CORAÇÃO DE MARTA E A EXPERIÊNCIA DO SAGRADO
Até que ponto nossa dedicação eclesiástica tem nos levado à disfuncionalidade em outras áreas igualmente importantes na conjuntura da espiritualidade?
Religiosos que eventualmente pontuam seus atos piedosos podem se escandalizar diante da crítica de Jesus à atitude de Marta, que dedicava-se ao serviço, a despeito de Maria, que optou por estar aos Seus pés: “‘Marta! Marta! Andas ansiosa e te afliges por muitas razões. Todavia, uma só coisa é necessária. Maria, pois, escolheu a melhor de todas, e esta não lhe será tirada’” (Lucas 10:42), advertiu o Mestre.
Se o pressuposto estiver errôneo, o templo pode servir como um fim do indivíduo para si mesmo, e não para Deus. Afinal, o “fazer” pode estar voltado não para um culto a Cristo, mas como um culto à própria imagem. Ora, o muito fazer certamente gerará uma imagem piedosa, dedicada e compromissada perante outrem. Agora, o que é realizado no quarto de oração ou para um pobre que pede esmola na rua, nem sempre é visualizado pelos demais fiéis.
Não trata-se de uma suposição o fato de se Jesus aprova ou não o serviço ministerial que leva à exaustão e deficiência em demais aspectos; antes, é uma certeza pautada pelas Escrituras que o Nazareno desaprova com veemência o chamado “coração de Marta”, que ainda reside em muitos religiosos, talvez impelidos por uma mentalidade produtivista oriunda do capitalismo obscuro, isto é, que a ação quantitativa e repetitiva naturalmente ocasionará uma recompensa. Entretanto, nas palavras do escritor britânico C.S. Lewis (1898-1963): “Deus não quer algo de nós. Ele simplesmente nos quer”.
Nós, seres humanos, costumeiramente fazemos algo que batizarei neste texto de “colagem”, isto é, nos apropriamos de um conceito de um contexto e aplicamos a outro conceito de um contexto díspar. Um evidente exemplo bíblico é de quando os mensagem de Jesus foram rejeitados por uma aldeia de samaritanos, e alguns de Seus discípulos próximos indagaram-lhe: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para que sejam aniquilados?” (Lc 9:54). Os discípulos sabiam a origem daquela ideia: o conhecido episódio em que o profeta Elias fez fogo cair do céu diante dos quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, que foram consumidos. Logicamente, a resposta de Cristo para tal proposta foi negativa.
O cerne da questão é: quantas vezes imputamos a Deus imagens externas a Ele, mas que divagamos que podem ser incorporadas à Sua personalidade?
Por exemplo, se a ideia do “produtivismo eclesiástico” em vista de uma recompensa é proveniente do capitalismo selvagem, a assiduidade extremista também. Trata-se daquela necessidade de frequência não oriunda de um espírito que deseja conectar-se com outros espíritos e que, juntos, conectar-se-ão ao Espírito, todos em comunhão, mas sim proveniente de um desejo (consciente ou não) de mostrar-se assíduo, para si mesmo e para outrem. É a mentalidade dos “Tempos Modernos” no templo: se eu (no caso, o sujeito) bato ponto na empresa a fim de ratificar a frequência, o mesmo eu faço o mesmo na igreja. Nada mais distante do Evangelho que quebra os grilhões, e não adiciona-os.
Tal fenômeno seria tão sintomático a ponto de restringirmos nossa experiência do sagrado ao templo – se é que ocorre uma experiência para o indivíduo cujo coração assemelha-se ao arquétipo de Marta?
Seria uma espécie de platonismo correndo nas veias de determinados arcabouços teológicos no sentido de arguir inferioridade do corpo (“sôma”) em relação à alma (“psyché”).
Que possamos recuperar a compreensão de que a corporeidade é também uma dimensão litúrgica, digna e disposta de experimentar o sagrado, sem efetuar uma tripartição desconciliatória, mas sim a unidade do ser.
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“De modo geral, o mundo perdeu o senso de assombro. Crescemos. Já não perdemos o fôlego diante de um arco-íris ou do perfume de uma rosa, como acontecia antes. Ficamos maiores e todo o resto ficou menor, menos impressionante. Tornamo-nos apáticos, sofisticados e cheios da sabedoria do mundo. Não deslizamos mais os dedos sobre a água, não gritamos mais para as estrelas nem fazemos caretas para a lua. Água é H2O, as estrelas foram classificadas e a lua não é feita de queijo. Graças à televisão via satélite e aos aviões a jato, podemos visitar lugares que no passado eram acessíveis apenas por Colombo, Balboa e outros exploradores intrépidos.
