POLÍTICA E RELIGIÃO
Hoje, dia 16 de agosto, se inicia a campanha eleitoral de 2022.
O próprio Jesus Cristo foi um cidadão que cumpria com seus direitos e deveres. Não é de assustar, pois, se no processo da “kenosis” Ele esvaziou-se de Sua glória para viver plena e harmonicamente com a natureza divina e humana (o que na teologia chama-se de “união hipostática”), logo, o Nazareno devia cumprir com os requisitos como qualquer outro indivíduo de Israel.
Não que os trâmites políticos tenham começado agora - pelo contrário, eventos, reuniões partidárias, carreatas e afins já estão ocorrendo há um bom tempo. Porém, a partir da presente data os pleiteantes podem pedir voto e declarar suas proposições de maneira clara e assertiva.
Antes de tudo, vale ressaltar que política não se restringe a esse período eleitoral que ocorre de 2 em 2 anos. Pode até ser que, na modernidade, adquiriu-se a compreensão de que os políticos são os que exercem cargos como representantes públicos (seja no Congresso Nacional ou na Prefeitura e Câmara Municipal) e que política consiste em distribuir santinhos, assistir propaganda eleitoral na TV e ouvir aqueles jingles que grudam na memória.
Todavia, se um grego do século V A.E.C. ouvisse essa definição atual do que é ser político e do que é a política em si, ele teria comichão nos ouvidos. Atenas foi o berço da democracia (“dêmos” = povo + “kratía” = poder), e nas cidades-Estado da Grécia Antiga, político não era quem por ventura possuísse um cargo na assembleia, mas sim todo e qualquer cidadão (claro, que se encaixasse nos requerimentos da época, isto é, ser homem, livre, maior de idade e não-estrangeiro).
Uma noção geral e abstrata que perpassa todos os lugares como “política” (a junção de “polis” com “tékhnē”). O segundo termo (“tékhnē”), “o ato de fazer ou cunhar algo”, é a origem, com algumas variações de interpretação, da técnica como nós a conhecemos atualmente. Já o primeiro (“polis”) era associado às independentes cidades-Estados localizadas próximas à península do Peloponeso, banhadas pelo mar Mediterrâneo, cujos habitantes falavam variações do grego antigo. Mas não apenas isso.
O termo também caracterizava a própria população, fazendo com que um grego dessa época se pensasse, primeiramente, como um “animal político”, ou “zoon politikon”, como escreveu Aristóteles (384 A.E.C.-322 A.E.C.), antes de ser um indivíduo. Aliás, a própria noção de “indivíduo”, como a conhecemos – de alguém isolado do seu entorno, da sua comunidade, vivendo uma vida “privada” –, deveria soar bastante estranha para um grego da época de Sócrates (469 A.E.C.-399 A.E.C.) e Platão (428/427 A.E.C.-348/347 A.E.C.).
Para esses homens comunitários, todas as ações eram políticas, “públicas”, por assim dizer. Não haveria, portanto, uma divisão tão clara entre a política, como a conhecemos hoje, e a ética. Por isso, quando Platão, no diálogo “Górgias”, coloca Sócrates, seu mestre e protagonista da maioria de suas obras, como o verdadeiro político, apesar de sua aversão às práticas mais comumente associadas na atualidade com o fazer político – como não participar de organizações ou associações, por exemplo –, tal afirmação não parecia um absurdo completo para seus conterrâneos.
Em outras palavras, levando em consideração a concepção aristotélica, tudo é política. Pois, se o homem é um animal político, e tudo o que ele faz é em vista de alcançar o bem-estar, sendo que esse bem-estar individual ocorre num escopo maior que é o bem-estar social, tudo o que o homem faz é política. Desde a reunião da escola dos filhos, a forma pela qual um bairro se organiza, até o que ocorre numa partida de futebol (a “política mimética”).
