PENSAR (COMO IGREJA)

O pensar consiste em um ato tão natural quanto qualquer outra pulsão no indivíduo. Trata-se de uma disposição remota do organismo humano, seja de forma consciente ou não. Ainda que não sistematize esse pensar, o ato existe - e aqui poderíamos conceituar uma distinção aristotélica. O filósofo Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) diz que o ato é a própria existência de algo, enquanto que a potência é tudo aquilo que um determinado ente pode vir a ser. No capítulo oito do livro IX da “Metafísica”, Aristóteles afirma que o ato é anterior à potência.

Na modernidade filosófica inaugurada por René Descartes (1596-1650), havia uma dicotomia entre natureza e espírito. O pensamento cartesiano partia da premissa de que o conhecimento era construído a partir de um corte vertical que separava sujeito e objeto, espírito e natureza. A partir daí, o sujeito faria uma intervenção metodológica sobre o objeto, sendo o conhecimento produzido derivado do método. O objeto, a natureza, não faz outra coisa a não ser se deixar explorar, sendo que Descartes não reconhecia a possibilidade de a natureza não se deixar explorar. Na episteme cartesiana, a natureza, o objeto, é sempre passivo.

Analisando o idealismo alemão (que contrapunha os ideais iluministas), segundo Immanuel Kant (1724-1804), não existia um estado racional puro, imune a qualquer influência ordinária, no qual o sujeito cognoscente pudesse se inserir para pensar a realidade idealmente. O que existe, conforme o raciocínio kantiano, são homens no mundo, representando a si mesmos nos seus esforços de representação da realidade.

Agora, o que a teologia entende como o ato de pensar?

A palavra “Teologia” é originária do grego “Theos” (Deus) + “Logos” (Estudo, Tratado ou Discurso). Platão (428 a.C.-347 a.C.) usou esse vocábulo com sentido de história de mitos e lendas dos deuses contadas pelos profetas. Na Grécia Antiga, os poetas foram os primeiros a se intitular “teólogos” por comporem versos em honra aos deuses. A palavra “teologia” parece ter sido incorporada à linguagem cristã nos séculos IV e V. Referia-se à genuína compreensão das Escrituras.

Fazer teologia, portanto, seria raciocinar como os deuses (na perspectiva grega) agiam em relação ao mundo (natureza e humanidade). Na ótica cristã, como Deus age em relação ao “cosmos” (universo).

Nesse sentido, naturalmente o estudo teológico preocupar-se-ia com os atributos divinos (quem Deus é, como Ele atua, qual a Sua revelação). Todavia, também consiste nas consequências do Seu ser, agir e conteúdo revelado na história humana.

Logo, fazer teologia (pensar sobre Deus e as demais ramificações provenientes desse pensar) é também responder questões históricas, visto que a figura divina não é descolada do historicismo. O teólogo alemão Karl Rahner (1904-1984) já dissertou sobre a Trindade Econômica, ou seja, a forma pela qual as três pessoas trinitárias se manifestam na História (“chronos”), diferente da Trindade Imanente, que é como essas três pessoas são na eternidade (“kairós”).

O escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936) dizia: “O homem não é um balão que sobe ao céu nem uma toupeira que vive unicamente cavando na terra, mas antes algo semelhante a uma árvore, cujas raízes se alimentam da terra enquanto os ramos mais altos parecem subir quase até as estrelas”. Isto é, há essas duas realidades na figura humana - oriundas da própria “imago Dei”. Há de se ter o equilíbrio, portanto.

O Papa João XXIII, considerado o pai da renovação da Igreja Católica, declarou na época de seu pontificado: “Vou abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa”. Na noite de sua eleição para o “trono de Pedro”, diante da multidão, pronunciou o memorável “Discurso à Lua”.

Observa-se a preocupação da Igreja em responder às questões propostas pelo mundo. O enclausuramento, seja litúrgico seja acadêmico, acarreta um prejuízo sem precedentes no próprio papel eclesiástico.

