A DANÇA DA TRINDADE
Um dos livros que mudou a minha vida (espiritual e, por consequência, cotidiana) foi “A Cabana”, de William P. Young. Na obra, o Deus Pai (primeira pessoa da Trindade) é retratado como uma mulher, e apesar de esse fato ter sido alvo de alguma polêmica, não há erro teológico algum. Pelo contrário: a Bíblia só afirma o gênero de Jesus encarnado, um homem que vivia na Galiléia. Agora, se o Pai é concebido como sendo do gênero masculino, muito se deve às representações artísticas, principalmente a famosa “A Criação de Adão”, pintada no teto da Capela Sistina em 1511 pelo renascentista Michelangelo – que, por sua vez, se baseou em Zeus, deus-mór da mitologia grega, para retratar o Pai.
Há um trecho do livro que me emocionou por expressar um relacionamento íntimo e familiar da Trindade, que desemboca no relacionamento de Deus mesmo com a humanidade.
“De repente um estrondo terrível rompeu seu devaneio. Vinha da direção da cozinha e deixou Mack paralisado. Por um momento houve um silêncio mortal e depois, inesperadamente, gargalhadas retumbantes. Curioso, saiu do banheiro e enfiou a cabeça pela porta da cozinha.
Mack ficou chocado diante da cena. Jesus deixara cair uma grande tigela com algum tipo de massa ou molho no chão, e a coisa tinha se espalhado por toda parte. A barra da saia de Papai e seus pés descalços estavam cobertos pela massa gosmenta. Sarayu disse alguma coisa sobre a falta de jeito dos humanos e os três caíram na risada. Por fim, Jesus passou por Mack e voltou com toalhas e uma grande bacia de água. Sarayu já estava começando a limpar a sujeira do chão e dos armários, mas Jesus foi direto até Papai e, ajoelhando-se aos pés dela, começou a limpar a frente de seu vestido. Gentilmente levantou um pé de cada vez e colocou os dois na bacia, onde os limpou e massageou.
– Uuuuuh, isso é tãããão bom! - exclamou Papai.
Encostado no portal, Mack não parava de pensar. Então Deus era assim no relacionamento? Muito linda e atraente! Ele sabia que ninguém estava em busca do culpado pela sujeira do chão, pela tigela quebrada ou por um prato que não seria compartilhado. Era óbvio que o que realmente importava era o amor que eles sentiam uns pelos outros e a plenitude que esse amor lhes trazia. Balançou a cabeça. Como isso era diferente da maneira como ele tratava seus entes queridos!
Embora simples, o jantar foi um banquete. Algum tipo de ave assada com uma espécie de molho de laranja, manga e alguma outra coisa, verduras frescas temperadas com sabe-se lá o quê, com gosto de fruta e de gengibre, e arroz de uma qualidade que Mack jamais havia provado. Por hábito, abaixou a cabeça para orar.”
(YOUNG, William P. A Cabana. Págs. 95 e 96)
Lindo, não? Eu imaginei a cena direitinho: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, juntamente com Mack (que personifica o ser humano) naquela singela cabana, dando gargalhadas em meio à mesa do banquete.
Desde os primórdios da fé cristã, a Trindade é representada com essa leveza. Vitor Germano explica em seu blog:
“Os teólogos antigos usavam excelente ilustração da dança: uma dança da comunhão perfeita. Os antigos a chamaram de pericorese. Isso fala a respeito da Diviníssima Trindade em seu dinamismo, vitalidade e energia.
(...)
‘Pericorese’ é um termo grego, encontrado pela primeira vez na literatura patrística, nas obras de Gregório de Nazianzo. Ele foi um dos grandes defensores da doutrina da Trindade.
Vamos ao termo.
‘Pericorese’ (περιχώρησις - ‘Perichoresis’) é um termo grego, que descreve uma dança de roda, característica das crianças em momento de brincadeiras.
A) peri, que significa ‘movimento circular’;
B) corea, que significa ‘dança’, (coreografia);
C) esis, que é um sufixo usado para formar palavras de ação ou processo.
Assim, pericorese era a palavra para o nome de uma dança tradicional em que um grupo de pessoas, geralmente crianças, dançava de maneira circular e de mãos dadas. Uma criança ficava no meio enquanto as outras, de mãos dadas ficavam girando ao seu redor em círculo. Em certo momento a criança que estava no meio vinha para a roda e alguma da roda vinha para o meio.”
Percebe como a Trindade não deve ser concebida com aquele olhar sisudo da religiosidade, mas sim com a suavidade de quem também faz parte dessa dança?
Sim, Jesus orou para que nós entendêssemos esse convite, e seu sacrifício na cruz sacramentou nosso acesso:
“Não oro somente por estes discípulos, mas igualmente por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como Tu estás em mim e Eu em Ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste. Eu lhes tenho transferido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos: Eu neles e Tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que Tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim.”
(João 17:20-23)
Essa é a matemática do Reino: assim como Jesus é um com o Pai, que nós também sejamos um com eles (e, claro, mais o Espírito).
Alessandro Vilas Boas, em seu livro “Jesus: um Pai de família” (págs. 40 e 41), comenta essa marcante passagem bíblica:
“O amor que vincula as três pessoas da Trindade em uma dança perfeita de unidade é o amor com que o Pai nos ama. Jesus disse que, assim como o Pai O ama, o Pai ‘nos ama’. Como você imagina que seja o amor do Pai pelo Filho, sendo Jesus um dos integrantes da Trindade, ou seja, um Filho que é ‘um’ com o Pai? Esse amor é o mesmo do Pai para com aqueles que foram feitos filhos, em Cristo.
E tem mais. O Filho nos chama à dança: ‘para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim’. A obra do Messias, do Redentor, possibilitou nossa entrada em uma coreografia eterna de unidade!
(...)
Meu amigo, isso não é trivial. Não somos o quarto ser da Trindade, mas experimentamos dela à medida que estamos em Jesus e Jesus, em nós! Repito as palavras do Mestre: ‘eu neles, e tu em mim’. Ser um com Jesus é ter o privilégio de participar da dança eterna que define perfeitamente o significado de unidade. Em Cristo, somos participantes daquilo que a Trindade vive. Que mistério incrível!”
E que esse mistério faça nosso coração arder em amor por Jesus e por vontade de participar dessa dança eterna a qual somos convidados a desfrutar desde já!
(Referências bibliográficas: https://vitorgermano.blogspot.com/2019/02/a-danca-da-trindade-pericorese.html?m=1; Imagens: Instagram do Ângelo Bazzo)
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