Até se formos pensar em termos pós-modernos, a citação vale: o preço que se paga pelo produto dos mercados é oriundo da política, a liberdade religiosa, o acesso à cultura, etc. Nesse sentido, até uma música que ouvimos nas plataformas digitais é política. É por isso que, como dissera o filósofo grego Platão (428-347 A.E.C.): “Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”.
O próprio Jesus Cristo foi um cidadão que cumpria com seus direitos e deveres. Não é de assustar, pois, se no processo da “kenosis” Ele esvaziou-se de Sua glória para viver plena e harmonicamente com a natureza divina e humana (o que na teologia chama-se de “união hipostática”), logo, o Nazareno devia cumprir com os requisitos como qualquer outro indivíduo de Israel.
Não sem motivo Ele respondeu de maneira simples e direta ao questionamento acerca do pagamento ou não de tributos:
“Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”
(Mateus 22:21)
Nesta réplica, Jesus estava se referindo à obrigatoriedade dos judeus em pagarem impostos ao Império Romano. Entretanto, o ensinamento é atemporal: a César, como personificação do Estado, devemos como cristãos exercermos nossa cidadania, o que não se confunde em abrir mão de nossa fé no Altíssimo; antes, por causa de nossa fé teremos o ímpeto de sermos bons cidadãos.
E Jesus vivia o que pregava: como judeu, Ele também pagava impostos.
“... vá ao mar e jogue o anzol. Tire o primeiro peixe que você pegar, abra-lhe a boca, e você encontrará uma moeda de quatro dracmas. Pegue-a e entregue-a a eles, para pagar o meu imposto e o seu.”
(Mateus 17:27)
Cristo estava dialogando com Pedro. Como bom Mestre, Ele estava ensinando Seu discípulo a também fazer o correto.
Um Estáter valia quatro dracmas. A moeda era, portanto, suficiente para pagar o imposto tanto de Jesus como o de Pedro.
Havia alguns peixes do mar da Galileia cuja boca era grande - o suficiente para engolir um estáter; o nome científico desse peixes hoje é “Chromis simonis” (assim chamado em homenagem a Simão Pedro), conhecido popularmente como “Peixe de São Pedro”.
Além da base bíblica, a História da Igreja ratifica que o meio eclesiástico deve propiciar e fomentar o pensamento político, como forma de melhor exercê-lo. O presbítero inglês Charles Haddon Spurgeon afirmou:
“Eu tenho ouvido: ‘Não traga a religião para a política’. É precisamente para este lugar que ela deveria ser trazida e colocada ali na frente de todos os homens como um candelabro.”
O chamado “Príncipe dos Pregadores” considerava que enxergar a política à luz das Escrituras seria algo benéfico não apenas para a Igreja, mas também para a sociedade como um todo - visto que fomos chamados para ser “sal da terra e luz do mundo” (Mateus 5:13-14), isto é, levar a Verdade para que todos sejam edificados.
Em seu site, o pastor João de Souza realiza algumas observações importantes acerca desse papel da Igreja (o conteúdo a seguir sobre essa temática foi retirado do site em questão). Na obra literária “Moby Dick”, de Herman Melville, o autor traça a trajetória do capitão Ismael que sai à caça do maior cachalote do mundo. Antes de sair ao mar o capitão assiste a um culto na pequena igreja da vila de pescadores. Na descrição de Melville, o púlpito fica numa parte alta da igreja, como se fosse na amurada de um navio. O pastor subiu por uma escada de madeira colocada junto à parede, como a de um navio por onde sobe o prático. A escada terminava no meio da parede, e dali o pregador alcançava o púlpito por uma escada feita de cordas vermelhas, que a esposa de um marujo tecera. Lá no alto, recolhe a escada de cordas e fica só, intocável, acima da congregação, no púlpito. Melville assim descreve o púlpito:
“Do púlpito saía uma saliência frontal, como projeção de obra ornamental, que imitava o exporão de uma nau, encimado por um anteparo de mesa. Que podia existir de mais significativo? – Pois o púlpito é sempre a parte mais adiantada da terra; tudo o mais vem depois dele: O púlpito conduz o mundo. Dele se divisa em primeiro lugar a tempestade da viva cólera de Deus, e a proa deve aguentar o primeiro impacto. Dele é que primeiro se clama por ventos favoráveis ao Deus das brisas propícias ou adversas. Sim, em sua travessia, e não viagem completa, o mundo é um navio; e o púlpito é a proa dele.”