Houve um tempo, não muito distante, em que uma tempestade fazia um homem adulto estremecer e sentir-se pequeno. Deus, no entanto, está sendo deixado de lado pelo mundo da ciência. Quanto mais sabemos sobre meteorologia menos inclinados nos tornamos a orar durante uma tempestade. Os aviões voam agora acima, abaixo e entre elas. Os satélites reduzem-nas a fotografias. Que ignomínia - se é que uma tempestade pode experimentar a ignomínia - reduzida de teofania a mero incômodo.
(...)
A espiritualidade do assombro sabe que o mundo está carregado com graça; que embora o pecado e a guerra, a doença e a morte sejam terrivelmente reais, a presença e o poder de Deus no nosso meio é ainda mais real.
Sob o domínio do assombro fico surpreso, fico extasiado. É Moisés diante da sarça ardente, ‘temendo olhar para Deus’ (Ex 3:6). É Estêvão prestes a ser apedrejado: ‘Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus’ (At 7:56) e Michelangelo golpeando sua estátua de Moisés e ordenando: ‘Fale!’ É Inácio de Loyola extasiado diante do céu noturno. Teresa de Ávila arrebatada por uma rosa. É Tomé descobrindo seu Deus nas chagas de Jesus, Madre Teresa vislumbrando a face de Cristo nos pobres atormentados. São os Estados Unidos emocionados diante dos primeiros passos na Lua, uma criança soltando uma pipa ao vento. É uma mãe olhando com amor seu filho recém-nascido. É a maravilha do primeiro beijo.
Sob o domínio do assombro fico surpreso, fico extasiado. É Moisés diante da sarça ardente, ‘temendo olhar para Deus’ (Ex 3:6). É Estêvão prestes a ser apedrejado: ‘Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à destra de Deus’ (At 7:56) e Michelangelo golpeando sua estátua de Moisés e ordenando: ‘Fale!’ É Inácio de Loyola extasiado diante do céu noturno. Teresa de Ávila arrebatada por uma rosa. É Tomé descobrindo seu Deus nas chagas de Jesus, Madre Teresa vislumbrando a face de Cristo nos pobres atormentados. São os Estados Unidos emocionados diante dos primeiros passos na Lua, uma criança soltando uma pipa ao vento. É uma mãe olhando com amor seu filho recém-nascido. É a maravilha do primeiro beijo.
O evangelho da graça é brutalmente depreciado quando os cristãos sustentam que o Deus transcendente só pode ser honrado e respeitado adequadamente negando-se a bondade, a verdade e a beleza das coisas deste mundo.
Assombro e arrebatamento deveriam ser nossa reação ao Deus revelado como Amor.”
Assombro e arrebatamento deveriam ser nossa reação ao Deus revelado como Amor.”
(MANNING, Brennan. O evangelho maltrapilho. p. 89, 90-99, 100)
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“O domínio religioso não é, em hipótese alguma, o único campo no qual o ser humano expressa sua experiência de Deus. O teólogo alemão Paul Tillich disse que ‘a religião é a substância da cultura, e a cultura, a forma da religião’: ainda que se expresse por meios não religiosos, todas as ações humanas na direção da vida e do sentido humano de existir, em última instância, são experiências religiosas. Deus é o fundamento do ser e da vida e todo movimento humano de resistência às ameaças do não ser são não apenas sustentadas por Deus, como também manifestações da espiritualidade humana e da santidade da existência. Luiz Gonzaga cantando ‘Quando oiei' a terra ardendo/ Qual fogueira de São João/ Eu preguntei' a Deus do céu, uai/ Por que tamanha judiação?’, está não apenas fazendo arte, na verdade está fazendo prece. Cazuza cantando que os navios negreiros continuam a aportar na cidade que tem o Cristo de braços abertos ‘sem proteger ninguém’, é mais que um poeta incrédulo e pagão, é um ser humano perguntando sobre o lugar de Deus num mundo injusto e cruel. A canção onde Milton Nascimento confessa ser um permanente caçador de si mesmo é como um salmo que desnuda a alma humana. O Deus confinado aos templos, monopolizado pelos beatos, dissecado pelos teo-eruditos profissionais, é, definitivamente, pequeno demais, é, na verdade, um ídolo.”
(KIVITZ, Ed René. Pastor e teólogo)
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(Imagem: “Jesus na casa de Marta e Maria” (c. 1535-40), de autoria disputada, atualmente no Museu Grão Vasco, em Viseu, em Portugal)
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