DEUS É PAI
Os atributos que nós concebemos como sendo propriamente divinos são aqueles achados na Bíblia Sagrada – levando em consideração o “Sola Scriptura”, um dos lemas da Reforma Protestante.
Quando afirmamos, por exemplo, que “Deus é bom”, o fazemos porque a Palavra efetua essa declaração (Salmos 25:8, Lamentações 3:25-26, Salmos 100:5).
O mesmo se aplica à doutrina de que Deus é santo, pois ao longo da narrativa bíblica esse atributo aparece em inúmeras ocasiões (1 Pedro 1:15-16, Salmos 22:3, Apocalipse 4:8).
Agora, também possuímos a compreensão de que Deus é Pai, pois as Escrituras assim reverberam (Isaías 64:8, Lucas 11:11-13, Salmos 68:5, Isaías 9:6). Porém, o que significa o fato do Altíssimo ser relacionado à figura paterna?
Segundo o psicólogo suíço Carl Jung, todos nós temos algumas figuras fixadas em nosso imaginário desde a mais tenra idade. Essas imagens são formadas pela repetição progressiva de experiências, enraizadas no inconsciente coletivo. Dessa forma, elas estão em nossos pensamentos mesmo quando não percebemos e são fundamentais na construção de cada personalidade. À tal imagem dá-se o nome de “arquétipo”, isto é, um conceito que representa o primeiro modelo de algo, protótipo, ou antigas impressões sobre algo.
Para Jung, refere-se a conjuntos de imagens psicóides primordiais que dão sentido aos complexos mentais e às histórias passadas entre gerações, formando o conhecimento e o imaginário do inconsciente coletivo; agem como estruturas inatas, imateriais, com que os fenômenos psíquicos tendem a se moldar, e servem de matriz para a expressão e desenvolvimento da psique. Também é associado a experiências universais, como nascimento e morte.
Na prática, um arquétipo conhecido seria o da “mãe”, e um exemplo é o que nomeamos como “Mãe Natureza”. Sabemos que o meio ambiente não é uma mãe no sentido que o “Homo sapiens” concebe, como um indivíduo que gere, dá à luz, amamenta, protege e instrui. Todavia, à natureza atribui-se esse arquétipo porque nela observou-se características equivalentes com a figura materna: proteção, fornecimento de alimento, seio vital, etc.
Nesse sentido, a figura do “pai” também constitui-se em um arquétipo. No cotidiano, quando determinado sujeito adquire admiração por outro, geralmente com mais experiência, fala-se: “Ele é um pai pra mim”. Sabe-se que o referido não é o pai literal do autor da fala, mas para chegar a essa afirmação observou-se no objeto da oração qualidades típicas de um pai.
Logo, quando refere-se a Deus como “pai”, não significa no sentido primário que Deus é uma figura do gênero masculino e de meia idade, mas sim que em Sua pessoa (no sentido de consciência e liberdade, eis o que, segundo Santo Tomás de Aquino, caracteriza a pessoa, elevando-a acima de todos os “entes” que lhe são inferiores) há atributos típicos da figura paterna.
Não se sabe se o Pai (primeira pessoa da Trindade) é do gênero masculino. Jesus de Nazaré, sim, era do gênero masculino, pois no contexto da “kenosis” (cf. Filipenses 2) o esvaziamento da glória divina desemboca na encarnação do Verbo. E aqui vale pontuar: Jesus não apenas era do gênero masculino enquanto o Filho que se fez carne, mas ainda o é enquanto o Filho que ressuscitou e retornou para o seio da Trindade. A Bíblia relata que Tomé tocou nas feridas do Cristo ressurrecto (cf. João 20:24-31) e que este Jesus, já no corpo glorificado, comeu peixe assado e tomou um favo de mel (cf. Lucas 24:42-43). Conclui-se que a segunda pessoa da Trindade hoje possui marcas de Sua humanidade que, antes da encarnação na História, não existiam.
No livro “A Cabana”, de William P. Young, o autor desenvolve uma teologia para o público em geral e a cultura pop, e funciona brilhantemente. Na obra (que deu origem ao filme homônimo), o Pai é retratado como sendo uma mulher.
