 e 1530), os protestantes se baseavam no que pode ser chamado de ‘ofensiva da mídia’, não somente para comunicar suas próprias mensagens, mas também para enfraquecer a Igreja Católica, ridicularizando-a, usando o repertório tradicional do humor popular para destruir o inimigo pelo riso.’”
Encare os fatos de sua vida como os fios do avesso do tapete, e a sua vida como a arte da frente do tapete em si. Encare os fatos históricos como os fios do tapete, e a História como a ilustração do tapete em si. Se olharmos apenas para os fios, enxergaremos somente um emaranhado. Se contemplarmos o tapete, nos maravilharemos com tão bela obra de arte.
Por fim, que possamos refletir e admirar a bela canção “O Tapeceiro”, de Stênio Marcius:
“Tapeceiro
Grande artista
Vai fazendo o seu trabalho
Incansável, paciente
No seu tear
Grande artista
Vai fazendo o seu trabalho
Incansável, paciente
No seu tear
Tapeceiro
Não se engana
Sabe o fim desde o começo
Trança voltas, mil desvios
Sem perder o fio
Não se engana
Sabe o fim desde o começo
Trança voltas, mil desvios
Sem perder o fio
Minha vida é obra de tapeçaria
É tecida de cores alegres e vivas
Que fazem contraste no meio das cores
Nubladas e tristes
É tecida de cores alegres e vivas
Que fazem contraste no meio das cores
Nubladas e tristes
Se você olha do avesso
Nem imagina o desfecho
No fim das contas
Tudo se explica
Tudo se encaixa
Tudo coopera pro meu bem
Nem imagina o desfecho
No fim das contas
Tudo se explica
Tudo se encaixa
Tudo coopera pro meu bem
Quando se vê pelo lado certo
Muda-se logo a expressão do rosto
Obra de arte pra honra e glória
Do Tapeceiro”
Muda-se logo a expressão do rosto
Obra de arte pra honra e glória
Do Tapeceiro”
(Referências bibliográficas: https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-religiao-e-teologia/3694708; https://www.instagram.com/p/CgMkgoUAE7p/?igshid=YmMyMTA2M2Y=; https://m.youtube.com/watch?v=9JvQJEqsOow; https://mundoeducacao.uol.com.br/amp/historiageral/invencao-imprensa.htm)
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