O JESUS REFUGIADO

Quando Filipe disse a Natanael que Jesus de Nazaré, filho de Maria e José, era o Messias prometido por Moisés na lei e pelos profetas, o segundo indagou-lhe: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1:46). Nazaré era uma região pobre e marginalizada da Galiléia. Era esperado que o Messias viesse de Belém, cidade de Davi, por causa da profecia (Miquéias 5:2). De fato, Jesus cumpriu com o profetizado (Mateus 2:1). Porém, por ter sido criado em Nazaré, terra de sua mãe Maria, foi inclusive chamado de “nazareno” (cf. João 19:19).

Quando eu era criança, tinha certo receio de me dizer capixaba. Eu nasci no estado do Espírito Santo, mas vim ainda bebê para Juiz de Fora (MG). O receio era devido ao fato de que todos os meus colegas de escola, da vizinhança e do futebol eram juiz-foranos. Eu me dizer “capixaba” me fazia sentir um “estranho no ninho”. Tinha certo temor de ser excluído ou sofrer piadas por ser de outro local.

Se Jesus sofreu preconceito por ser de outra região, imagina quantos latinos não sofrem preconceito nos Estados Unidos? Imagina quantos árabes não sofrem preconceito na Europa? Imagina quantos asiáticos não sofrem preconceito na América do Sul?

Se eu sentia temor e receio somente por ser de outro estado, imagina aqueles que chegam em outros países “sem lenço e sem documento”, fugindo de guerras?

Ah! Importante lembrar que o próprio Jesus Cristo foi um refugiado. Maria e José rumaram para o Egito com o menino Jesus nos braços fugindo do censo do rei Herodes, que planejava matar todos os recém-nascidos da região (cf. Mateus 2:13-23).

Segundo dados de 2021 da ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), pelo menos 89,3 milhões de pessoas em todo o mundo foram forçadas a deixar suas casas. Entre elas estão quase 27,1 milhões de refugiados, cerca de metade dos quais têm menos de 18 anos.

Agora, a pergunta é: o que a Igreja tem feito a respeito?

A Bíblia relata: “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como sincera e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e, especialmente, não se deixar corromper pelas filosofias mundanas” (Tiago 1:27). Aqui, “órfãos e viúvas” devem ser compreendidos como marginalizados, oprimidos, renegados. Portanto, é papel da Igreja voltar-se para esse aspecto social, não como favor, mas sim como parte de seu propósito e missão.

Parece que Hollywood tem feito um movimento rumo à consciência em prol dos imigrantes. A atriz mexicana Salma Hayek interpretou o papel de Ajak, líder do grupo dos Eternos, no filme de 2021 da Marvel Studios. O longa sul-coreano “Parasita” ganhou o Oscar de “Melhor Filme” em 2020. O cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu também foi contemplado com a estatueta dourada da Academia na categoria “Melhor Diretor” em duas ocasiões por seus trabalhos em “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” (2014) e “O Regresso” (2015).

E a Igreja? O que tem realizado?

É evidente que muitos teólogos, pastores e fiéis se dedicam a essa pauta de importância ímpar. Contudo, é preciso sermos mais agudos. Faz-se necessário disseminar essa consciência. Não podemos viver na redoma das quatro paredes do templo enquanto “órfãos e viúvas” padecem.

Finalizo com a provocação do escritor uruguaio Eduardo Galeano:


“O teu Deus é judeu, a tua música é negra, o teu carro é japonês, a tua pizza é italiana, o teu gás é argelino, a tua democracia é grega, os teus números são árabes, as tuas letras são latinas.

Eu sou teu vizinho. E ainda me chamas estrangeiro?”



(Referências bibliográficas: https://www.acnur.org/portugues/dados-sobre-refugio/; https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/137-dos-indignos-e-dos-indignados-36830)



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