ÊXTASE
Nas Escrituras Sagradas observamos o relato do clamor de Ana ao Senhor por um primogênito, sendo que participante daquela cena, o sacerdote Eli imaginou que ela estava embriagada pelo vinho (cf. 1 Samuel 1:9-18).
Em episódio similar, o livro de Atos registra que, mediante à manifestação espiritual de um grupo de pessoas no dia de Pentecostes, observadores inferiram: “Esses estão cheios de vinho novo!” (At 2:13).
O êxtase espiritual pode ser confundido com embriaguez alcoólica devido à similaridade de manifestações sensitivas que ambos os estados possuem. Todavia, enquanto o álcool altera de modo turvo a percepção epistêmica e cognição, o êxtase pode potencializá-los para além da matéria, atingindo um estado de consciência metafísica outrora neutralizada ou subtraída.
Enquanto em um organismo afetado pela substância alcoólica as faculdades cognitivas se inclinam à meândricidade, a elevação do espírito proporciona uma lapidação aguda das mesmas. Em suma, elementos outrora misteriosos ao campo de visão, olfato e audição mostram-se aos sentidos.
Além da narrativa bíblica, a História da Igreja também nos fornece relatos acerca dessa experiência de fervor espiritual. Santa Teresa de Ávila, que fundou a ordem religiosa das Carmelitas Descalços, investiu muito tempo e energia na oração e se tornou famosa pelas experiências místicas que teve com Deus e os seus anjos. O auge dos encontros angelicais de Santa Teresa aconteceu em 1559 na Espanha, enquanto ela orava. Um anjo apareceu e perfurou seu coração com uma lança de fogo que enviou o amor puro e apaixonado de Deus para sua alma, enviando-a ao êxtase.
Em sua autobiografia “Vida” (publicado em 1565, seis anos após o acontecimento), Teresa relembrou o aparecimento de um anjo flamejante - de uma das ordens mais próximas de Deus: a dos serafins ou os querubins. Teresa escreveu:
“Eu vi um anjo aparecer em forma corporal perto do meu lado esquerdo... Ele não era grande, mas pequeno e extremamente bonito. Seu rosto estava em chamas com tanto fogo que ele parecia ser uma das mais altas patentes de anjos, aqueles que chamamos de serafins ou querubins. Seus nomes, os anjos nunca me dizem, mas estou bem ciente de que no céu existem grandes diferenças entre os diferentes tipos de anjos, embora eu não consiga explicar.”
Então o anjo fez algo chocante: ele perfurou o coração de Teresa com uma espada flamejante. Mas aquele ato aparentemente violento foi na verdade um ato de amor, Teresa lembrou:
“Em suas mãos, eu vi uma lança de ouro, com uma ponta de ferro que parecia estar em chamas. Ele mergulhou em meu coração várias vezes, até minhas entranhas. Quando ele puxou para fora, ele pareceu atraí-las também, deixando-me em chamas de amor a Deus.”
Simultaneamente, escreveu Teresa, ela sentiu uma dor intensa e um doce êxtase como resultado do que o anjo havia feito:
“A dor era tão forte que me fez gemer várias vezes, mas a doçura da dor era tão grande que eu não poderia desejar me livrar dela. Minha alma não poderia estar contente com nada além de Deus. Não foi uma dor física, mas espiritual, embora meu corpo sentisse bastante. [...] Essa dor durou muitos dias, e durante esse tempo, eu não queria ver nem falar com ninguém, mas apenas apreciar minha dor, que me deu uma felicidade maior do que qualquer coisa criada poderia me dar.”
Retratando esse episódio, o artista italiano Bernini esculpiu “O Êxtase de Santa Teresa”, entre os anos de 1647 e 1652, que fica na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma.
Na língua grega, a palavra “êxtase” significa “sair para fora de si”. Ou seja, aquele estado psíquico em que um fenômeno místico toma a mente de uma pessoa e a leva para um plano espiritual, como se ela saísse do própria corpo. Consiste numa total anulação de si mesmo, para uma plena identificação espiritual com Deus.
Essa “anulação de si mesmo” pode ser constatada como consequência do encontro de Saulo de Tarso com o Cristo ressurrecto, na estrada para Damasco. Mediante a visualização daquela forte luz com uma voz que lhe indagava o porquê da perseguição contra os seguidores do Caminho, a Bíblia relata que o futuro apóstolo Paulo “por três dias esteve cego, durante os quais não comeu, nem mesmo bebeu” (Atos 9:9).
Experiências místicas de tal estirpe são atos divinos para o indivíduo, com o intuito de proporcionar-lhe maior convicção ou dedicação, seja como fruto da aplicação nas disciplinas espirituais (o que vai além de um asceticismo, mas sim intensidade e intencionalidade), seja como ato puramente de iniciativa de Deus por questão subjetiva.
(Imagem: “A Conversão de São Paulo”, de Michelangelo Caravaggio. 1600)
(Referências bibliográficas: https://pt.ndu.ac/an-angel-pierces-saint-teresa-avilas-heart; https://www.romapravoce.com/extase-santa-teresa-bernini/)
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