Ser um ponto de referência para as questões existenciais humanas e para os fatos que surgem no percurso histórico fazem parte do chamado da Igreja, conforme o ensinamento de Cristo:


“Vós sois a luz do mundo. Uma cidade edificada sobre um monte não pode ser escondida. Igualmente não se acende uma candeia para colocá-la debaixo de um cesto. Ao contrário, coloca-se no velador e, assim, ilumina a todos os que estão na casa.”

(Mateus 5:14-15)


Ser luz significa trazer compreensão ao que outrora estavam enebriado. E, segundo as palavras do nosso Senhor, da mesma forma que não há propósito em acender uma vela e escondê-la sob um cesto, como seremos luz apartados da realidade?

“O bom teólogo deve segurar a Bíblia em uma das mãos e o jornal em outra”, aconselhava Karl Barth, um dos maiores pensadores protestantes do século XX.

Pensar, como Igreja, significa exercer uma fé que não está desvinculada da realidade; pelo contrário, ilumina-a. Nas palavras do teólogo John Stott (1921-2011): “A fé e o pensamento caminham juntos; e é impossível crer sem pensar”. Significa utilizar do arcabouço teológico como também uma chave hermenêutica para interpretação da realidade - não como única chave, mas sim aliada. Se eu quero pensar acerca dos movimentos planetários na Via Láctea, recorrerei a um livro de Stephen Hawking para adquirir uma compreensão alicerçada na Física, mas também posso ler Gênesis a fim de compreender o que este documento afirma sobre a compreensão teológica na funcionalidade do universo.

Pensar é um ato natural humano. Como cristãos, em comunhão na Igreja, também.

Finalizo esse despretensioso artigo com algumas palavras do pastor Daniel Guanaes:


“Recentemente me perguntaram se a igreja poderia pensar ou repensar temas. Fiquei intrigado com a questão, particularmente por um pressuposto que ela parece carregar: a sugestão de que pensar ou repensar seja um problema à fé. A despeito de ter direito aos seus próprios dogmas, a igreja nasce e se fundamenta na práxis de Jesus. Deveria, assim, dar mais atenção ao método do seu Senhor. Judeu que era, Jesus tinha justamente na pergunta a força propulsora da sua pedagogia. Ensinava questionando, mais do que oferecendo respostas. Fomentava nos interlocutores justamente o desejo de pensarem e repensarem. Foi assim com o jovem rico, foi assim na parábola do bom samaritano, foi assim ao discutir a guarda do sábado, o pagamento de tributo a César e tantos outros temas. O valor que dava à Torá não o impedia de questionar os caminhos da fé. Pelo contrário, justamente por valoriza-la, se aproximava dela com perguntas. Uma antiga recomendação rabínica dizia: ergam uma cerca para a Torá. O provérbio pode parecer a alguns uma sugestão para que se mantenha uma certa distância protetiva do texto sagrado. Às tradições de Israel, no entanto, o conselho era recebido como um alerta para que aquela sabedoria não fosse perdida. Não se tratava de manter o texto intocado, mas de mantê-lo sempre acessível para que pudesse ser manuseado e explorado com o máximo de perguntas possíveis. A igreja é herdeira de uma fé baseada em fazer perguntas – algumas vezes profundas e difíceis – que parecem abalar as verdadeiras bases da própria fé. Só parecem. Porque pensar e repensar não são obstáculos à fé, mas constituem o seu próprio caminho. Perguntamos não porque duvidamos, mas porque acreditamos. Na maior parte das vezes a ausência de perguntas não é um sinal de maturidade na fé, mas de falta de profundidade.”



[Imagem: A escultura “O Pensador” (“Le Penseur”), do artista francês Auguste Rodin, faz parte de uma composição maior chamada “A Porta do Inferno”, que foi inspirada no poema “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. A obra foi iniciada em 1880, mas só foi totalmente finalizada em 1917.

Antes mesmo da Porta ser terminada, Rodin já havia feito outras versões de O Pensador, incluindo a famosa escultura de 1904.]



(Referências bibliográficas: https://core.ac.uk/download/pdf/233155601.pdf; https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2014/04/25/interna_mundo,424696/amp.shtml; https://www.culturagenial.com/o-pensador-de-rodin/amp/; https://www.instagram.com/p/CdyQaaOOl7H/?igshid=YmMyMTA2M2Y=)





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