“Enquanto tentava estabelecer algum equilíbrio interno, a raiva voltou a emergir. Energizado pela ira, Mack foi até a porta. Decidiu bater com força para ver o que acontecia, mas, no momento em que levantou o punho, a porta se escancarou e diante dele apareceu uma negra enorme e sorridente.
(...)
‘Mackenzie, eu não sou masculino nem feminina, ainda que os dois gêneros derivem da minha natureza. Se eu escolho aparecer para você como homem ou mulher, é porque o amo. Para mim, aparecer como mulher e sugerir que você me chame de Papai é simplesmente para ajudá-lo a não sucumbir tão facilmente aos seus condicionamentos religiosos. (...) Se eu me revelasse a você como uma figura muito grande, branca e com aparência de avô com uma barba comprida, simplesmente reforçaria seus estereótipos religiosos’.”
(...)
‘Mackenzie, eu não sou masculino nem feminina, ainda que os dois gêneros derivem da minha natureza. Se eu escolho aparecer para você como homem ou mulher, é porque o amo. Para mim, aparecer como mulher e sugerir que você me chame de Papai é simplesmente para ajudá-lo a não sucumbir tão facilmente aos seus condicionamentos religiosos. (...) Se eu me revelasse a você como uma figura muito grande, branca e com aparência de avô com uma barba comprida, simplesmente reforçaria seus estereótipos religiosos’.”
Teologicamente, o que há de errôneo? Absolutamente nada. Afinal, em nenhum local das Escrituras especifica-se o gênero do Pai, mas apenas de Jesus (o Filho encarnado). Deus é chamado de “Pai” não por questão de gênero, mas sim devido aos atributos de sua figura que são similares a de uma figura paterna – logo, usa-se desse arquétipo.
Adquiriu-se essa compreensão do Pai enquanto um homem de barba branca e meia idade devido principalmente a “A Criação de Adão”, um afresco pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina entre os anos de 1508 e 1510, a pedido do papa Júlio II. “A Capela Sistina” é repleta de símbolos. Tem o primeiro registro de Deus representado em um corpo musculoso. Até aquela data, a maioria dos registros do Todo-Poderoso era por meio de uma luz divina, vinda do céu. O Deus de Michelangelo é uma reminiscência de Zeus, pois uma vez que o artista não possuía fonte primária alguma para representar o Pai, ele inspirou-se no deus-mór da mitologia grega (retratado como um homem mais velho, de barbas e cabelos brancos, símbolos de sabedoria, mas envergando uma forma física jovem e vigorosa).
Durante séculos, numa sociedade na qual apenas a nobreza e o clero eram instruídos nas letras e somente a segunda classe social possuía acesso à Bíblia, as obras de arte e imagens eram a forma de contato do povo com o sagrado. Nesse sentido, pela repetição de visualização e tradição (inclusive oral), a figura de Deus como esse Pai fixou-se no imaginário popular.
Contudo, não há heresia em afirmar que “Deus é Mãe”, pois se o sentido de chamá-lo de Pai reside nas qualidades inerentes, essas mesmas qualidades também se encontram na figura materna.
Logicamente, ainda estamos engatinhando como meio eclesiástico para incorporar tais compreensões. Diz-se que a Teologia está cerca de 200 anos à frente da Igreja. Muito do que se debate nas cátedras não chegam com o mesmo fulgor nos bancos. Contudo, de grão em grão, nossa mente se ilumina mediante a luz do Espírito Santo em prol de uma melhor compreensão da santa e eterna Palavra.
(Referências bibliográficas: https://www.resultadoemfoco.com.br/blog/sem-categoria/arquetipos-de-jung/; https://istoe.com.br/os-segredos-da-capela-sistina/; https://www.culturagenial.com/a-criacao-de-adao-michelangelo/amp/; “A Cabana”, de William Paul Young [págs. 73, 83 e 84; https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/dissertatio/article/view/17992; Medeiros, Fernando [2000]. “Um mar e possibilidades”; VAINFAS, DANIEL RIBERA [2017]. “On some aspects of Ducks”[PDF]. Pós-Graduação em Economia Política Internacional do Instituto de Economia [Tese de mestrado]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ)
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