CLAMOR ANIMAE
Diante da carranca assombrosa da realidade, buscamos refúgio na arte.
A arte possui o aspecto da intelectualidade no quesito da necessidade de se adquirir um certo volume de informações a fim de compor uma robusta cosmovisão. Por tal motivo, debruçar-se sobre a História da Filosofia é imprescindível antes de qualquer anseio em filosofar. Sob os ombros dos gigantes enxerga-se o horizonte.
Levando em conta o Idealismo Alemão, com destaque para os vultos Immanuel Kant, Johann Fichte, F. W. J. Schelling e Friedrich Hegel, não existe razão pura, pois a subjetividade sempre “contamina” a razão quando esta se propõe a analisar a natureza. Logo, adquirir outras subjetividades (visões) constrói uma síntese mais robusta. Não vou me ater a citar Friedrich Nietzsche e a crença na inexistência da verdade, ou, em suma, a negação da possibilidade de conhecimento de uma verdade substancial a partir da afirmação de presença de um filtro cognitivo que transforma todo conhecimento em manifestação de conceitos previamente elaborados pelo sujeito cognoscente...
Há algo até de sacro na arte. São Basílio de Cesareia (330 - 379 d.C) arguiu: “Se há alguma afinidade entre as ciências sagradas dos livros santos com aquelas dos autores profanos, isto nos será vantajoso conhecer”.
Portanto, é inegável que a arte está ligada à representação da realidade de maneira crítica e convidativa à introspecção e reflexão. Se formos remontar aos primórdios e fazermos alusão ao teatro grego, por exemplo, cuja origem é no século V a.C., ele foi ferramenta de discussão sobre a organização social e política da sociedade, tratando de temas ligados ao humano, aos deuses, à ética e à política. Suas potencialidades foram reconhecidas como material de reflexão para o próprio desenvolvimento da sociedade. [1]
Todavia, a arte também serve de refúgio para as mazelas deste mundo. Quando Martin Scorcese afirma que Marvel não é cinema, compreendo a visão do gênio norte-americano, pois ele é oriundo do movimento da Nova Hollywood (que nos legou filmes como “O Exorcista”, de 1973, dirigido William Friedkin, que colocou na tela o horror inconcebível em tempos da Era de Ouro seguindo a classificação de “filme família”; “Tubarão”, de 1975, do grande Steven Spielberg, segue essa mesma linha do “sangue na tela” e monstros em ação; “Star Wars”, franquia iniciada em 1977 por George Lucas, imagina o que há além das estrelas; “Superman - O Filme”, de 1978, no qual o diretor Richard Donner fez uma geração acreditar que o homem poderia voar). Da mente de Scorcese fomos brindados com “Taxi Driver” (1976), só para citar um clássico. Logo, o cinema inventivo e quebrando padrões era a fonte que Scorcese e cia. beberam, e conhecimento não lhes faltava, pois eram os “moleques” oriundos da faculdade que tinham a História do cinema na ponta da língua (ou na lente das câmeras).
Entretanto, desculpe-me Scorcese: há momentos que tudo o que queremos é assistir um blockbuster de super-herói com um balde de pipoca em mãos (o que, na minha visão, é sinal da intelectualidade plena: a mente permeada de informações necessita de um escape, senão implode. A mente vazia tem pouco a se abster da realidade pois já vive em uma abstenção constante).
A realidade, por vezes, torna-se insuportável. Os Beatles viram Lucy no céu com diamantes para escapar da tormenta terrena e acabaram por parir uma letra bem terrena – suas poesias em formas de canções dissecam a realidade como uma faca corta um abacaxi, desde abordagens sobre o amor até a solidão humana.
O grito é palpável. É um eco das dores da alma. Fugir não é para os covardes, mas sim para os loucos que desejam manter a mente sã.
(Referência bibliográfica: [1] https://www.todoestudo.com.br/artes/o-teatro-grego)

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