O autor percebia que o mundo é conduzido através da mensagem pregada no púlpito, por isso sua frase ficou célebre: “O púlpito conduz o mundo”. O púlpito foi agente transformador nas mãos de pregadores comprometidos ao longo da História.
Spurgeon e Melville concordam entre si. O púlpito conduz o mundo, e a religião deve ser colocada na política à frente de todos, para trazer entendimento. Logo, dentre outros temas caros, a política deve sim ser tratada pela Igreja, seja nos púlpitos ou nos bancos entre os fiéis.
E, aqui, ressalta-se: “política e religião” é um conceito diferente de “Igreja e Estado”. E afirmar que a religião tem seu espaço na política não é díspar do Estado laico. É de Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos e principal autor da Declaração da Independência, a frase “muro de separação entre a Igreja e o Estado”. Daí nasceu a ideia de “separação Igreja-Estado” nos EUA. Nesse sentido, o Estado laico não foi criado para impedir que os religiosos (de qualquer vertente que for, não apenas o cristianismo) atuassem na esfera pública, mas sim proteger as religiões de eventual tirania estatal.
Se fosse verídica essa indissociação entre Política e Religião, a humanidade não teria sido beneficiada com homens da estirpe de Abraham Kuyper. Em 1874, ele foi eleito membro da Casa Baixa do Parlamento, como representante do recém-formado Anti-Revolutionaire Partij (ARP, Partido Anti-Revolucionário), que foi o primeiro partido político moderno da Holanda. Em 1901, o ARP chegou ao poder, e Kuyper foi convocado pela rainha Wilhelmina para ser o primeiro-ministro. Ele, que era filósofo, doutor em teologia e pastor, afirmou: “Eu descobri que as Santas Escrituras não somente fazem-nos encontrar a justificação pela fé, mas também mostram o fundamento de toda vida humana, as santas ordenanças que devem governar toda existência humana na sociedade e no Estado”.
Ademais, o que dizer de Martin Luther King Jr.? O maior nome da História moderna dos Estados Unidos era pastor batista (ele serviu numa igreja em Montgomery, no estado de Alabama). Filiado ao Partido Republicano, foi um dos principais líderes na luta contra a discriminação racial.
A oração a ser feita é que o Espírito Santo possa iluminar nossa mente para que possamos exercer de maneira efetiva nossa cidadania. Oremos também para que o Espírito Santo traga compreensão à Igreja, e que os que adormecem possam compreender seu papel como luz do mundo, levando para outrem uma melhor compreensão acerca de matéria tão singular como a política.
(Referências bibliográficas: ARISTÓTELES. A política. Introdução de Ivan Lins. Tradução de Nestor Silveira Chaves. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011; “Comentário Histórico Cultural da Bíblia”, NT, Keener, Ed. Vida Nova; https://m.facebook.com/UmaGotadeTeologia/posts/406254699841739?locale2=pt_BR; https://www.pastorjoaodesouza.com.br/123/?p=1018; https://www.conjur.com.br/2019-jan-08/suprema-corte-eua-decidir-governo-favorecer-religioes; https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/servindo-na-esfera-publica-para-o-bem-comum-na-holanda/amp/; “Why Martin Luther King Was Republican”. RICE, Frances. 08/16/2006; https://www.todamateria.com.br/martin-luther-king/amp/)
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